Como um reencontro inesperado virou a minha vida do avesso

— Mariana, não penses que podes simplesmente entrar por aquela porta como se nada tivesse acontecido! — A voz da minha mãe ecoou pelo corredor, fria e cortante, assim que empurrei a velha porta de madeira da casa onde cresci. O cheiro a pão acabado de cozer misturava-se com o aroma agridoce das laranjeiras do quintal, mas nada disso conseguia suavizar a tensão que pairava no ar.

O meu coração batia descompassado. Tinha passado sete anos longe daquela aldeia perdida no Alentejo, sete anos sem ouvir a voz da minha mãe senão em telefonemas curtos e frios, sempre a fugir do essencial. O meu pai, desde que adoecera, era um vulto silencioso na sala, os olhos perdidos nas sombras da televisão. E o meu irmão, Miguel… nem sabia se ele ainda me considerava irmã.

— Vim porque precisava — respondi, tentando manter a voz firme. — O pai… disseram-me que ele estava pior.

A minha mãe encolheu os ombros, mas não disse nada. O silêncio entre nós era antigo, feito de mágoas nunca ditas e palavras engolidas. Lembrei-me do dia em que saí de casa, depois daquela discussão brutal com o Miguel. Ele gritara-me que eu era egoísta, que só pensava em mim. Eu gritei-lhe que estava farta daquela vida pequena, daquele sufoco de aldeia onde todos sabiam tudo sobre todos.

Agora, ali estava eu, de malas na mão e o orgulho desfeito.

O corredor parecia mais estreito do que me lembrava. As fotografias antigas ainda estavam penduradas na parede: eu e o Miguel em crianças, o pai com o chapéu de palha, a mãe a sorrir num raro momento de felicidade. Passei os dedos pelo vidro frio de uma moldura e senti uma pontada no peito.

— Mariana? — A voz do meu pai era um sussurro rouco vindo da sala. Entrei devagarinho. Ele estava sentado na poltrona, mais magro e envelhecido do que eu imaginava. Os olhos brilharam por um instante ao ver-me.

— Olá, pai — disse eu, ajoelhando-me ao lado dele.

Ele pousou a mão trémula sobre a minha cabeça, como fazia quando eu era pequena. — Estás diferente… mas igual — murmurou.

As lágrimas ameaçaram cair-me dos olhos. Não sabia se era alegria ou tristeza ou apenas o peso de tudo o que não tinha sido dito durante aqueles anos.

O Miguel apareceu à porta da sala. Estava mais alto, mais robusto, mas o olhar era o mesmo: duro, desconfiado.

— Vieste para quê? Para veres se ainda há alguma coisa para levares? — atirou ele, sem rodeios.

— Vim porque sou filha deste homem — respondi, tentando não tremer. — E porque tenho direito a despedir-me dele se for preciso.

O silêncio caiu pesado entre nós. A mãe entrou na sala com uma bandeja de chá e bolachas, como se quisesse fingir normalidade.

— Sentem-se todos — disse ela, sem olhar para mim.

Durante o lanche, ninguém falou do passado. Falou-se do tempo, das colheitas más daquele ano, do preço do azeite. Eu sentia-me uma estranha na minha própria casa.

À noite, fechei-me no quarto antigo. As paredes estavam iguais: os posters desbotados das bandas portuguesas dos anos 90, os livros empilhados na secretária. Sentei-me na cama e chorei baixinho. Lembrei-me da última noite ali: eu a fazer as malas à pressa, a mãe a chorar na cozinha, o Miguel a bater portas.

No dia seguinte, acordei cedo com o som das galinhas no quintal. Saí para apanhar ar e encontrei o Miguel junto ao poço.

— Precisas de ajuda? — perguntei.

Ele olhou-me de lado. — Não sei se sabes mexer nisto depois de tanto tempo na cidade.

— Posso tentar — respondi.

Trabalhámos lado a lado em silêncio. O sol subia devagar no céu alentejano e por momentos quase me esqueci das mágoas. Quando terminámos, sentei-me no muro e olhei para ele.

— Miguel… desculpa — disse eu finalmente. — Por ter ido embora assim… por não ter percebido o que deixava para trás.

Ele ficou calado muito tempo. Depois suspirou.

— Também não fui justo contigo. Sempre fui duro demais… Mas tu eras a única que tinha coragem para sair daqui. Eu fiquei porque não sabia fazer outra coisa.

Senti um nó na garganta. Pela primeira vez em anos falávamos sem gritos nem acusações.

Nessa tarde sentei-me com o pai na varanda. Ele olhou para mim com ternura.

— Sabes, Mariana… cada um tem o seu caminho. Mas nunca deixes que o orgulho te impeça de voltar a casa.

A mãe apareceu à porta com um pano nas mãos.

— O jantar está quase pronto — disse ela suavemente.

Olhei para ela e vi nos olhos dela um pedido mudo de paz. Levantei-me e abracei-a. Ela ficou rígida por um instante e depois deixou-se ir nos meus braços.

Durante o jantar rimos juntos pela primeira vez em muitos anos. Falámos dos velhos tempos: das festas da aldeia, das brincadeiras no rio, dos sonhos que tínhamos quando éramos crianças.

Naquela noite percebi que as feridas não desaparecem de um dia para o outro. Mas também percebi que há sempre espaço para recomeçar, mesmo quando tudo parece perdido.

Quando me despedi para voltar à cidade, o pai segurou-me a mão com força surpreendente para alguém tão frágil.

— Não deixes passar tanto tempo outra vez — pediu ele.

No comboio de regresso olhei pela janela para os campos dourados do Alentejo e pensei em tudo o que tinha deixado por resolver durante tantos anos. Será que algum dia conseguimos realmente perdoar? Ou apenas aprendemos a viver com as cicatrizes?

E vocês? Já sentiram esse peso do passado a puxar-vos de volta? O que fariam se tivessem uma segunda oportunidade para recomeçar?