Entre a Vida e a Morte: Diário de Reparação

— Pai, aguenta só mais um bocadinho, por favor! — gritei, com a voz embargada, enquanto o som da sirene da ambulância cortava a noite lisboeta. O meu pai, deitado na maca, olhava para mim com olhos cansados, mas cheios de uma ternura que me despedaçava por dentro. O cheiro a desinfetante misturava-se com o suor frio que escorria pela minha testa. Eu segurava-lhe a mão, apertando-a como se assim pudesse impedir a morte de o levar.

— Inês… — murmurou ele, com dificuldade. — Não chores, filha. Não é culpa tua…

Mas era. Sempre foi. E naquele momento, entre a vida e a morte, tudo o que eu queria era voltar atrás, desfazer as palavras ditas, os silêncios pesados, os anos de distância. Como é que chegámos aqui? Como é que uma família tão unida se deixou corroer por mágoas antigas?

Oiço o paramédico a falar com o hospital pelo rádio: “Homem de 67 anos, enfarte agudo do miocárdio, pressão instável, chegada em cinco minutos.” Cinco minutos. Cinco minutos para tentar salvar o meu pai. Cinco minutos para tentar salvar a minha alma.

Fecho os olhos e tudo me vem à memória. O Natal de há três anos, quando a minha mãe morreu. O silêncio que se instalou na casa, o vazio nos olhos do meu pai. Eu, a filha mais velha, a tentar ser forte para o meu irmão Miguel, mas incapaz de lidar com a minha própria dor. E depois, aquela discussão terrível, há seis meses, quando descobri que o meu pai tinha vendido a casa da família sem nos avisar.

— Como é que foste capaz, pai? — atirei-lhe, naquele dia, com a voz a tremer de raiva. — Era a casa da mãe! A nossa casa!

Ele olhou para mim, derrotado, e respondeu:

— Não consegui pagar as dívidas, Inês. Não queria preocupar-vos. Achei que era o melhor…

— O melhor? O melhor era termos sabido! O melhor era termos decidido juntos! — gritei, antes de sair, batendo com a porta. Não voltei a falar-lhe durante semanas. E agora, ali, com o corpo dele a fraquejar, percebia o quão fútil tinha sido o meu orgulho.

A ambulância parou com um solavanco. Os enfermeiros correram com a maca para dentro do hospital. Fui atrás, tropeçando nos meus próprios pés, o coração a bater tão forte que pensei que ia desmaiar. Sentaram-me numa cadeira de plástico, num corredor frio e impessoal. O Miguel chegou pouco depois, ofegante, com a cara pálida de susto.

— O que aconteceu? — perguntou, agarrando-me pelos ombros.

— Foi tudo tão rápido… Ele estava a ver televisão, de repente começou a queixar-se do peito… — as palavras saíam-me aos soluços. — Miguel, e se ele não resistir?

O meu irmão não respondeu. Limitou-se a abraçar-me, e ali ficámos, dois adultos perdidos, como crianças à espera de uma notícia que podia mudar tudo.

As horas passaram devagar. O relógio da parede parecia gozar connosco, cada segundo um lembrete da nossa impotência. Lembrei-me de quando era pequena e o meu pai me levava ao Jardim da Estrela para ver os patos. Lembrei-me das histórias que ele inventava para me fazer rir, das noites em que me embalava ao colo quando tinha pesadelos. Como é que deixámos que tudo isso se perdesse?

A porta da sala de operações abriu-se. Uma médica aproximou-se, com um ar grave.

— O seu pai está estável, mas a situação é delicada. Conseguimos reanimá-lo, mas vai precisar de cuidados intensivos. Podem vê-lo por uns minutos.

Entrei no quarto, o cheiro a hospital a encher-me os pulmões. O meu pai estava ligado a máquinas, tão frágil que me doeu vê-lo assim. Sentei-me ao lado dele, peguei-lhe na mão e deixei as lágrimas correrem.

— Pai, desculpa. Desculpa por tudo. Por ter sido tão dura, por não ter percebido o que estavas a passar. Eu só queria proteger a memória da mãe, mas esqueci-me de ti. Esqueci-me de nós.

Ele abriu os olhos, com esforço, e sorriu-me.

— Inês, a vida é curta demais para guardarmos rancores. Eu só queria que fosses feliz. Que o Miguel fosse feliz. A casa era só uma casa. O que importa somos nós.

Senti um nó na garganta. Como é que ele conseguia perdoar-me tão facilmente? Como é que, depois de tudo, ainda me olhava com tanto amor?

Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções. O meu pai melhorava devagar, mas cada visita era uma mistura de esperança e medo. O Miguel e eu começámos a falar mais, a partilhar memórias, a rir das histórias antigas. Descobrimos cartas da mãe, guardadas numa caixa de sapatos, onde ela escrevia sobre os sonhos que tinha para nós. Sonhos de união, de perdão, de amor.

Uma tarde, sentei-me ao lado do meu pai e contei-lhe tudo o que sentia.

— Sinto-me tão culpada, pai. Por ter sido tão egoísta, por não ter visto o teu sofrimento. Como é que se repara uma coisa destas?

Ele apertou-me a mão, com a força que ainda tinha.

— Reparar não é esquecer, filha. É aprender. É fazer diferente daqui para a frente. Promete-me que vais cuidar do teu irmão. Que não vais deixar que o passado vos separe.

Assenti, com lágrimas nos olhos. E naquele momento, percebi que a verdadeira herança que os pais deixam não são casas, nem objetos, mas a capacidade de amar e perdoar.

O meu pai acabou por recuperar, embora mais frágil. Voltou para casa do Miguel, e eu comecei a visitá-lo todos os dias. Aos poucos, reconstruímos a nossa relação, tijolo a tijolo, conversa a conversa. Aprendi a ouvir, a aceitar, a pedir desculpa sem medo. E, acima de tudo, aprendi que o tempo não cura tudo, mas dá-nos a oportunidade de tentar.

Hoje, quando olho para trás, vejo o quanto cresci. O quanto todos crescemos. A dor ensinou-nos a valorizar o que realmente importa. E, mesmo com todas as cicatrizes, sinto-me grata por ter tido a oportunidade de pedir perdão e de ser perdoada.

Às vezes pergunto-me: quantas famílias se perdem por orgulho, por silêncios, por palavras não ditas? Quantas vezes deixamos para amanhã o abraço, o pedido de desculpa, a reconciliação? Será que ainda vamos a tempo de mudar o final da nossa história?

E vocês, já tiveram de pedir perdão a alguém que amam? O que vos impede de o fazer hoje?