A noite em que perdi a minha filha – e a reencontrei: Um relato de medo, esperança e segredos de família
— Leonor! Leonor, responde-me! — gritei, com a voz embargada, enquanto abanava o corpinho inerte da minha filha de três anos. O quarto estava mergulhado numa penumbra azulada, cortada apenas pela luz trémula do candeeiro de cabeceira. O silêncio era tão pesado que quase me sufocava. Oiço o meu marido, Rui, tropeçar pelo corredor, ainda meio adormecido, mas o pânico na minha voz arranca-o do torpor.
— O que se passa? — pergunta ele, já junto de mim, olhando para Leonor, que não reage. O tempo parece parar. O meu coração bate tão forte que penso que vou desmaiar. Sinto as lágrimas a escorrerem-me pela cara enquanto tento lembrar-me do que aprendi no curso de primeiros socorros. “Respira, Leonor, por favor…”
Rui pega no telemóvel e liga para o 112. As palavras saem-lhe aos tropeções: — A minha filha… não respira… três anos… por favor, venham depressa!
Enquanto isso, eu começo a massagem cardíaca, as mãos a tremer. Cada segundo é uma eternidade. Lembro-me da minha mãe dizer que as mães sentem quando algo está errado com os filhos. Mas nunca pensei que fosse assim — tão brutal, tão repentino.
O som da sirene aproxima-se e, finalmente, os paramédicos entram em casa. Empurram-me para o lado com uma delicadeza firme. Rui agarra-me pelos ombros, mas eu só consigo olhar para Leonor, agora rodeada de estranhos de uniforme amarelo.
— Vai correr tudo bem — diz Rui, mas a voz dele trai-o. Sei que ele está tão assustado quanto eu.
Quando finalmente ouço um choro fraco vindo da Leonor, sinto as pernas fraquejarem. Os paramédicos trocam olhares de alívio e dizem que ela vai ter de ir ao hospital para observação. Rui vai com ela na ambulância; eu fico para trás, sozinha na sala, rodeada pelos brinquedos espalhados e pelo cheiro agridoce do leite entornado.
É aí que tudo começa a desmoronar dentro de mim. Sento-me no sofá e sinto uma raiva surda crescer: raiva de mim própria por não ter percebido antes que algo estava errado; raiva do Rui por não ter acordado mais cedo; raiva do mundo inteiro por me ter roubado aquele instante de paz.
O telefone toca. É a minha mãe.
— O que se passa? Ouvi as sirenes daqui! — pergunta ela, sem sequer dizer olá.
— A Leonor… ela… — a voz falha-me.
— Eu disse-te tantas vezes que devias ter mais cuidado com ela! — interrompe-me. — Sempre foste distraída, Mariana. Não sei como achaste que ias conseguir ser mãe…
As palavras dela são como facas. Lembro-me de todas as discussões antigas: quando engravidei sem estar casada; quando decidi ficar com o Rui apesar dos avisos dela; quando escolhi trabalhar em part-time para poder estar mais tempo com a Leonor. Nada do que faço parece ser suficiente para a minha mãe.
Desligo o telefone sem responder. Sinto-me sozinha como nunca antes. As paredes da casa parecem encolher à minha volta. Penso em ligar à minha irmã, Sofia, mas lembro-me da última vez em que falámos: foi há meses, depois de uma discussão sobre a herança do nosso pai. Ela acusou-me de ser egoísta e de só pensar em mim própria.
As horas passam devagar até receber uma mensagem do Rui: “Ela está estável. Vem quando puderes.” Saio de casa quase em piloto automático e apanho um táxi até ao hospital. No caminho, olho pela janela e vejo Lisboa ainda adormecida, as luzes amarelas dos candeeiros refletidas no Tejo.
Quando chego ao hospital, encontro o Rui sentado numa cadeira dura do corredor, com os olhos vermelhos. Ele levanta-se e abraça-me sem dizer nada. Entramos juntos no quarto onde Leonor dorme, ligada a máquinas que apitam suavemente.
Sento-me ao lado dela e pego-lhe na mãozinha quente. Sinto uma onda de alívio misturada com culpa. Penso em todas as vezes em que reclamei por ela não dormir à noite; em todos os momentos em que desejei ter um pouco mais de tempo para mim.
— Achas que isto foi culpa minha? — pergunto baixinho ao Rui.
Ele olha para mim com ternura cansada:
— Mariana, ninguém tem culpa disto. A Leonor vai ficar bem.
Mas eu não consigo acreditar totalmente nele. As palavras da minha mãe ecoam na minha cabeça: “Nunca foste responsável.” Sinto-me uma fraude.
No dia seguinte, a médica explica-nos que foi uma apneia súbita durante o sono — algo raro, mas não impossível. Diz-nos para ficarmos atentos, mas garante-nos que fizemos tudo certo.
Quando voltamos para casa, tudo parece igual mas diferente ao mesmo tempo. O cheiro do café pela manhã já não me conforta; o som dos desenhos animados na televisão parece demasiado alto. A Leonor recupera depressa — as crianças têm essa capacidade mágica — mas eu continuo presa naquela noite.
Uma semana depois, a minha mãe aparece lá em casa sem avisar. Traz um bolo de laranja e um ar severo.
— Vim ver como está a Leonor — diz ela, sem olhar para mim.
A Leonor corre para ela e abraça-a com força. Fico a olhar para as duas e sinto uma mistura de inveja e ressentimento.
— Precisas de descansar mais — diz a minha mãe quando ficamos sozinhas na cozinha. — Não podes fazer tudo sozinha.
— Não estou sozinha — respondo-lhe, tentando soar firme.
Ela suspira e olha para mim como se eu fosse uma criança teimosa:
— Quando o teu pai morreu, também achei que conseguia aguentar tudo sozinha. Mas não consegui. E tu também não vais conseguir.
As palavras dela surpreendem-me. Pela primeira vez vejo vulnerabilidade nos olhos dela. Sento-me à mesa e deixo cair a máscara:
— Tenho medo de falhar com a Leonor… De não ser suficiente…
A minha mãe pega-me na mão e aperta-a:
— Todas temos medo disso. Mas é esse medo que nos faz lutar todos os dias.
Choro baixinho enquanto ela me abraça. Pela primeira vez em muitos anos sinto que talvez não esteja tão sozinha como pensava.
Nos dias seguintes tento falar com a Sofia, mas ela não atende as minhas chamadas. Decido escrever-lhe uma carta longa onde lhe conto tudo o que aconteceu naquela noite: o medo paralisante, o desespero, a culpa. Peço-lhe desculpa pelas discussões passadas e digo-lhe que sinto falta dela na minha vida.
Uma semana depois recebo uma mensagem dela: “Quero ver-te. Preciso de te dar um abraço.” Quando nos encontramos num café perto do Chiado, choramos as duas como crianças pequenas.
A vida volta lentamente ao normal — ou pelo menos àquilo que agora considero normalidade. A Leonor recupera totalmente e volta a encher a casa com gargalhadas e birras típicas da idade.
Mas eu nunca mais fui a mesma depois daquela noite. Aprendi que o medo pode ser um inimigo cruel mas também um aliado poderoso; que os laços familiares são frágeis mas podem ser reconstruídos; e que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.
Às vezes ainda acordo sobressaltada durante a noite para ver se a Leonor está a respirar. Mas agora sei que não estou sozinha nesta luta diária pela esperança e pelo amor.
Pergunto-me: quantas mães vivem presas ao medo de falhar? E quantas famílias guardam segredos e ressentimentos quando podiam simplesmente abraçar-se? Talvez partilhar esta história ajude alguém a encontrar coragem para pedir ajuda ou perdoar.