Vergonha de Ser Mãe: Uma História de Lisboa

— Mãe, não podes ir assim! — O grito do Tiago ecoou pelo corredor estreito do nosso apartamento em Benfica, enquanto eu ajeitava o vestido azul que comprei em saldo no Centro Comercial Colombo. O espelho devolvia-me uma imagem cansada, mas orgulhosa. Eu queria tanto estar bonita para ele, para aquele momento que era tão dele quanto meu.

— Tiago, é só um vestido… — tentei sorrir, mas a voz saiu-me trémula. Ele virou-me as costas, os ombros tensos, e murmurou:

— Toda a gente vai gozar comigo, mãe. Não percebes? Não podes ir assim. — O olhar dele, tão duro, atravessou-me como uma faca. Senti-me pequena, como quando era miúda e a minha mãe ralhava comigo por não saber comportar-me à mesa.

O Tiago sempre foi o centro da minha vida. Desde que o pai dele nos deixou, quando ele tinha apenas seis anos, nunca mais olhei para outro homem. Trabalhei em dois empregos — de manhã, limpava escadas em prédios de Alvalade; à tarde, fazia limpezas em casas de senhoras que me tratavam como invisível. Tudo para que o Tiago tivesse o que eu nunca tive: livros novos, ténis de marca, um computador portátil. E agora, naquele momento, ele tinha vergonha de mim.

— Não tens de ir, mãe. Podes ficar em casa. — A voz dele era baixa, quase um sussurro, mas cada palavra era um murro no estômago.

Sentei-me na beira da cama, as mãos a tremer. Lembrei-me de todas as noites em que o embalei quando tinha febre, das vezes em que vendi o meu ouro para lhe pagar a viagem de finalistas a Barcelona. Lembrei-me de quando ele me dizia, pequenino, “Mãe, és a melhor do mundo.” Agora, era um rapaz alto, bonito, com o cabelo castanho igual ao meu, mas os olhos cheios de vergonha.

— Tiago, eu só queria ver-te dançar. Só queria estar lá para te aplaudir… — As lágrimas começaram a cair, silenciosas. Ele não olhou para mim.

— Não percebes, mãe? As mães dos outros vão todas bem vestidas, maquilhadas, com carros bons. Tu… tu vais de autocarro! — O Tiago nunca tinha falado assim comigo. Senti uma raiva a crescer dentro de mim, misturada com uma tristeza tão funda que me faltou o ar.

Levantei-me, limpei as lágrimas e fui até à cozinha. O cheiro do café frio misturava-se com o perfume barato que pus para a ocasião. Sentei-me à mesa, olhei para as mãos gretadas do detergente e pensei em tudo o que sacrifiquei. O telefone tocou. Era a minha irmã, a Ana.

— Então, mana, pronta para o grande dia do Tiago? — A voz dela era alegre, mas eu não consegui responder logo.

— Ele não me quer lá, Ana. Tem vergonha de mim. — A minha voz saiu embargada.

— Oh, Maria… — Ela suspirou. — Os miúdos são assim. Acham que o mundo gira à volta deles. Mas tu és a mãe dele, não deixes que isso te deite abaixo.

— Não sei se consigo, Ana. Sinto-me tão… tão inútil. — O silêncio do outro lado do telefone pesou mais do que mil palavras.

O Tiago saiu de casa sem se despedir. Vi-o pela janela, de fato novo, a entrar no carro do pai do Miguel, o melhor amigo dele. O pai do Miguel tinha um BMW, trabalhava numa seguradora, e a mulher era professora. Eu era só a Maria das limpezas. Senti um nó na garganta. Fiquei ali, parada, a olhar para a rua, enquanto o sol se punha atrás dos prédios.

À noite, sentei-me no sofá, com a televisão ligada sem som. Olhava para as fotos do Tiago em pequeno, espalhadas pela sala. Lembrei-me de quando ele me dizia que queria ser astronauta, de quando me pedia para lhe contar histórias antes de dormir. Agora, era um estranho na minha casa.

A Ana apareceu sem avisar, com um bolo de chocolate nas mãos.

— Vim fazer-te companhia. — Sorriu, mas os olhos dela estavam tristes.

— Sinto que falhei, Ana. Dei-lhe tudo, e mesmo assim não sou suficiente. — A minha voz era um sussurro.

— Não falhaste nada. Ele é que ainda não percebeu o que tens feito por ele. — Abraçou-me, e eu chorei no ombro dela, como quando éramos miúdas e a mãe nos ralhava.

O telefone tocou de novo. Era a mãe do Miguel.

— Maria, está tudo bem? O Tiago está um pouco em baixo. Acho que sente a tua falta. — A voz dela era suave, compreensiva.

— Ele não quis que eu fosse. — Respondi, a tentar não chorar.

— São coisas de miúdos. Mas olha, se quiseres vir, ainda vais a tempo. Eu passo aí e levo-te. — Hesitei. Olhei para a Ana, que assentiu com a cabeça.

— Está bem. — Disse, a voz a tremer.

Vesti o casaco, ajeitei o cabelo, e saí. O caminho até ao salão de festas pareceu-me interminável. Quando entrei, vi o Tiago encostado a uma parede, sozinho, enquanto os outros dançavam. Os olhos dele encontraram os meus. Por um momento, vi o meu menino de seis anos, perdido, à procura da mãe.

Aproximei-me devagar. Ele olhou para o chão.

— Desculpa, mãe. — Murmurou. — Tive vergonha… mas agora só tenho vergonha de mim mesmo.

Abracei-o, forte. Senti o coração dele a bater rápido contra o meu peito.

— Eu amo-te, Tiago. Sempre. — Disse-lhe ao ouvido.

Ele chorou, baixinho, como quando era pequeno. Ficámos ali, abraçados, no meio da multidão. Algumas mães olharam para nós, outras sorriram. Não me importei. Naquele momento, era só eu e o meu filho.

No caminho para casa, de autocarro, o Tiago encostou a cabeça ao meu ombro.

— Mãe, prometo que nunca mais vou ter vergonha de ti. — Sorrimos os dois, cansados, mas em paz.

Agora, sentada na sala, olho para ele a estudar para os exames. Penso em tudo o que passámos, nas feridas que ficam, nas palavras que doem mais do que qualquer bofetada. Pergunto-me: será que algum dia os filhos percebem mesmo o amor dos pais? Será que a vergonha pode ser vencida pelo amor? O que acham vocês?