O Domingo em Que Tudo Ruiu: A Verdade Que Não Pude Calar
— Mãe, está tudo bem? — A voz do Marco ecoou pela sala, mas eu não consegui responder. O meu coração batia tão forte que parecia querer saltar-me do peito. Olhei para a porta da cozinha, onde a Inês estava parada, imóvel, com os olhos fixos na rapariga que o Marco acabava de apresentar como sua namorada.
— Esta é a Sofia — disse ele, sorridente, sem perceber o peso que pairava no ar. — Sofia, esta é a minha mãe, Teresa, e a minha irmã, Inês.
A Sofia estendeu a mão, mas eu não consegui mexer-me. O rosto dela era impossível de esquecer. Aqueles olhos frios, o sorriso forçado… Lembrei-me imediatamente das noites em que a Inês chorava baixinho no quarto, das mensagens cruéis no telemóvel, dos hematomas escondidos debaixo das mangas compridas. A Sofia tinha sido a principal responsável pelo inferno que a minha filha viveu durante anos no liceu.
O silêncio tornou-se insuportável. O Marco olhou para mim, confuso. A Inês recuou um passo, como se tivesse levado um murro no estômago.
— Mãe? — insistiu ele.
Respirei fundo e tentei sorrir. — Olá, Sofia. Bem-vinda à nossa casa.
A minha voz soou estranha até para mim. Sentei-me à mesa e tentei ignorar o olhar suplicante da Inês. O almoço decorreu num clima tenso, com conversas forçadas e risos nervosos. O meu marido, António, tentava animar o ambiente, mas eu via nos olhos dele que também sentia que algo estava errado.
Quando finalmente nos levantámos da mesa, a Inês puxou-me para o corredor.
— Mãe, não podes deixar isto acontecer! — sussurrou ela, com lágrimas nos olhos. — Tu sabes o que ela me fez! Sabes melhor do que ninguém!
Abracei-a com força. — Eu sei, filha. Mas o teu irmão não faz ideia…
— E vai continuar sem saber? Vais proteger aquela… aquela pessoa? Vais deixar que ela entre na nossa família como se nada fosse?
As palavras dela eram facas no meu peito. Eu sabia que tinha de fazer alguma coisa, mas também sabia o quanto o Marco estava feliz. Ele nunca tinha trazido ninguém a casa antes. Vi nele um brilho nos olhos que não via há anos.
Voltei para a sala com a cabeça a latejar. O António aproximou-se de mim.
— Teresa, o que se passa? Estás estranha desde que viste a rapariga.
Olhei para ele e vi nos seus olhos a preocupação sincera de quem partilha uma vida inteira comigo. — António… é ela. É a rapariga que fez mal à Inês.
Ele ficou pálido. — Tens a certeza?
— Absoluta.
Ele passou as mãos pelo cabelo e suspirou. — Temos de contar ao Marco.
— E se ele não acreditar? E se achar que estamos a inventar porque não gostamos dela?
O António ficou em silêncio. Sabíamos ambos como o Marco era teimoso e como tinha dificuldade em confiar nas pessoas depois do divórcio dos meus pais e das discussões constantes cá em casa.
A tarde arrastou-se numa tensão insuportável. A Sofia tentava ser simpática, mas eu via-lhe nos olhos um certo desconforto sempre que cruzava o olhar com a Inês. Era como se ambos soubéssemos de um segredo terrível que ninguém mais ali percebia.
Quando finalmente chegou a hora de irem embora, o Marco deu-me um abraço apertado.
— Obrigado por teres recebido a Sofia, mãe. Ela estava nervosa por conhecer a família.
Sorri-lhe, mas por dentro sentia-me a desmoronar.
Assim que fecharam a porta atrás deles, a Inês explodiu:
— Não posso acreditar! Vais mesmo fingir que nada aconteceu? Vais deixar o Marco ser enganado por ela?
O António tentou acalmá-la. — Filha, temos de pensar bem antes de agir. Não podemos acusar alguém assim sem provas…
A Inês olhou-nos como se fôssemos traidores. — Provas? Queres provas? Queres ver as cicatrizes? Queres ler as mensagens antigas?
Ela correu para o quarto e voltou com uma caixa cheia de cartas, fotografias e um velho telemóvel partido. Atirou tudo para cima da mesa.
— Está tudo aqui! Tudo! E vocês querem proteger o vosso filho ou querem proteger uma criminosa?
Eu tremia dos pés à cabeça. Peguei no telemóvel e percorri as mensagens: insultos, ameaças, humilhações diárias. Lembrei-me das reuniões na escola, dos professores impotentes, das noites sem dormir.
O António passou as mãos pela cara e murmurou:
— Isto é grave demais para ignorar…
A noite caiu pesada sobre nós. Não dormi um minuto sequer. A cada vez que fechava os olhos via o rosto da Sofia e ouvia os gritos silenciosos da Inês.
No dia seguinte, liguei ao Marco e pedi-lhe para vir cá a casa sozinho. Ele chegou ao fim da tarde, ainda com o sorriso de quem vive um novo amor.
— O que se passa, mãe? Pareces preocupada.
Sentei-me à mesa com ele e com o António ao meu lado. A Inês ficou na sala ao fundo, incapaz de enfrentar o irmão.
— Marco… precisamos de falar contigo sobre a Sofia.
Ele franziu o sobrolho. — O que é que ela fez? Não me digam que não gostam dela só porque é diferente…
Respirei fundo e contei-lhe tudo: os anos de bullying, as mensagens cruéis, as noites em claro da Inês. Mostrei-lhe as provas que tínhamos guardado durante tanto tempo.
O Marco ficou em silêncio durante muito tempo. Olhava para as mensagens como se não acreditasse no que via.
— Isto… isto não pode ser verdade — murmurou ele. — A Sofia não é assim! Ela nunca faria uma coisa destas!
O António tentou acalmá-lo. — Filho, sabemos que é difícil de aceitar…
— Não! — gritou ele, levantando-se de repente. — Vocês estão todos contra mim! Sempre estiveram! Nunca aceitaram ninguém na minha vida!
Saiu de casa batendo com a porta com tanta força que os quadros caíram da parede.
A Inês apareceu à porta da sala, com os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Eu avisei-vos… Ele nunca vai acreditar em mim.
Passei os dias seguintes num estado de ansiedade constante. O Marco não atendia as chamadas nem respondia às mensagens. A Inês fechou-se ainda mais no seu mundo silencioso e sombrio.
Uma semana depois, recebi uma mensagem do Marco: “Preciso de falar contigo”.
Encontrámo-nos num café perto do rio Tejo. Ele parecia mais velho, mais cansado.
— Estive a pensar em tudo… Falei com a Sofia sobre o passado dela — disse ele em voz baixa. — Ela admitiu algumas coisas… Disse que era uma miúda perdida naquela altura, que tinha muitos problemas em casa… Pediu desculpa à Inês?
Balancei a cabeça negativamente.
— Ainda não teve coragem — respondi. — Mas devia fazê-lo.
O Marco ficou em silêncio durante muito tempo.
— Eu amo-a… mas não posso ignorar aquilo que ela fez à minha irmã. Vou falar com ela outra vez. Se ela não pedir desculpa à Inês… acabou tudo entre nós.
Senti um alívio misturado com tristeza profunda. Sabia que qualquer decisão dele ia deixar marcas profundas na nossa família.
Na semana seguinte houve finalmente um encontro entre as duas: Sofia pediu desculpa à Inês entre lágrimas e promessas de mudança. A Inês ouviu-a em silêncio e depois saiu sem dizer uma palavra.
Hoje olho para trás e pergunto-me: fizemos bem em revelar tudo? Ou teria sido melhor deixar o passado enterrado? Será possível perdoar alguém por ter destruído uma parte tão importante da nossa vida?