Voltei para casa com o meu bebé… e encontrei o vazio: será que estou mesmo sozinha?

— Não acredito, Miguel! — gritei, com a voz embargada, assim que pousei a cadeirinha do bebé no chão da sala. O eco devolveu-me apenas o silêncio. O meu filho, o pequeno Tomás, dormia profundamente, alheio ao vazio que nos envolvia. Olhei à volta: não havia berço, nem fraldas, nem sequer uma manta para o aconchegar. A casa parecia-me maior, mais fria, mais vazia do que nunca.

Senti as lágrimas a arderem-me nos olhos. Tinha passado três dias no hospital, sozinha quase sempre, porque o Miguel dizia que tinha reuniões importantes e não podia faltar ao trabalho. “É só mais um esforço agora, depois tudo melhora”, prometia ele ao telefone, mas as promessas dele já não me aqueciam o coração há muito tempo.

Peguei no telemóvel e liguei-lhe. Atendeu ao terceiro toque.

— Olá, amor. Está tudo bem? — perguntou, com aquela voz apressada que já me era tão familiar.

— Chegámos a casa. — Tentei manter a voz firme. — Não há nada aqui para o Tomás. Nem um berço, Miguel. Nem uma fralda.

Do outro lado ouvi um suspiro.

— Desculpa, Rita. Tive mesmo muito trabalho esta semana… Não consegui ir comprar as coisas. Mas amanhã trato disso, prometo.

Quis gritar-lhe que amanhã era tarde demais. Que o nosso filho precisava de mim agora, e eu precisava dele. Mas calei-me. Desliguei sem dizer mais nada.

Fui até ao quarto e sentei-me na beira da cama. O Tomás começou a choramingar. Peguei nele ao colo e embalei-o como pude, sentindo-me tão pequena quanto ele. Ouvia as vozes da minha mãe e da minha sogra na cabeça: “Agora és mãe, tens de ser forte”, “O Miguel trabalha tanto para vos dar uma vida melhor”. Mas ninguém me perguntava se eu estava bem.

Naquela noite dormi pouco. O Tomás acordava de hora a hora e eu improvisava fraldas com toalhas pequenas que encontrei numa gaveta. Senti-me miserável e incompetente. Às cinco da manhã, sentei-me no chão da cozinha e chorei baixinho para não acordar o bebé.

No dia seguinte, a minha mãe ligou.

— Então filha, como correu a primeira noite em casa?

Hesitei antes de responder.

— Foi difícil… O Miguel não preparou nada para o bebé. Não tenho quase nada aqui.

— Ai filha, tens de compreender o teu marido! Ele anda tão cansado… E tu és tão despachada, sempre foste! — disse ela, como se fosse óbvio que tudo devia cair sobre mim.

Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. Porque é que ninguém via o meu cansaço? Porque é que ser mulher era sinónimo de aguentar tudo calada?

À hora do almoço, o Miguel chegou finalmente a casa. Trazia um saco com algumas fraldas e um pacote de toalhitas.

— Desculpa, Rita… — murmurou ele, sem me olhar nos olhos.

— Achas mesmo que isto chega? — perguntei-lhe, mostrando-lhe as mãos vazias. — Achas que é assim tão difícil perceber que eu não consigo fazer tudo sozinha?

Ele encolheu os ombros.

— Eu trabalho para nós… Não percebes? Estou exausto também!

— E eu? Achas que não estou? — rebati, sentindo a voz tremer. — Achas que ter um filho é fácil? Que estar aqui sozinha com ele é algum descanso?

O Tomás começou a chorar no quarto e corri para ele. Enquanto o embalava nos braços, ouvi o Miguel a suspirar alto na sala. Senti-me ainda mais sozinha do que antes.

Os dias seguintes foram uma sucessão de pequenas batalhas: noites mal dormidas, discussões abafadas para não acordar o bebé, telefonemas da família a perguntar pelo neto mas nunca por mim. A minha sogra apareceu um dia sem avisar e criticou logo:

— O menino está tão pálido! Tens de lhe dar banho todos os dias! E tu também pareces cansada… devias arranjar-te melhor para o Miguel não se fartar de ti.

Sorri amarelo e engoli as palavras amargas que me subiam à boca.

Uma tarde, depois de mais uma discussão sobre quem devia ir às compras ou preparar o jantar, sentei-me na varanda com o Tomás ao colo e olhei para as ruas vazias do bairro. Senti uma solidão tão profunda que me faltou o ar. Pensei em fugir dali, ir para casa da minha mãe ou simplesmente desaparecer por uns dias. Mas depois olhei para o meu filho e soube que não podia deixá-lo.

Comecei a escrever num caderno velho tudo aquilo que sentia: a raiva, o medo, a tristeza e até as pequenas alegrias quando o Tomás sorria no sono ou apertava os meus dedos com força. Escrever tornou-se o meu refúgio.

Um dia, depois de uma noite especialmente difícil em que chorei até adormecer sentada na poltrona do quarto do bebé, decidi falar abertamente com o Miguel.

— Miguel, precisamos de ajuda — disse-lhe assim que chegou a casa. — Eu não consigo fazer isto sozinha. Ou mudamos alguma coisa ou eu vou abaixo.

Ele olhou-me finalmente nos olhos e vi ali um cansaço igual ao meu.

— Eu também estou perdido, Rita… Não sei como te ajudar. Sinto-me inútil aqui em casa.

— Então aprende comigo — pedi-lhe baixinho. — Aprende a ser pai comigo. Não quero fazer isto sozinha.

A partir desse dia começámos a dividir tarefas pequenas: ele dava banho ao Tomás enquanto eu preparava o jantar; eu descansava meia hora enquanto ele embalava o bebé na sala. Não foi fácil nem perfeito — discutíamos muitas vezes — mas aos poucos fui sentindo menos peso nos ombros.

A família continuava a cobrar: “O Miguel devia trabalhar menos”, “A Rita está sempre cansada”, “No nosso tempo era diferente”… Mas aprendi a ignorar os comentários e a confiar mais em mim.

Hoje olho para trás e vejo como foi difícil aquele regresso a casa: aquela sensação de abandono absoluto, o medo de falhar como mãe e como mulher. Mas também vejo como cresci naquele vazio — como aprendi a pedir ajuda e a exigir respeito pelo meu cansaço.

Às vezes ainda me pergunto: porque é que esperamos sempre que as mulheres aguentem tudo sozinhas? Será que algum dia vamos aprender a partilhar verdadeiramente as dores e alegrias da vida em família?

E vocês? Já se sentiram assim — invisíveis dentro da vossa própria casa?