Entre o Passado e o Futuro: Quando o Meu Ex-Marido Me Fez um Pedido Impossível
— Não podes estar a falar a sério, Miguel! — gritei, sentindo o sangue a ferver-me nas veias. O eco da minha voz ressoou pela cozinha, onde o cheiro do café queimado se misturava com a tensão que pairava no ar. Ele estava ali, sentado à minha frente, com aquele olhar que sempre me desarmou e que agora só me causava raiva. Vinte anos depois de ter desaparecido das nossas vidas, Miguel tinha voltado. E não era para pedir desculpa.
— Por favor, Ana, ouve-me até ao fim — pediu ele, a voz baixa, quase suplicante. — Eu não tenho mais ninguém. Só tu me podes ajudar.
Fechei os olhos por um instante, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam cair. O meu filho, Tiago, estava no quarto ao lado, provavelmente a ouvir cada palavra. Não queria que ele visse a mãe assim: frágil, perdida, à mercê de um homem que lhe tinha roubado a infância.
Miguel continuou:
— Preciso que fales com o Tiago. Ele tem direito a saber quem eu sou… e preciso de um favor. Preciso que ele me aceite como dador para o transplante.
O mundo parou. Senti-me a afundar numa areia movediça de memórias: as noites em claro à espera de notícias, as mentiras que contei ao Tiago para o proteger da verdade, os anos em que fui mãe e pai ao mesmo tempo. E agora isto. Um pedido impossível.
— Achas mesmo que podes aparecer aqui, depois de tudo o que fizeste, e pedir-me isto? — sussurrei, a voz embargada.
Miguel baixou a cabeça. Vi-lhe as mãos trémulas sobre a mesa — mãos que outrora seguraram as minhas com promessas de eternidade.
— Não vim pedir perdão, Ana. Sei que não mereço. Mas estou doente. O tempo está a esgotar-se para mim. O Tiago é o único compatível.
A raiva deu lugar ao medo. E se fosse verdade? E se Miguel morresse? O Tiago nunca me perdoaria por lhe ter escondido tudo. Mas como explicar-lhe quem era aquele homem? Como contar-lhe sobre as traições, as dívidas, os desaparecimentos súbitos?
Naquela noite não dormi. Fiquei sentada na sala escura, ouvindo o tic-tac do velho relógio da minha avó. Lembrei-me da última vez que vi Miguel antes de ele desaparecer: uma discussão acesa sobre dinheiro, gritos abafados pelas paredes finas do nosso apartamento em Almada. Depois disso, silêncio. Só cartas de advogados e contas por pagar.
O Tiago cresceu sem pai. Sempre lhe disse que Miguel trabalhava no estrangeiro, que era um homem ocupado mas bom. Era mentira. Miguel era um cobarde — mas era também o pai do meu filho.
Na manhã seguinte, preparei o pequeno-almoço como sempre. O Tiago entrou na cozinha com o cabelo despenteado e os olhos semicerrados.
— Mãe, quem era aquele homem ontem?
O coração apertou-se-me no peito.
— Era… alguém do meu passado — respondi, tentando sorrir.
Ele sentou-se à mesa e ficou a olhar para mim em silêncio. Tinha os olhos do pai — castanhos escuros, profundos, cheios de perguntas.
— Ele disse-me que precisava de falar contigo — insistiu Tiago.
Sentei-me ao lado dele e peguei-lhe na mão.
— Tiago… há coisas sobre o teu pai que nunca te contei. Fiz tudo para te proteger. Mas talvez tenha chegado a hora de saberes a verdade.
Contei-lhe tudo: como conheci Miguel na faculdade em Lisboa, como nos apaixonámos perdidamente e casámos cedo demais. Falei-lhe dos sonhos adiados, das promessas quebradas, das noites em claro à espera dele. Contei-lhe sobre as dívidas de jogo, sobre as discussões cada vez mais frequentes, sobre o dia em que ele simplesmente desapareceu.
Tiago ouviu tudo em silêncio. Quando terminei, tinha lágrimas nos olhos.
— E agora ele quer que eu o ajude? Depois de tudo?
Assenti.
— Não te vou pedir para perdoares o teu pai. Mas ele está doente. Precisa de um transplante e tu és compatível.
Tiago levantou-se abruptamente.
— Preciso de pensar — disse apenas antes de sair porta fora.
Os dias seguintes foram um tormento. Miguel ligava-me todos os dias; eu ignorava as chamadas. O Tiago mal falava comigo. A casa parecia mais fria, mais vazia do que nunca.
Uma noite ouvi passos no corredor. Era o Tiago; entrou na sala e sentou-se ao meu lado no sofá.
— Falei com o pai — disse ele baixinho.
Olhei-o surpreendida.
— E então?
Ele encolheu os ombros.
— Não sei se consigo perdoá-lo. Mas também não quero ser responsável pela morte dele.
Senti um misto de orgulho e tristeza pelo meu filho — tão maduro para os seus dezanove anos.
— A decisão é tua — disse-lhe suavemente. — Seja qual for, vou estar sempre do teu lado.
No dia seguinte fomos juntos ao hospital de Santa Maria para fazer os exames necessários. Miguel estava lá à nossa espera; parecia mais velho, mais frágil do que nunca. Quando viu o Tiago aproximar-se hesitou antes de lhe estender a mão.
— Obrigado por vires — murmurou Miguel.
Tiago não respondeu; limitou-se a olhar para ele com uma expressão indecifrável.
Os exames confirmaram: Tiago era compatível para doar parte do fígado ao pai. Os médicos explicaram todos os riscos; eu quase desmaiei só de ouvir falar em bisturis e anestesias gerais.
Na véspera da operação, sentei-me à beira da cama do Tiago e segurei-lhe na mão como fazia quando era pequeno.
— Tens a certeza disto? Não tens de provar nada a ninguém — sussurrei.
Ele sorriu tristemente.
— Talvez não seja pelo pai… talvez seja por mim próprio. Para poder seguir em frente sem arrependimentos.
A operação correu bem; ambos sobreviveram. Miguel ficou semanas internado; Tiago recuperou depressa e voltou à universidade pouco depois.
Miguel tentou aproximar-se dele várias vezes nos meses seguintes; às vezes Tiago aceitava um café ou uma conversa curta no parque da cidade. Outras vezes recusava-se sequer a responder às mensagens do pai.
Eu continuei a minha vida: trabalho no centro de saúde local, cuido da minha mãe idosa e tento manter a casa em ordem apesar das contas sempre atrasadas e das preocupações constantes.
Às vezes pergunto-me se fiz bem em deixar Miguel voltar às nossas vidas — mesmo por pouco tempo. Se não teria sido melhor manter as portas fechadas ao passado e proteger o Tiago das dores antigas.
Mas depois olho para o meu filho: mais forte, mais maduro, capaz de tomar decisões difíceis sem perder a ternura no olhar. E penso que talvez tudo isto tenha servido para alguma coisa.
Será possível perdoar quem nos magoou tanto? Ou será que há feridas que nunca saram? Gostava de saber o que fariam vocês no meu lugar.