Tudo pelo Meu Filho: O Preço do Amor de Mãe
— Mãe, preciso falar contigo. — A voz do Diogo tremia do outro lado da linha, e eu soube logo que algo estava errado. Era uma noite fria de janeiro, e eu estava sentada à mesa da cozinha, a olhar para o relógio e a pensar em como a vida tinha mudado desde que o meu marido morreu. O silêncio da casa pesava-me nos ombros, mas nada me preparou para o que ouvi a seguir.
— O que se passa, filho? — perguntei, tentando manter a calma.
— Preciso de dinheiro. Estou metido numa alhada. — Aquelas palavras caíram como pedras no meu peito. O Diogo sempre foi um miúdo complicado, mas nunca pensei ouvi-lo assim, tão desesperado.
— Que tipo de alhada? — insisti, já a sentir o coração a acelerar.
— Dívidas, mãe. Jogo. Eu… eu perdi muito dinheiro. Eles ameaçaram-me. — A voz dele quebrou-se e eu senti uma dor aguda, como se me tivessem arrancado o chão.
Fiquei em silêncio por um momento, a tentar processar tudo. O Diogo era o meu único filho, o meu mundo desde que o António partiu. Sempre fui mãe galinha, talvez até demais. Mas nunca imaginei que ele pudesse cair tão fundo.
— Quanto é que precisas? — perguntei, já com lágrimas nos olhos.
— Vinte mil euros. — O número ecoou na minha cabeça como um trovão. Eu não tinha esse dinheiro. A minha reforma mal dava para as contas e para os remédios. Só tinha uma coisa de valor: a casa onde vivi toda a minha vida.
Naquela noite não dormi. Andei pela casa às voltas, a olhar para as fotografias nas paredes, para os móveis antigos cheios de memórias. Lembrei-me do Diogo em pequeno, a correr pelo quintal com os joelhos esfolados e um sorriso traquina. Lembrei-me das noites em que o embalei ao colo quando tinha pesadelos. Como podia agora deixá-lo sozinho neste pesadelo?
No dia seguinte fui ao banco. O gerente olhou para mim com pena quando expliquei que queria vender a casa. Tentei não chorar enquanto assinava os papéis. Disse-me que era melhor pensar duas vezes, mas eu só pensava no Diogo.
Quando lhe entreguei o dinheiro, ele chorou nos meus braços como quando era criança. Prometeu-me que ia mudar, que ia procurar ajuda. Acreditei nele porque era meu filho e porque precisava de acreditar.
Durante uns meses, tudo pareceu melhorar. O Diogo arranjou um trabalho numa loja de informática em Lisboa e vinha visitar-me todos os domingos ao pequeno apartamento que arrendei em Almada. Trazia flores, ajudava-me com as compras e falava dos planos para o futuro.
Mas um dia, recebi uma chamada da polícia. O Diogo tinha sido apanhado numa rusga num casino ilegal em Setúbal. Tinha perdido tudo outra vez — e mais ainda. Senti-me traída, usada, mas acima de tudo, derrotada.
Quando ele saiu da esquadra, olhou para mim com vergonha nos olhos.
— Desculpa, mãe. Eu não consigo parar.
A raiva misturou-se com tristeza dentro de mim.
— Eu vendi tudo por ti! Dei-te tudo o que tinha! — gritei-lhe no meio da rua, sem me importar com quem ouvia.
Ele baixou a cabeça e murmurou:
— Eu sei… mas não consigo sair disto sozinho.
Foi aí que percebi que o amor de mãe tem limites — não no sentimento, mas no sacrifício. Passei noites sem dormir, a perguntar-me onde tinha falhado. Liguei à minha irmã Maria, com quem não falava há anos por causa de uma discussão antiga sobre heranças.
— Preciso de ajuda — disse-lhe entre soluços.
Ela veio ter comigo no dia seguinte. Sentámo-nos à mesa da cozinha do meu pequeno apartamento e falámos durante horas. Pela primeira vez em anos, senti-me menos sozinha.
— Tu fizeste tudo o que podias — disse-me ela. — Agora é ele que tem de querer mudar.
Com a ajuda da Maria e de um psicólogo do centro de saúde, convenci o Diogo a ir a uma reunião dos Jogadores Anónimos. No início ele resistiu, mas depois começou a ir todas as semanas.
A nossa relação ficou marcada por silêncios e desconfianças. Eu queria acreditar nele, mas cada vez que o telefone tocava tarde da noite, o meu coração parava de medo.
Um dia, ao regressar das compras, encontrei-o sentado nas escadas do prédio.
— Mãe… consegui um estágio numa empresa de informática no Porto. Vou tentar recomeçar longe daqui.
Olhei para ele e vi nos olhos dele um brilho diferente — talvez esperança, talvez medo.
— Vais conseguir? — perguntei baixinho.
Ele sorriu tristemente:
— Não sei… mas vou tentar por ti.
Despedimo-nos com um abraço apertado. Fiquei ali na rua a vê-lo afastar-se até desaparecer na esquina.
Hoje vivo sozinha num apartamento pequeno demais para tantas memórias. Às vezes sinto falta da casa antiga, do cheiro do jardim depois da chuva, das gargalhadas do Diogo em criança. Mas aprendi que ser mãe não é salvar sempre — às vezes é deixar partir.
Pergunto-me muitas vezes: será que fiz bem? Teria sido diferente se tivesse dito não? Ou será que amar é mesmo isto: dar tudo e esperar que um dia volte? E vocês, até onde iriam por um filho?