Segredos Entre Nós: Quando o Amor se Torna Dever
— Não faças isso, Mariana. Por favor, pensa bem! — A voz da minha mãe ecoava pelo corredor frio do cartório em Lisboa, enquanto a chuva batia com força nas janelas. O meu vestido branco parecia pesado, como se absorvesse toda a humidade daquela manhã de março. O Ricardo olhava para mim, os olhos castanhos fixos, mas vazios de paixão. Eu sabia que não o amava. Mas precisava de estabilidade, de um porto seguro depois de anos a ver o meu pai afundar-se em dívidas e a minha mãe a chorar baixinho na cozinha.
— Mãe, já está decidido — respondi, tentando controlar o tremor na voz. — O Ricardo é um bom homem. Vai cuidar de mim… de nós.
Ela abanou a cabeça, os olhos vermelhos de tanto chorar. O meu irmão mais novo, o Tiago, nem sequer apareceu. Disse que não conseguia ver-me a entregar-me assim, como se fosse um negócio.
O juiz chamou-nos. A cerimónia foi rápida, quase mecânica. Quando trocámos alianças, senti um arrepio gelado percorrer-me a espinha. “Isto não é amor”, pensei. “Isto é sobrevivência.”
Os primeiros meses foram estranhos. O Ricardo era educado, atencioso até demais. Comprava flores todas as sextas-feiras e deixava bilhetes doces na mesa do pequeno-almoço. Mas havia sempre uma distância entre nós, como se ambos soubéssemos que estávamos a representar papéis num teatro mal ensaiado.
A minha mãe vinha visitar-me frequentemente. Sentava-se à mesa da cozinha e olhava-me em silêncio, como se procurasse sinais de felicidade no meu rosto.
— Estás bem, filha? — perguntava ela, baixinho.
— Estou — mentia eu, sorrindo para não a preocupar.
Mas à noite, quando o Ricardo adormecia ao meu lado, eu ficava acordada a olhar para o teto, a perguntar-me se algum dia sentiria algo mais do que gratidão por ele.
O tempo passou. O Tiago foi estudar para o Porto e raramente vinha a casa. O meu pai morreu de repente, um ataque cardíaco fulminante depois de mais uma discussão sobre dinheiro. Fiquei sozinha com a minha mãe e com o peso das escolhas que tinha feito.
Foi numa dessas noites solitárias que ouvi o Ricardo ao telefone na sala. A voz dele estava tensa, quase desesperada.
— Não posso continuar assim… Sim, eu sei quanto devo… Mas ela não pode saber… Não agora…
O coração bateu-me descompassado. Espreitei pela porta entreaberta e vi-o sentado no sofá, com a cabeça entre as mãos. Quando me viu, tentou sorrir.
— Mariana! Não consegui dormir… Estava só a resolver umas coisas do trabalho.
Assenti, mas dentro de mim crescia uma suspeita antiga: talvez não fosse só eu a esconder segredos.
Na manhã seguinte, fui ao banco levantar algum dinheiro para ajudar a minha mãe com as contas da casa. Quando cheguei ao balcão, a funcionária olhou para mim com pena.
— Sra. Mariana, lamento informar mas há um bloqueio na sua conta conjunta… Dívidas acumuladas…
O chão fugiu-me dos pés. Saí do banco sem saber como reagir. Em casa, confrontei o Ricardo.
— O que é que se passa? Porque é que temos dívidas?
Ele ficou pálido.
— Mariana… Eu tentei resolver tudo sozinho… O negócio do meu pai faliu e eu fiquei responsável pelas dívidas dele… Não queria preocupar-te…
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.
— E achaste que esconder-me isto era melhor? Achaste que eu não tinha direito de saber?
Ele aproximou-se, tentando pegar-me nas mãos.
— Eu só queria proteger-te…
Afastei-me.
— Proteger-me? Ou proteger-te a ti próprio?
A partir desse dia, tudo mudou entre nós. A confiança — se é que alguma vez existiu — desapareceu por completo. As noites tornaram-se longas e silenciosas. A minha mãe adoeceu e precisei de cuidar dela sozinha. O Tiago ligava de vez em quando, mas sentia-se distante, como se a nossa família tivesse sido irremediavelmente partida pelo peso dos segredos e das dívidas.
Um dia, depois de mais uma discussão com o Ricardo sobre dinheiro e responsabilidades, sentei-me à janela do nosso pequeno apartamento em Benfica e chorei como há muito não chorava. Senti-me presa numa vida que nunca escolhi verdadeiramente.
O tempo foi passando e fui aprendendo a viver com menos: menos sonhos, menos esperança, menos ilusões. O Ricardo tentou reconquistar-me várias vezes — jantares surpresa, viagens curtas à Serra da Estrela — mas nada parecia suficiente para colar os pedaços partidos do nosso casamento.
A doença da minha mãe agravou-se e ela acabou por falecer numa tarde cinzenta de novembro. No funeral, o Tiago abraçou-me com força e sussurrou:
— Desculpa nunca ter estado lá quando precisaste…
Chorei nos braços dele como uma criança perdida.
Depois disso, comecei a pensar seriamente em separar-me do Ricardo. Mas havia sempre algo que me prendia: o medo da solidão, o peso das dívidas conjuntas, a sensação de fracasso perante todos aqueles que tinham acreditado em nós.
Certa noite, sentei-me com o Ricardo na sala e falei-lhe abertamente pela primeira vez em anos:
— Não posso continuar assim. Não é justo para nenhum de nós.
Ele olhou para mim com lágrimas nos olhos.
— Eu amo-te, Mariana… Mesmo que nunca tenhas conseguido amar-me de volta.
Senti pena dele — e talvez também de mim própria.
— Talvez um dia possamos perdoar-nos pelas escolhas erradas… Mas agora preciso encontrar-me outra vez.
Arrumei algumas roupas numa mala pequena e fui para casa do Tiago no Porto durante uns tempos. Lá reencontrei uma parte de mim que julgava perdida: comecei a trabalhar numa livraria local e fiz novos amigos. Pela primeira vez em muitos anos senti esperança no futuro.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas famílias portuguesas vivem presas em silêncios e dívidas? Quantas Marianas existem por aí, sacrificando-se por um pouco de segurança? Será que vale mesmo a pena construir uma vida sobre segredos?
E vocês? Já sentiram que estavam a viver uma vida que não era verdadeiramente vossa?