A promoção que virou a minha vida do avesso: A história de Inês no escritório de Lisboa

— Não pode ser, Sr. Duarte! — a minha voz saiu mais alta do que eu queria, ecoando pelo vidro fosco da sala de reuniões. Senti o olhar de todos os colegas cravar-se em mim, mas não consegui controlar. — Desculpe, Inês, mas a decisão já está tomada — respondeu ele, desviando os olhos para o papel à sua frente. O silêncio era pesado, quase sufocante. Eu sentia o coração a bater tão forte que parecia querer saltar-me do peito.

Naquela manhã, acordei com um pressentimento estranho. O céu de Lisboa estava cinzento, e o cheiro do café parecia mais amargo do que o habitual. O meu marido, Rui, já estava na cozinha, a folhear o jornal. — Hoje é o dia, não é? — perguntou, sem levantar os olhos. — É — respondi, tentando sorrir. Ele não percebeu o quanto aquela promoção significava para mim. Não era só dinheiro ou estatuto. Era uma validação de anos de esforço, de noites passadas no escritório enquanto ele adormecia no sofá.

Cheguei ao escritório cedo demais. O relógio ainda marcava 8h10 quando entrei na sala aberta e fria do nosso departamento de contabilidade. Sentei-me à secretária e comecei a rever mentalmente todos os projetos que tinha liderado nos últimos meses: a auditoria da empresa espanhola, o fecho do trimestre com resultados recorde, as horas extra para ajudar a equipa do Miguel quando ele ficou doente. Tudo isso tinha de contar para alguma coisa.

Quando o Sr. Duarte me chamou à sala de reuniões, senti um frio na barriga. Sentei-me direita, cruzei as mãos no colo e esperei. Ele entrou acompanhado por uma mulher que nunca tinha visto antes: alta, loira, com um sorriso seguro e um blazer caro. — Inês, esta é a Dra. Patrícia Costa. Vai juntar-se a nós como nova coordenadora do departamento — disse ele, como se estivesse a apresentar alguém para um café.

O chão fugiu-me dos pés. Olhei para ele, depois para ela. — Mas… pensei que… — gaguejei, sentindo as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos. — Inês, sabemos o quanto trabalhou e agradecemos muito o seu empenho — disse ele, numa voz paternalista que me irritou ainda mais. — Mas achámos que era importante trazer alguém com uma perspetiva diferente.

A reunião terminou ali para mim. Saí da sala sem olhar para trás e fui direta à casa de banho. Tranquei-me numa cabine e deixei as lágrimas correrem. Lembrei-me das palavras da minha mãe: “Na vida, ninguém te vai dar nada de mão beijada.” Sempre achei que ela era demasiado dura comigo, mas naquele momento percebi que talvez tivesse razão.

O resto do dia passou num nevoeiro. Os colegas evitavam olhar-me nos olhos. A nova coordenadora foi apresentada à equipa com sorrisos forçados e palmadinhas nas costas. Eu sentia-me invisível.

Quando cheguei a casa, Rui estava a ver futebol na sala. — Então? Como correu? — perguntou, sem desviar os olhos do ecrã. — Deram a promoção a outra pessoa — respondi, sentando-me ao lado dele. Ele encolheu os ombros: — Não fiques assim, vai aparecer outra oportunidade.

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Como podia ele ser tão indiferente? Não era só uma questão de trabalho; era tudo o que eu tinha sacrificado nos últimos anos. Levantei-me e fui para o quarto, batendo com a porta.

Nessa noite não dormi. Fiquei a olhar para o teto, a pensar em tudo o que tinha feito para chegar ali: os aniversários da minha filha Matilde que perdi por causa de reuniões; as férias canceladas; as discussões com Rui porque estava sempre cansada ou ausente.

No dia seguinte, tentei agir normalmente no escritório. Mas tudo me parecia diferente. A Dra. Patrícia fazia questão de mostrar serviço: reuniões atrás de reuniões, emails copiados para toda a gente, decisões tomadas sem consultar ninguém da equipa antiga.

Uma semana depois, ouvi dois colegas a cochichar junto à máquina do café:
— Dizem que ela é amiga do Sr. Duarte desde os tempos da faculdade…
— Pois… assim é fácil subir na vida.

Senti uma mistura de inveja e frustração. Será que algum dia ia conseguir aquilo por mérito próprio?

Em casa, as coisas também começaram a azedar. Rui estava cada vez mais distante e Matilde começou a ter pesadelos à noite.
— Mãe, porque estás sempre triste? — perguntou ela uma noite, agarrada ao meu braço.
— Não estou triste, filha… só cansada.
Mas ela não acreditou.

No domingo seguinte fomos almoçar a casa dos meus pais em Almada. Mal entrei na cozinha, a minha mãe percebeu logo:
— O que se passa contigo?
— Nada… trabalho.
Ela olhou-me nos olhos:
— Não deixes que te pisem só porque és mulher ou porque não tens amigos nos lugares certos.
O meu pai interrompeu:
— Se calhar está na altura de procurares outro emprego.
Senti-me perdida entre os conselhos deles e o silêncio de Rui.

Na segunda-feira seguinte decidi pedir uma reunião ao Sr. Duarte.
— Quero saber porque é que não fui escolhida para a promoção — disse-lhe diretamente.
Ele suspirou:
— Inês, reconheço o seu trabalho… mas achámos que precisava de alguém com mais experiência internacional.
— E porque não me deram essa oportunidade antes?
Ele encolheu os ombros:
— Às vezes as decisões vêm de cima…
Saí da sala ainda mais frustrada.

Os dias passaram arrastados. Comecei a chegar cada vez mais tarde ao trabalho e a sair mais cedo. Em casa discutia com Rui por tudo e por nada: quem ia buscar Matilde à escola, quem fazia o jantar, quem limpava a casa.
Uma noite ele explodiu:
— Não podes trazer os teus problemas do trabalho para casa! Já chega!
— Achas que é fácil? Achas mesmo?
Matilde apareceu à porta do quarto a chorar:
— Parem! Não quero que se separem!
Ouvindo aquilo senti-me miserável.

Na semana seguinte recebi um email inesperado: uma empresa concorrente queria entrevistar-me para um cargo semelhante ao da Dra. Patrícia. Fiquei dividida: devia aceitar ou lutar pelo meu lugar ali?
Contei à minha mãe e ela foi perentória:
— Vai! Mostra-lhes o teu valor noutro sítio!
Rui limitou-se a dizer:
— Faz como quiseres.

Fui à entrevista cheia de nervosismo mas também com uma raiva nova dentro de mim. Pela primeira vez em meses senti-me viva outra vez.
Quando recebi a proposta de emprego chorei de alívio e medo ao mesmo tempo.
Na última noite antes de sair do antigo escritório sentei-me sozinha à janela e olhei para as luzes da cidade.

Será que fiz bem em desistir? Ou será que devia ter lutado mais? Quantas vezes temos de cair até aprendermos a levantar-nos sem medo?

E vocês? Já sentiram que todo o vosso esforço foi ignorado? O que fariam no meu lugar?