Regresso à Casa da Avó – Onde Agora Vivem Outros

— Não entras? — perguntou o Rui, com a voz baixa, enquanto eu olhava para o portão enferrujado da casa da avó Rosa. O frio daquela manhã de janeiro parecia cortar-me a pele, mas era dentro de mim que o gelo se formava. O portão, outrora pintado de verde-escuro, estava agora coberto de ferrugem e musgo. A casa parecia mais pequena do que nas minhas memórias, mas o peso no peito era maior do que nunca.

— Não sei se consigo — murmurei, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. — E se não me reconhecerem? E se… já não for minha?

O Rui apertou-me a mão. — Vieste até aqui. Não podes voltar atrás agora.

Respirei fundo e empurrei o portão. O rangido ecoou pela rua deserta, como se a própria casa protestasse contra a minha chegada. Caminhámos pelo jardim, onde as roseiras da avó estavam secas, e bati à porta. Ouvi passos apressados do outro lado e, de repente, uma mulher abriu a porta. Era jovem, talvez da minha idade, com olhos castanhos atentos e um avental manchado de farinha.

— Bom dia? — disse ela, desconfiada.

— Desculpe incomodar… Eu sou a Mariana. Esta casa era da minha avó Rosa.

Ela ficou em silêncio por um instante, depois sorriu timidamente.

— Eu sou a Sofia. Comprámos esta casa há dois anos. Entre… se quiser.

O Rui olhou para mim, hesitante, mas eu já tinha dado um passo em frente. O cheiro de pão quente misturava-se com o aroma antigo das madeiras. As paredes estavam pintadas de branco, mas ainda reconhecia as marcas dos quadros que a avó pendurava. No canto da sala, o velho relógio de parede continuava lá — parado às 3h17, a hora em que ela morreu.

Sentei-me no sofá novo, sentindo-me uma intrusa na minha própria história. Sofia trouxe chá e pão acabado de fazer.

— Desculpe perguntar… mas como é que ficou sem a casa? — perguntou ela, baixando os olhos.

O Rui respondeu antes de mim:

— Foi complicado. A mãe da Mariana vendeu a casa sem lhe dizer nada, pouco depois da avó falecer. Só soubemos quando recebemos uma carta do advogado.

Sofia mordeu o lábio inferior.

— Eu não sabia… Sinto muito.

Olhei para ela e vi sinceridade nos seus olhos. Mas dentro de mim crescia uma raiva antiga — não contra ela, mas contra a minha mãe, que sempre me acusou de ser ingrata, que nunca me perdoou por ter escolhido ficar com o pai quando se separaram.

Lembrei-me das noites em que dormia no colo da avó Rosa, ouvindo histórias sobre o Douro e os amores proibidos da juventude dela. Lembrei-me do cheiro do arroz-doce nos Natais e das discussões entre a minha mãe e o meu tio Luís sobre quem ficaria com o quê. No fim, foi a minha mãe quem levou tudo — até as cartas antigas do meu avô.

— Mariana? — chamou o Rui, baixinho. — Queres ir ver o quintal?

Assenti e saímos para o jardim. O limoeiro ainda lá estava, mas as laranjeiras tinham desaparecido. No canto do muro, vi uma bicicleta pequena encostada — devia ser do filho da Sofia.

— Sabes… — disse eu ao Rui — sempre achei que um dia voltaria para aqui com os nossos filhos. Que lhes mostraria onde aprendi a andar de bicicleta, onde plantei as primeiras flores com a avó…

Ele abraçou-me.

— Ainda podes criar novas memórias noutro lugar.

De repente ouvi vozes vindas da cozinha. Sofia falava com alguém ao telefone:

— Sim, mãe… Ela está aqui. Sim, aquela Mariana… Não sei o que fazer! — A voz dela tremia.

Voltei para dentro e vi Sofia com lágrimas nos olhos.

— Desculpe… Não queria ser indelicada. Só… só fiquei nervosa. A sua mãe ligou-me há uns meses, sabia? Disse-me para não lhe abrir a porta se algum dia aparecesse aqui.

Senti um nó na garganta.

— A minha mãe? Porquê?

Sofia encolheu os ombros.

— Disse que era melhor assim. Que havia coisas do passado que era melhor não remexer.

O Rui olhou para mim com preocupação.

— Mariana… talvez devesses falar com ela.

A raiva voltou com força. Lembrei-me das palavras frias da minha mãe quando lhe perguntei pela casa:

— Isso já não te diz respeito! A vida é feita de escolhas, Mariana. Fizeste as tuas.

Mas eu só tinha 17 anos quando decidi ficar com o pai no Porto. Não sabia que isso me custaria tudo: a casa da avó, as cartas do avô, até o direito às memórias.

Sofia aproximou-se e tocou-me no braço.

— Se quiseres vir cá quando quiseres… para ver o jardim ou só para conversar… esta casa também pode ser tua, de outra forma.

Chorei pela primeira vez em anos. Chorei pela avó Rosa, pelo avô Manuel que nunca conheci, pelas tardes perdidas e pelas palavras nunca ditas à minha mãe. Chorei por mim mesma — por ter esperado tanto tempo para voltar.

Na viagem de regresso ao Porto, o Rui ficou em silêncio até eu perguntar:

— Achas que algum dia vou conseguir perdoar a minha mãe?

Ele sorriu tristemente.

— Acho que só tu podes responder a isso.

Durante semanas tentei ligar à minha mãe. Ela não atendeu nenhuma vez. Enviei-lhe uma carta — longa, cheia de mágoa e saudade — mas nunca recebi resposta.

Entretanto comecei a visitar Sofia e a família dela aos domingos. O filho dela chamava-se Tomás e adorava ouvir as histórias da avó Rosa que eu contava enquanto brincávamos no jardim. Aos poucos fui percebendo que aquela casa já não era minha — mas as memórias eram. E podia partilhá-las com quem quisesse.

Um dia recebi uma mensagem inesperada do meu tio Luís:

— Mariana, precisamos falar sobre a tua mãe. Ela está doente…

O chão fugiu-me dos pés. Corri para Lisboa no mesmo dia e encontrei-a no hospital: magra, envelhecida, mas ainda com aquele olhar duro que sempre me intimidou.

— Vieste… — murmurou ela, sem emoção aparente.

Sentei-me ao lado dela e peguei-lhe na mão pela primeira vez em anos.

— Vim porque és minha mãe… E porque preciso de respostas.

Ela fechou os olhos e suspirou fundo.

— Fiz tudo para te proteger… Achei que se cortasse tudo contigo ias ser mais forte… Não queria que dependesses de ninguém nem das memórias daquela casa…

As lágrimas correram-lhe pelo rosto enrugado.

— Perdoa-me…

Nesse momento percebi que guardar rancor só me destruía por dentro. Perdoei-a ali mesmo — não porque ela merecesse ou porque fosse fácil, mas porque eu precisava disso para seguir em frente.

Quando voltei à casa da avó meses depois do funeral da minha mãe, Sofia esperava-me à porta com um abraço apertado e um ramo de rosas amarelas do jardim novo que plantara comigo.

Hoje sei que família não é só sangue ou paredes antigas cheias de recordações; família é quem nos acolhe quando mais precisamos e quem partilha connosco as dores e alegrias do caminho.

Às vezes pergunto-me: quantos de nós vivem presos ao passado por medo de perder as raízes? E será que conseguimos realmente perdoar quem nos magoou sem perdermos uma parte de nós mesmos?