“Um neto chega!”: Como a minha sogra quase destruiu a nossa família
“Um neto chega, Ana. Não penses que vou andar a dividir atenções ou prendas por mais crianças.” As palavras da Dona Lurdes ecoaram na cozinha fria, enquanto eu, com as mãos trémulas sobre a barriga já saliente, tentava engolir o nó na garganta. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o silêncio pesado que se seguiu. O meu marido, o Rui, fingia ler o jornal, mas eu via-lhe o maxilar tenso, os olhos fixos numa notícia qualquer só para não ter de enfrentar a mãe.
Nunca pensei que a notícia da minha segunda gravidez fosse recebida assim. Quando contei ao Rui, ele sorriu, abraçou-me e disse: “Vai correr tudo bem, amor.” Mas a Dona Lurdes sempre teve uma predileção pelo nosso primeiro filho, o Tiago. Desde que nasceu, era só ele: “O meu menino”, “O orgulho da avó”. Eu tentava não ligar, mas agora, grávida outra vez, sentia-me vulnerável e magoada.
“Não percebo qual é o problema de ter mais um neto”, arrisquei, tentando manter a voz firme. “O Tiago vai adorar ter um irmãozinho.”
A Dona Lurdes bufou. “Isto não é uma fábrica de filhos! E depois? Quem é que vai ajudar? Achas que tenho idade para andar atrás de dois?”
O Rui pousou finalmente o jornal. “Mãe, ninguém te está a pedir nada. A Ana e eu damos conta do recado.”
Ela levantou-se bruscamente, pegou na mala e saiu sem olhar para trás. Ficámos ali, os dois, a ouvir o portão a bater com força.
Os dias seguintes foram um tormento. O Tiago perguntava pela avó e eu não sabia o que dizer. O Rui tentava apaziguar-me: “Ela vai acalmar-se.” Mas eu sentia-me cada vez mais sozinha. A minha mãe vivia em Braga e só vinha cá uma vez por mês. Os meus sogros eram os únicos familiares por perto.
Quando nasceu a Matilde, a Dona Lurdes apareceu no hospital com um ramo de flores para mim… e um carrinho novo para o Tiago. Olhou para a neta como quem olha para uma boneca esquecida na prateleira. “Pronto, já está”, disse ao Rui. “Agora concentrem-se no Tiago.”
A ferida abriu-se ainda mais. Senti raiva, tristeza, culpa. Será que estava a ser injusta? O Rui tentava dividir-se entre mim e a mãe, mas eu via-o cada vez mais cansado. Começámos a discutir por tudo e por nada: quem dava banho à Matilde, quem ia buscar o Tiago ao infantário, quem fazia o jantar.
Uma noite, depois de uma discussão acesa sobre as visitas da Dona Lurdes (“Ela só vem cá quando tu não estás!”, atirei-lhe), o Rui saiu de casa sem dizer palavra. Fiquei sozinha com os miúdos, a chorar baixinho para não os acordar.
No dia seguinte, ele voltou com os olhos vermelhos. “Fui dormir à casa da minha mãe”, disse. “Ela acha que estás a afastar-me da família.”
“Eu? Eu é que estou a afastar-te?”, gritei. “Ela é que nunca aceitou a Matilde! Nunca!”
O Tiago apareceu à porta do quarto com os olhos assustados. Corri para ele e abracei-o. O Rui ficou parado, sem saber o que fazer.
As semanas passaram e as coisas só pioraram. A Dona Lurdes começou a fazer comentários venenosos: “A Matilde é tão diferente do Tiago…”, “O Tiago sempre foi mais esperto”, “Não te esqueças do primeiro filho, Ana.”
Senti-me cada vez mais isolada. As minhas amigas diziam-me para ignorar, mas como se ignora alguém que faz parte da tua vida todos os dias? Comecei a evitar os almoços de família. O Rui ia sozinho com o Tiago; eu ficava em casa com a Matilde.
Um domingo à tarde, ouvi o Tiago perguntar ao pai: “Porque é que a avó não gosta da Matilde?” O Rui ficou sem resposta. Eu chorei no banho até não ter mais lágrimas.
Foi então que decidi confrontar a Dona Lurdes. Liguei-lhe e pedi para falarmos as duas.
Encontrámo-nos num café perto da casa dela. Ela chegou atrasada, sentou-se sem me olhar nos olhos.
“Dona Lurdes”, comecei, “preciso de perceber porque é que trata a Matilde de forma diferente.”
Ela suspirou fundo. “Eu sei que parece… Mas eu não consigo sentir o mesmo por ela.”
“Porquê?”, insisti.
Ela olhou finalmente para mim. Os olhos estavam húmidos. “Quando tive o Rui… perdi uma filha antes dele nascer. Era uma menina. Nunca consegui superar isso. Quando nasceu o Tiago… foi como se tivesse recuperado alguma coisa. Agora… ver outra menina… dói-me.”
Fiquei sem palavras. Nunca ninguém me tinha contado aquilo.
“Eu não quero magoar ninguém”, continuou ela em voz baixa. “Mas não sei lidar com isto.”
Saí dali confusa, dividida entre compaixão e raiva antiga. Contei tudo ao Rui nessa noite. Ele chorou como nunca o tinha visto chorar.
A partir daí as coisas mudaram devagarinho. A Dona Lurdes começou a tentar aproximar-se da Matilde – aos poucos, com gestos pequenos: um vestido novo, um livro de histórias. Não era perfeito, mas era um começo.
O Rui e eu fomos à terapia de casal. Aprendemos a falar sem gritar, a ouvir sem julgar.
Hoje olho para trás e penso em tudo o que perdemos por falta de diálogo – e no que ainda podemos recuperar.
Será que alguma vez conseguimos perdoar verdadeiramente quem nos magoa? Ou será que aprendemos apenas a viver com as cicatrizes?