A Casa dos Sonhos e o Coração Partido: Uma Vida em Lisboa
— Não foi para isto que eu lutei, Teresa! — gritei, sentindo a voz embargar-se enquanto as paredes brancas da nossa nova casa devolviam o eco da minha frustração.
Ela estava de costas para mim, junto à janela da sala, olhando para o jardim ainda por plantar. O cheiro a tinta fresca misturava-se com a tensão no ar. O nosso sonho, aquela moradia em Benfica, com vista para o Tejo e espaço para os filhos que nunca vieram, era agora apenas um cenário para discussões cada vez mais frequentes.
— E achas que eu não lutei? — respondeu ela, sem se virar. — Achas que foi fácil para mim deixar tudo para trás? A minha família, os meus amigos, só porque tu querias uma casa maior?
O silêncio caiu pesado. Senti-me pequeno, esmagado pelo peso das escolhas que fizemos juntos — ou que pensei termos feito juntos. A verdade é que, desde o início, aquela casa era mais meu sonho do que dela. Eu queria espaço, queria mostrar ao meu pai que era capaz de construir algo melhor do que ele alguma vez teve. Mas nunca perguntei se era isso que ela queria.
Os meus pais sempre viveram num T2 apertado em Chelas. O meu pai, António, reformado da Carris, nunca acreditou muito em sonhos. “O importante é ter pão na mesa”, dizia ele. Mas eu queria mais. Queria provar que era possível quebrar o ciclo. Teresa vinha de uma família diferente: mãe professora, pai médico, sempre habituada a estabilidade e conforto. Talvez por isso nunca tenha entendido a minha obsessão.
— Não é só a casa, Teresa — tentei explicar, sentando-me no sofá novo, ainda coberto com plástico. — É tudo o que ela representa para mim…
Ela virou-se finalmente. Os olhos dela estavam vermelhos, mas não havia lágrimas.
— E para mim? O que é que isto representa para mim? — perguntou, a voz baixa mas firme.
Não soube responder. Ouvimos passos no corredor: era a minha mãe, viera ajudar-nos com as limpezas. Entrou sem bater.
— Está tudo bem? — perguntou, olhando de um para o outro.
Teresa forçou um sorriso.
— Está tudo ótimo, D. Maria.
A minha mãe percebeu logo que não estava. Aproximou-se de mim e sussurrou:
— Vocês têm de conversar… Não deixes isto azedar logo no início.
Mas já estava azedo há muito tempo. Desde o dia em que decidimos vender o apartamento antigo e investir tudo nesta casa. O meu irmão mais novo, Rui, nunca me perdoou por ter ficado com a maior parte da herança dos avós para dar entrada na casa nova. “Sempre foste o preferido”, atirou ele no Natal passado, depois de uns copos a mais.
A família da Teresa também não ajudava. A mãe dela fazia questão de lembrar sempre que “uma casa grande dá muito trabalho” e perguntava quando é que pensávamos em ter filhos. Como se fosse assim tão simples…
Na verdade, já tínhamos tentado durante anos. Consultas, tratamentos, esperanças renovadas e desfeitas mês após mês. Cada negativo era mais um tijolo no muro invisível entre nós. A casa foi uma tentativa de recomeço — mas acabou por ser só mais uma lembrança do que não tínhamos conseguido.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre as contas da casa — tudo era mais caro do que prevíamos: condomínio, IMI, arranjos no jardim — sentei-me sozinho na varanda e liguei ao meu pai.
— Achas que fiz asneira? — perguntei-lhe, sem rodeios.
Ele ficou calado uns segundos.
— Filho… às vezes queremos tanto fugir ao passado que acabamos por nos perder pelo caminho. O importante não é a casa; são as pessoas lá dentro.
Desliguei sem saber se me sentia melhor ou pior. No dia seguinte, tentei falar com Teresa sobre vender a casa e começar de novo noutro sítio qualquer. Ela olhou-me como se eu tivesse enlouquecido.
— Agora? Depois de tudo o que passámos? Não aguento outro recomeço…
A partir daí começámos a viver como dois estranhos sob o mesmo teto. Os jantares eram silenciosos; as noites longas e frias. O Rui deixou de me falar de vez quando soube que íamos vender o carro para pagar dívidas da casa. A minha mãe adoeceu e precisei de passar mais tempo com ela em Chelas — cada regresso à moradia parecia um castigo.
Um dia cheguei mais cedo do trabalho e encontrei Teresa sentada no chão da sala com caixas abertas à volta. Fotografias nossas espalhadas pelo tapete.
— Estou a fazer as malas — disse ela sem me olhar nos olhos.
Sentei-me ao lado dela e olhei para uma foto antiga: nós dois na praia da Caparica, rindo como se nada pudesse correr mal.
— Quando é que deixámos de ser felizes? — perguntei baixinho.
Ela suspirou.
— Talvez quando começámos a querer coisas diferentes… ou quando deixámos de falar sobre o que realmente importava.
Ajudei-a a arrumar as coisas dela em silêncio. No dia seguinte ela saiu cedo; deixou-me um bilhete na mesa da cozinha: “Espero que encontres o teu lar — seja onde for”.
Fiquei sozinho naquela casa enorme, rodeado de móveis caros e paredes vazias. O jardim nunca chegou a ser plantado; as divisões ecoavam cada passo meu como se me lembrassem constantemente do fracasso.
A minha mãe morreu pouco tempo depois; o Rui apareceu no funeral mas nem me cumprimentou. Vendi a casa meses depois por muito menos do que custou — perdi dinheiro, perdi família, perdi Teresa.
Hoje vivo num T1 modesto em Arroios. Às vezes passo pela antiga moradia e vejo crianças a brincar no jardim finalmente arranjado. Pergunto-me se algum dia vou conseguir sentir-me verdadeiramente em casa nalgum lugar…
Será que um lar é feito de paredes ou das pessoas com quem partilhamos os dias? Quantos sonhos temos de perder até percebermos o que realmente importa?