O Casamento dos Meus Sonhos Que Se Tornou um Pesadelo: Como o Dinheiro Quase Destruiu a Minha Família
— Mãe, preciso falar contigo. — A voz da Inês tremia, os olhos brilhavam de ansiedade, mas havia algo mais ali, uma sombra que eu não consegui decifrar de imediato.
— Diz, filha. — Sentei-me ao lado dela no sofá, sentindo o coração acelerar. Desde pequena que a Inês era transparente como água; quando algo a incomodava, eu percebia logo.
— O Miguel pediu-me em casamento. — Ela sorriu, mas os olhos encheram-se de lágrimas.
— Oh, minha menina! — Abracei-a com força, sentindo uma onda de felicidade. — Que notícia maravilhosa! — Mas logo me apercebi do seu nervosismo. — O que se passa?
Ela hesitou, mordendo o lábio inferior.
— O pai do Miguel… ele perdeu o emprego há dois meses. Não têm dinheiro para ajudar com o casamento. E… o Miguel sente-se envergonhado. Não quer que pensem que ele está a casar comigo por interesse.
Senti um aperto no peito. O meu marido, António, sempre foi orgulhoso e tradicional. Para ele, o casamento da filha era um momento de honra, mas também de demonstração de estabilidade. Sabia que isto ia ser difícil de digerir.
Naquela noite, depois do jantar, contei-lhe tudo. O António ficou calado durante muito tempo, olhando para o prato vazio.
— Então querem que sejamos nós a pagar tudo? — perguntou finalmente, com a voz fria.
— Não é isso… Eles não têm possibilidades neste momento. O Miguel está a trabalhar, mas ganha pouco. A Inês ama-o.
Ele levantou-se abruptamente.
— Não quero que digam por aí que a nossa filha casou com um pobretanas! — gritou, batendo com o punho na mesa.
A Inês ouviu tudo do corredor. Entrou na sala de olhos vermelhos.
— Pai, por favor… Não é culpa do Miguel! Ele é um homem bom!
O António virou-lhe as costas.
— Não quero ouvir falar mais nisso hoje. Amanhã falamos.
A noite foi longa. Ouvi a Inês chorar no quarto e o António resmungar baixinho na sala. Eu própria não consegui dormir. Recordei os tempos em que também nós passámos dificuldades: quando o António ficou desempregado durante quase um ano e tivemos de pedir dinheiro emprestado ao meu irmão para pagar a renda. Como é fácil esquecer as próprias quedas quando se está de pé novamente…
No dia seguinte, tentei falar com o António antes dele sair para o trabalho.
— António, lembra-te de como foi difícil para nós. Não podemos julgar o Miguel ou a família dele por estarem numa má fase.
Ele suspirou, cansado.
— Eu só quero o melhor para a nossa filha. Não quero vê-la a passar necessidades.
— E achas que ela vai ser feliz se não casar com quem ama?
Ele não respondeu.
As semanas passaram e os preparativos do casamento tornaram-se um campo de batalha. A Inês queria algo simples, mas bonito: uma cerimónia na igreja da aldeia onde cresceu, um almoço para família e amigos próximos. Mas cada decisão era motivo de discussão.
A minha sogra, Dona Rosa, fazia questão de opinar em tudo:
— Não achas que deviam convidar mais gente? Vai parecer mal só ter meia dúzia de pessoas…
O António bufava:
— Quem paga é quem manda! Se querem luxo, paguem vocês!
O Miguel tentava apaziguar:
— Pai, mãe… Por favor, não compliquem mais as coisas.
Mas nada parecia acalmar os ânimos. Um dia, durante uma reunião familiar para decidir o menu do almoço, tudo explodiu.
— Eu não admito que me tratem como um pedinte! — gritou o pai do Miguel, levantando-se da mesa com os olhos cheios de lágrimas. — Sempre trabalhei honestamente! Só estou desempregado porque a fábrica fechou!
O António respondeu à altura:
— E eu não admito que me digam como gastar o meu dinheiro!
A Inês saiu disparada da sala e eu fui atrás dela. Encontrei-a sentada nas escadas do quintal, abraçada às pernas e a soluçar.
— Mãe… Eu já nem sei se quero casar…
Sentei-me ao lado dela e abracei-a.
— Filha, não deixes que o orgulho dos outros te roube a felicidade. O amor é mais importante do que tudo isto.
Ela olhou-me nos olhos.
— Mas e se nunca mais se entenderem? E se eu perder a família por causa disto?
Não soube responder-lhe.
Os dias seguintes foram um tormento. O António mal falava comigo ou com a Inês. O ambiente em casa era pesado; até o nosso cão parecia sentir a tensão. A Inês começou a emagrecer; deixou de comer direito e passava horas fechada no quarto.
Uma noite ouvi-a ao telefone com o Miguel:
— Se calhar devíamos fugir os dois… Casar só pelo civil e pronto…
O meu coração apertou-se ainda mais. Era isto que queríamos para ela? Uma fuga triste em vez de uma celebração?
No sábado seguinte, fui ao mercado comprar legumes e encontrei a Dona Rosa junto à banca das laranjas. Estava abatida; parecia ter envelhecido dez anos em poucas semanas.
— Maria do Céu… — disse ela baixinho — Isto está a matar-me por dentro. O meu marido sente-se humilhado… Eu só queria ver o meu filho feliz.
Olhei-a nos olhos e vi ali o mesmo desespero que sentia em mim própria.
— Talvez devêssemos esquecer tudo isto do dinheiro e pensar só nos nossos filhos…
Ela assentiu com lágrimas nos olhos.
Nessa noite chamei o António para conversar. Sentei-me ao lado dele no sofá e peguei-lhe na mão.
— António… Lembras-te quando casámos? Não tínhamos nada… Só amor e vontade de construir uma vida juntos. E olha onde chegámos…
Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez em dias.
— Tenho medo que ela sofra…
— Ela já está a sofrer agora… Por nossa causa.
Ele ficou calado durante muito tempo. Depois levantou-se e foi até ao quarto da Inês. Bateu à porta suavemente.
— Filha… Podemos falar?
Ouvi-os conversar baixinho durante quase uma hora. Quando saíram, ambos tinham os olhos vermelhos mas sorriram-me timidamente.
No domingo seguinte reunimos as duas famílias em nossa casa. O António levantou-se à frente de todos:
— Quero pedir desculpa pelo meu comportamento. O dinheiro não pode ser mais importante do que a felicidade dos nossos filhos. Vamos fazer este casamento juntos — simples, mas cheio de amor.
O pai do Miguel chorou abertamente e abraçou-o com força. A Dona Rosa sorriu pela primeira vez em semanas.
A cerimónia foi simples: flores do campo na igreja da aldeia, um almoço caseiro no salão dos bombeiros voluntários, música popular tocada por amigos da terra. Não houve luxo nem ostentação — mas houve alegria verdadeira e lágrimas sinceras.
Quando vi a Inês dançar com o Miguel pela primeira vez como marido e mulher, percebi que todo aquele sofrimento tinha valido a pena para chegar ali: ao amor puro e despojado de orgulho ou vaidade.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas famílias se deixam destruir por coisas tão pequenas como dinheiro ou orgulho? Será que aprendemos alguma coisa com tudo isto? E vocês — já passaram por algo assim? Como conseguiram ultrapassar?