Bater à Porta: Lágrimas de uma Sogra e a Traição que Nunca Passa

— Não abras a porta, por favor… — sussurrei para mim mesma, enquanto o choro do meu filho se misturava ao som da chuva a bater nos vidros. Mas o bater insistente não parava. O relógio marcava quase onze da noite. O meu coração acelerou. Sabia que só podia ser ela.

Abri a porta devagar, tentando não acordar o pequeno Tomás, mas a minha sogra entrou como uma tempestade, os olhos vermelhos e o rosto molhado — não só da chuva, mas das lágrimas.

— Mariana… — soluçou ela, agarrando-se ao batente da porta como se fosse desmaiar. — Preciso de falar contigo. Não aguento mais.

Fechei a porta atrás dela, sentindo um nó no estômago. O cheiro do seu perfume misturava-se com o cheiro húmido da noite. Sentei-a na sala, ofereci-lhe um chá que ela recusou com um gesto brusco.

— Ele não está? — perguntou, olhando em volta, como se esperasse ver o filho escondido atrás de uma cortina.

— O Miguel saiu. — A minha voz saiu mais fria do que queria. — Vai chegar tarde.

Ela olhou-me nos olhos, e naquele momento vi todo o peso dos anos, das mágoas e dos segredos que partilhávamos sem nunca os dizer em voz alta.

— Mariana… Eu já não sei o que fazer. O Miguel… ele… — A voz dela falhou. — Ele não fala comigo. Não fala contigo. Não fala com ninguém. Eu sinto que perdi o meu filho.

Sentei-me à sua frente, as mãos trémulas no colo. Quis dizer-lhe que eu também sentia que tinha perdido o marido, mas calei-me. O silêncio entre nós era espesso como a noite lá fora.

— Lembra-se de quando eu e o Miguel tentámos ter filhos durante anos? — perguntei de repente, sem saber bem porquê. Ela acenou com a cabeça, os olhos cheios de compaixão e vergonha.

— Eu rezava todos os dias para que vocês conseguissem… — murmurou. — E depois veio o Tomás…

O nome do meu filho era uma bênção e uma ferida ao mesmo tempo. Ele tinha chegado quando já tínhamos perdido a esperança, depois de tratamentos dolorosos e noites em claro. Mas a alegria foi breve.

O Miguel começou a afastar-se pouco depois do nascimento do Tomás. Primeiro eram só silêncios prolongados à mesa, depois discussões por coisas pequenas: o leite derramado, as contas por pagar, a roupa por arrumar. Até ao dia em que encontrei as mensagens no telemóvel dele.

Nunca esquecerei aquele momento: eu sentada no chão da casa de banho, o telemóvel dele na mão, as palavras “amo-te” escritas por outra mulher a queimarem-me os olhos.

— Eu sei da traição — disse baixinho à minha sogra naquela noite chuvosa. Ela estremeceu.

— Mariana…

— Não precisa de fingir que não sabe. Ele contou-lhe?

Ela abanou a cabeça devagar.

— Ele não me contou nada. Mas eu sou mãe… Eu vejo tudo nos olhos dele. E nos teus também.

O Tomás chorou no quarto e fui buscá-lo, trazendo-o ao colo para junto de nós. Ele agarrou-se ao meu pescoço, adormecido de novo em segundos, alheio à tempestade emocional que se desenrolava à sua volta.

— Eu tentei perdoar — confessei, olhando para o meu filho. — Por ele. Por mim. Por todos nós. Mas há coisas que não passam…

A minha sogra chorava baixinho agora, as mãos apertadas no colo.

— Eu também falhei como mãe — disse ela de repente. — Sempre achei que se fizesse tudo certo, se desse amor suficiente… Mas há coisas que fogem das nossas mãos.

Ouvimos o barulho da chave na porta. O Miguel entrou, encharcado da chuva, parando ao ver-nos ali sentadas na sala às escuras.

— O que se passa? — perguntou desconfiado.

A minha sogra levantou-se num salto.

— Miguel! Tu tens de falar connosco! Não podes continuar assim!

Ele olhou para mim e depois para ela, como um animal encurralado.

— Não tenho nada para dizer — murmurou ele, dirigindo-se ao quarto sem olhar para trás.

A minha sogra caiu sentada outra vez, derrotada.

— Eu já não sei como ajudar — sussurrou ela.

Eu também não sabia. Durante semanas vivi num limbo: fingia normalidade para o Tomás, sorria aos vizinhos no elevador, respondia aos colegas no trabalho como se nada fosse. Mas por dentro era só vazio e perguntas sem resposta.

Uma noite, depois de adormecer o Tomás, sentei-me na varanda com uma manta sobre os ombros e escrevi uma carta ao Miguel. Disse-lhe tudo: como me sentia traída, sozinha; como ainda queria lutar pela nossa família mas não sabia se ele queria o mesmo; como cada silêncio dele era uma facada nova.

Deixei a carta na mesa da cozinha antes de sair para trabalhar na manhã seguinte. Quando voltei a casa ao fim do dia, encontrei-a rasgada no lixo.

Foi nesse dia que percebi: às vezes não há volta atrás. Por mais que tentemos remendar os pedaços partidos, há coisas que nunca voltam a ser inteiras.

A minha sogra continuou a visitar-nos todas as semanas, sempre com um bolo ou uma sopa quente para “ajudar”. Mas eu via nos olhos dela o mesmo desespero que sentia em mim: a sensação de impotência perante aquilo que não se pode controlar.

O Miguel tornou-se um estranho dentro da própria casa. Passava horas fechado no escritório ou saía sem dizer para onde ia. O Tomás começou a perguntar por ele: “Onde está o pai?” E eu inventava desculpas cada vez mais esfarrapadas.

Uma tarde de domingo, enquanto arrumava os brinquedos do Tomás na sala, ouvi-os discutir na cozinha:

— Tu nunca foste capaz de assumir os teus erros! — gritava a minha sogra.

— E tu nunca me deixaste ser quem sou! — respondeu ele, num tom que nunca lhe tinha ouvido antes.

Fiquei ali parada, com um carrinho nas mãos e o coração aos pulos. O Tomás apareceu ao meu lado e abraçou-me as pernas sem perceber nada do que se passava.

Naquela noite decidi: não podia continuar assim. Liguei à minha mãe e pedi-lhe para ficar com o Tomás uns dias. Quando o Miguel chegou a casa, sentei-me com ele na sala escura.

— Precisamos de falar — disse-lhe com toda a calma que consegui reunir.

Ele olhou-me finalmente nos olhos depois de meses a evitar-me.

— Eu já não sei quem somos — disse ele baixinho.

— Eu também não — respondi. — Mas precisamos decidir se ainda queremos tentar ou se é melhor cada um seguir o seu caminho.

Ele chorou pela primeira vez desde tudo aquilo ter começado. Chorou como uma criança perdida. E eu chorei com ele porque percebi que já não havia nada para salvar ali — só memórias do que poderia ter sido.

A minha sogra veio buscar as últimas coisas dele uns dias depois. Abraçou-me com força antes de sair:

— Tu foste sempre uma boa mulher para ele…

Fiquei sozinha naquela casa grande demais para mim e para o Tomás. Mas pela primeira vez em muito tempo senti paz — uma paz triste, mas verdadeira.

Às vezes ainda acordo durante a noite com saudades do que sonhei para nós três. Pergunto-me se algum dia vou conseguir confiar outra vez em alguém ou se certas feridas ficam mesmo para sempre abertas.

E vocês? Já sentiram esse vazio depois de uma perda? Como é que se aprende a recomeçar quando tudo à nossa volta parece desabar?