As Crianças Sentaram-se à Mesa: O Dia que Ninguém Esquece

— Não quero comer! — gritou o Tiago, atirando o garfo para cima da mesa. O barulho do metal a bater no prato ecoou pela cozinha, cortando o silêncio pesado que pairava desde o início do jantar. Senti o sangue ferver-me nas veias, mas engoli em seco. Olhei para o meu marido, António, à espera de algum apoio, mas ele limitou-se a encolher os ombros e continuou a olhar para o telemóvel, como se nada fosse com ele.

A Carolina, a mais nova, começou a chorar baixinho. Tinha só seis anos e já parecia carregar o peso do mundo nos ombros. Eu sabia que ela sentia tudo — cada discussão, cada olhar atravessado, cada palavra não dita. Tentei sorrir-lhe, mas o sorriso saiu torto, cansado. A verdade é que já não sabia como manter tudo de pé. Desde que perdi o emprego no supermercado, há três meses, parecia que a casa inteira estava suspensa por um fio.

— Maria, deixa lá o miúdo — murmurou António, sem levantar os olhos do ecrã. — Ele come quando tiver fome.

— Não é assim tão simples! — respondi, a voz a tremer. — Se não impomos regras agora, quando é que vamos impor? Achas que isto é vida?

O Tiago levantou-se de rompante e saiu da cozinha, batendo com a porta. O som reverberou dentro de mim como um trovão. Senti-me tão pequena naquele momento. Olhei para a Carolina e vi nos olhos dela o medo de que tudo se desmoronasse.

Depois do jantar, fui arrumar a loiça. As mãos tremiam-me tanto que quase deixei cair um copo. O António continuava na sala, absorto na televisão. O casamento já não era o que tinha sido. Lembro-me de quando nos conhecemos na festa da aldeia, ele era divertido, fazia-me rir. Agora éramos dois estranhos a partilhar uma casa e contas para pagar.

Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei a ouvir os passos do Tiago no quarto ao lado, a respiração inquieta da Carolina. Pensei em tudo o que tinha sacrificado por eles: os sonhos de estudar enfermagem, as noites sem dormir quando eram bebés, os turnos duplos no supermercado para pagar as contas. E agora? Agora parecia que nada disso tinha valido a pena.

Na manhã seguinte, acordei com um nó no estômago. O Tiago não queria ir à escola.

— Não me apetece — disse ele, sem me olhar nos olhos.

— Tiago, por favor… — tentei argumentar.

— Não percebes nada! — gritou ele, empurrando-me para trás quando tentei aproximar-me.

O António entrou na cozinha nesse momento.

— O que se passa aqui?

— Nada! — respondeu o Tiago, saindo disparado pela porta.

Fiquei ali parada, sentindo-me inútil. O António olhou para mim com desdém.

— Não sabes controlar os miúdos — disse ele, antes de sair para o trabalho.

As palavras dele ficaram-me gravadas como uma ferida aberta. Passei o dia inteiro a pensar no que tinha feito de errado. Liguei à minha mãe para desabafar.

— Maria, tens de ser forte pelos teus filhos — disse ela. — Mas também tens de cuidar de ti.

Mas como? Como cuidar de mim quando tudo à minha volta estava a desmoronar-se?

À tarde, recebi uma chamada da escola: o Tiago tinha faltado às aulas e ninguém sabia dele. O coração quase me saltou do peito. Corri pela aldeia fora à procura dele, perguntei aos amigos, bati às portas dos vizinhos. Ninguém sabia nada.

Quando finalmente o encontrei junto ao rio, sentado numa pedra com os olhos vermelhos de tanto chorar, senti uma mistura de alívio e raiva.

— Porque é que fizeste isto? — perguntei-lhe, ajoelhando-me ao lado dele.

Ele olhou para mim com uma tristeza profunda.

— Estou farto de tudo… Farto das discussões… Farto de sentir que nunca sou suficiente…

As palavras dele foram como facas no meu peito. Abracei-o com força.

— Desculpa… Desculpa se não soube ser melhor mãe…

Voltámos para casa em silêncio. O António chegou tarde nesse dia e nem perguntou pelo Tiago. Limitou-se a aquecer o jantar no micro-ondas e foi para o quarto ver futebol.

Nessa noite, depois de deitar as crianças, sentei-me sozinha na cozinha escura. Chorei baixinho para não acordar ninguém. Senti-me tão sozinha como nunca antes na vida.

Os dias seguintes foram uma sucessão de silêncios e pequenas explosões. A Carolina começou a fazer xixi na cama outra vez. O Tiago fechou-se ainda mais no seu mundo. O António tornou-se quase um fantasma em casa.

Uma noite, durante mais uma discussão por causa das contas atrasadas da luz e da água, perdi o controlo.

— Se ao menos ajudasses mais! — gritei ao António. — Se ao menos estivesses presente!

Ele levantou-se da mesa com violência.

— Sempre a mesma conversa! Achas que és a única cansada? Achas que só tu tens problemas?

A Carolina começou a chorar outra vez. O Tiago saiu disparado porta fora.

Nesse momento percebi: estávamos todos partidos por dentro e ninguém sabia como colar os pedaços.

No dia seguinte recebi uma carta do tribunal: iam penhorar-nos parte do ordenado do António por causa das dívidas acumuladas. Senti o chão fugir-me dos pés.

Fui à igreja pedir ajuda ao padre Joaquim. Ele ouviu-me em silêncio e depois disse:

— Maria do Carmo, às vezes é preciso pedir ajuda antes de chegar ao fundo do poço.

Mas eu já estava no fundo há muito tempo.

Nessa noite sentei-me com os meus filhos à mesa. Olhei-os nos olhos e disse:

— Sei que as coisas estão difíceis… Sei que tenho falhado convosco… Mas prometo que vou tentar mudar…

A Carolina abraçou-me com força. O Tiago ficou calado mas vi uma lágrima escorrer-lhe pelo rosto.

O António entrou na cozinha nesse momento e ficou parado à porta a olhar para nós. Pela primeira vez em muito tempo vi nos olhos dele algo parecido com arrependimento.

Não sei se algum dia vamos conseguir ser uma família feliz outra vez. Mas naquele momento percebi que só juntos poderíamos tentar reconstruir o que se perdeu.

Às vezes pergunto-me: quantas famílias vivem assim, presas em silêncios e mágoas? Quantas mães choram sozinhas à noite sem saber como sair deste ciclo? E vocês… já sentiram este peso dentro de casa?