O Pai Que Comia Papas de Aveia Para o Filho Comer Bife: Uma História de Amor, Orgulho e Desilusão

— Pai, outra vez papas de aveia? — perguntou o Miguel, franzindo o nariz enquanto eu lhe servia o prato. O cheiro do bife a fritar na frigideira ainda pairava na cozinha, misturado com o aroma doce da cebola. Olhei para ele, sentado à mesa com o uniforme da escola impecável, e sorri, tentando esconder a pontada no peito.

— O dinheiro este mês está apertado, filho. Mas olha, tens aí um bife bem passado, como gostas — disse-lhe, pousando o prato à sua frente.

Ele nem agradeceu. Pegou no garfo e começou a comer, os olhos postos no telemóvel. Eu sentei-me à sua frente com a minha tigela de papas de aveia, fingindo que era o melhor pequeno-almoço do mundo. Por dentro, sentia-me pequeno. Tão pequeno quanto o meu salário de funcionário dos CTT, que mal chegava para as contas, quanto mais para luxos.

A mãe do Miguel foi-se embora quando ele tinha seis anos. Disse que não aguentava mais a rotina, que precisava de viver. Fiquei sozinho com ele e com as dívidas. Desde então, fiz tudo para que nunca lhe faltasse nada. Trabalhei horas extra, recusei convites para sair com amigos, vendi a minha mota antiga para pagar explicações de matemática. E sempre que havia bifes ou peixe fresco em casa, era para ele. Eu ficava-me pelas papas de aveia ou pelo arroz aquecido do dia anterior.

Lembro-me de uma noite em particular. O Miguel tinha doze anos e queria um par de sapatilhas da moda. Custavam quase metade do meu ordenado. Passei semanas a comer só sopa e pão duro para conseguir juntar o dinheiro. Quando finalmente lhas dei, ele sorriu como nunca antes. Mas esse sorriso durou pouco — semanas depois já queria outra coisa.

Os anos passaram depressa. O Miguel cresceu e tornou-se um adolescente distante, fechado no quarto com os auscultadores nos ouvidos. As nossas conversas resumiam-se a perguntas sobre notas ou pedidos de dinheiro. Eu tentava aproximar-me — sugeria irmos ver o Benfica ao estádio ou dar um passeio à beira-rio — mas ele recusava sempre.

— Não percebes nada, pai. És mesmo quadrado — atirava-me ele quando tentava aconselhá-lo.

No trabalho, os colegas gozavam comigo por andar sempre com a mesma roupa gasta.

— Ó João, já pensaste em comprar umas calças novas? — brincava o António.

Eu encolhia os ombros e respondia:

— O importante é o miúdo estar bem.

Mas à noite, sozinho na sala fria, perguntava-me se algum dia ele perceberia tudo o que fiz por ele.

Quando chegou a altura de escolher a universidade, o Miguel quis ir para Lisboa estudar Engenharia Informática. Fiquei orgulhoso e assustado ao mesmo tempo. Sabia que ia ser difícil pagar-lhe um quarto na capital e as propinas. Fiz contas à vida: vendi o carro velho e comecei a ir trabalhar de autocarro; pedi um empréstimo ao banco; cortei ainda mais nas minhas despesas. Passei a comer papas de aveia ao almoço e ao jantar.

Durante quatro anos, quase não vi o meu filho. Ele vinha a casa só nos feriados e mal falávamos. Quando ligava, era para pedir dinheiro ou reclamar das condições do quarto alugado.

— Pai, preciso de mais cem euros este mês. O senhorio aumentou a renda — dizia ele ao telefone.

Eu respondia sempre:

— Claro, filho. Dou um jeito.

No fundo, sentia-me orgulhoso por conseguir dar-lhe oportunidades que nunca tive. Mas também sentia uma solidão cada vez maior.

Quando se licenciou, organizei uma pequena festa cá em casa. Fiz questão de comprar bifes do lombo e até uma garrafa de vinho do Douro. Convidei alguns familiares e vizinhos. O Miguel chegou atrasado, com ar aborrecido.

— Pai, não era preciso isto tudo… — murmurou ele, olhando para o telemóvel enquanto os outros brindavam à sua conquista.

Depois da festa, ficou só uma noite e voltou logo para Lisboa. Arranjou trabalho numa empresa de tecnologia e começou a ganhar mais do que eu alguma vez ganhei em toda a minha vida.

Durante meses quase não deu notícias. Eu ligava-lhe todas as semanas; às vezes atendia, outras vezes não.

— Estou ocupado, pai. Depois ligo-te — dizia ele antes de desligar.

No Natal desse ano, esperei por ele com um bacalhau especial que comprei com esforço. A mesa estava posta para dois; as velas acesas; a casa aquecida como nos velhos tempos. Mas ele não apareceu.

À meia-noite recebi uma mensagem:

“Desculpa pai, surgiu um jantar com colegas da empresa. Feliz Natal.”

Senti um vazio tão grande que me faltou o ar. Passei a noite sozinho na sala escura, olhando para as fotografias antigas do Miguel em criança.

Os anos seguintes foram iguais: telefonemas cada vez mais raros; visitas só quando precisava de alguma coisa; aniversários esquecidos.

Um dia adoecei — uma pneumonia forte levou-me ao hospital durante duas semanas. Ninguém me visitou. Quando finalmente consegui falar com o Miguel ao telefone, disse-lhe:

— Filho… estive internado…

Ele respondeu:

— Pois… olha, ainda bem que já estás melhor. Agora tenho de ir trabalhar.

Desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.

Hoje vivo sozinho num apartamento pequeno em Almada. Reformei-me há dois anos e passo os dias a ver televisão ou a passear pelo parque. Os vizinhos cumprimentam-me com simpatia mas ninguém sabe da minha história.

Às vezes vejo pais jovens no parque a brincar com os filhos e pergunto-me se algum deles acabará como eu: sozinho, esquecido por quem mais amou.

O Miguel liga-me uma vez por mês — normalmente para perguntar se preciso de alguma coisa ou para dizer que está muito ocupado. Nunca pergunta como estou realmente; nunca fala dos nossos tempos juntos; nunca agradeceu pelos sacrifícios que fiz.

Às vezes sonho com ele em criança: correndo pelo quintal atrás da bola ou abraçando-me depois de um pesadelo. Acordo sempre com lágrimas nos olhos e uma pergunta na cabeça: será que valeu a pena abdicar de tudo por ele?

Se pudesse voltar atrás faria diferente? Não sei responder… O amor de um pai é mesmo assim: dá-se tudo sem esperar nada em troca — mas será justo viver uma vida inteira à espera de um simples “obrigado”? E vocês? O que fariam no meu lugar?