A Mulher no Passeio Molhado: Um Encontro com o Passado que Mudou Tudo

— Por favor, ajude-me! — ouvi a voz trémula atrás de mim, enquanto a chuva caía impiedosa sobre o passeio da Rua da Prata. Virei-me, o guarda-chuva a tremer na minha mão, e vi uma mulher caída, o casaco ensopado, o cabelo colado ao rosto. O meu primeiro instinto foi correr para ela. Agarrei-lhe no braço, ajudei-a a levantar-se, sentindo o peso do seu corpo frágil e a urgência do momento.

— Está bem? — perguntei, tentando abrigá-la da chuva com o meu guarda-chuva.

Ela olhou-me com olhos assustados, mas agradecidos. — Acho que torci o tornozelo… — murmurou, tentando sorrir apesar da dor. A sua voz tinha um timbre familiar, mas naquele momento não consegui identificar de onde.

Levei-a até à pastelaria mais próxima. O cheiro a café quente e pão fresco contrastava com o frio húmido que trazíamos da rua. Sentei-a junto à janela e pedi dois cafés. Ela agradeceu baixinho, esfregando as mãos para se aquecer.

— O meu nome é Teresa — disse eu, tentando quebrar o silêncio constrangedor.

— Eu sou Maria do Carmo — respondeu ela, desviando o olhar para a rua.

O nome soou como um eco distante na minha memória, mas não consegui ligá-lo a nada concreto. Conversámos pouco. Ela parecia ansiosa por sair dali, mas o tornozelo inchado obrigava-a a esperar. Quando finalmente se levantou para ir embora, agradeceu-me com um sorriso triste e desapareceu na multidão.

Durante dias, aquela manhã não me saía da cabeça. Havia algo na expressão dela, no modo como evitava o meu olhar, que me deixava inquieta. Até que uma noite, ao folhear um velho álbum de fotografias da minha mãe, vi uma imagem que me gelou o sangue: a minha mãe, jovem e sorridente, abraçada a uma mulher muito parecida com Maria do Carmo. No verso da fotografia estava escrito: “Com a Carmo, verão de 1982”.

O coração começou a bater mais depressa. Fui até à caixa das cartas antigas da minha mãe e comecei a ler. Entre as folhas amareladas encontrei uma carta com uma caligrafia elegante:

“Querida Helena,

Sei que nunca me vais perdoar pelo que fiz. Não sei como pude magoar-te tanto. Espero que um dia consigas encontrar paz.

Com arrependimento,
Maria do Carmo”

O chão fugiu-me dos pés. Maria do Carmo era a mulher que tinha destruído a vida da minha mãe. Lembrei-me das noites em que a minha mãe chorava sozinha no quarto, dos silêncios pesados à mesa de jantar, das discussões abafadas entre ela e o meu pai. Sempre soube que havia um segredo doloroso no passado dela, mas nunca imaginei que um dia iria cruzar-me com a responsável por esse sofrimento.

A raiva cresceu dentro de mim como uma chama incontrolável. Como pude ser tão ingénua? Como pude ajudar aquela mulher sem saber quem ela era? Passei noites sem dormir, revivendo cada detalhe daquele encontro. A minha irmã Inês percebeu logo que algo não estava bem.

— Teresa, o que se passa contigo? Andas distante… — perguntou ela numa tarde em casa dos nossos pais.

— Não é nada… — tentei disfarçar.

— Não me mintas! Desde pequena que te conheço melhor do que ninguém. — Ela sentou-se ao meu lado no sofá e pegou-me na mão. — Conta-me.

Contei-lhe tudo: o encontro na rua, a fotografia, a carta. Inês ficou em silêncio durante alguns minutos.

— Achas que devias procurá-la? — perguntou finalmente.

— Não sei… Parte de mim quer confrontá-la, exigir explicações. Outra parte só quer esquecer tudo isto.

— E se ela estiver arrependida? — insistiu Inês. — Talvez precise de ouvir-te tanto quanto tu precisas de falar com ela.

As palavras dela ficaram a ecoar na minha cabeça durante dias. Finalmente decidi procurar Maria do Carmo. Voltei à pastelaria onde a tinha levado naquela manhã chuvosa e perguntei à empregada se conhecia aquela senhora.

— Ah, sim! A Dona Carmo vem cá todos os sábados de manhã — respondeu ela. — Mora aqui perto, sozinha desde que o marido morreu.

No sábado seguinte, sentei-me numa mesa junto à janela e esperei. Quando Maria do Carmo entrou, hesitou ao ver-me, mas acabou por se aproximar.

— Teresa… — disse ela, com um sorriso nervoso.

— Precisamos de conversar — respondi secamente.

Sentámo-nos frente a frente. O silêncio era pesado como chumbo.

— Sabe quem eu sou? — perguntei finalmente.

Ela baixou os olhos. — Sei… Descobri quando disseste o teu nome naquele dia. És filha da Helena.

A raiva voltou a crescer dentro de mim.

— Sabe o que fez à minha mãe? Sabe como ela sofreu?

Os olhos dela encheram-se de lágrimas.

— Sei… E arrependo-me todos os dias desde então. Eu era jovem e egoísta… Nunca devia ter traído a confiança dela daquela maneira.

— Não foi só confiança! — gritei baixinho para não chamar a atenção dos outros clientes. — Destruiu-lhe o casamento! Fez com que ela perdesse tudo!

Ela chorava agora abertamente.

— Eu sei… E nada do que eu diga pode apagar isso. Mas acredita que tentei pedir-lhe perdão muitas vezes… Ela nunca quis ouvir-me.

Ficámos em silêncio durante muito tempo. Eu sentia-me dividida entre o ódio e uma estranha compaixão por aquela mulher envelhecida pelo remorso.

— Porque fez aquilo? — perguntei finalmente.

Ela suspirou fundo.

— Porque era imatura… Porque me apaixonei pelo homem errado… Porque achei que podia ter tudo sem pensar nas consequências… Mas paguei caro por isso. Perdi a tua mãe, perdi amigos, perdi o respeito por mim mesma.

Olhei para ela e vi uma mulher destruída pelo passado, tão prisioneira da dor quanto eu própria me sentia agora. Saí dali sem dizer mais nada.

Durante semanas evitei pensar nela ou na conversa que tivemos. Mas as palavras dela voltavam sempre à minha cabeça: “Paguei caro por isso”. Comecei a perguntar-me se guardar rancor me fazia sentir melhor ou apenas prolongava o sofrimento de todos.

Numa noite de insónia sentei-me à secretária e escrevi uma carta:

“Maria do Carmo,

Não sei se algum dia serei capaz de perdoar o que fez à minha mãe. Mas também não quero passar o resto da vida presa ao ódio. Talvez um dia possamos conversar novamente, sem gritos nem acusações. Até lá, desejo-lhe paz.
Teresa”

No dia seguinte deixei a carta na pastelaria para lhe entregarem quando ela lá fosse. Senti um peso sair-me dos ombros ao fazê-lo.

A vida continuou, mas nunca mais fui a mesma depois daquele encontro inesperado com o passado da minha família. Percebi que todos carregamos feridas antigas e escolhas difíceis. E ainda hoje me pergunto: será possível libertarmo-nos verdadeiramente do passado? Ou estamos todos condenados a repetir as dores dos nossos pais?

E vocês? O que fariam no meu lugar? Conseguiriam perdoar alguém que destruiu tudo aquilo que amavam?