Tudo o que Preparei para a Semana, Ele Deu à Mãe — Uma História de Traição e Limites

— Mariana, não faças disso um drama, por favor! — disse Rui, com aquele tom de voz que me fazia sentir pequena, como se eu estivesse a exagerar.

Mas como não fazer um drama? Passei o domingo inteiro na cozinha, a preparar refeições para a semana. Entre tachos e panelas, cortei legumes, temperei carnes, fiz sopas e até um arroz doce, porque sabia que os miúdos iam adorar. O cheiro da comida enchia a casa, e eu sentia-me orgulhosa — finalmente, uma semana em que não teria de correr atrás do tempo, a inventar jantares de última hora.

Na segunda-feira, cheguei a casa depois do trabalho, cansada mas aliviada, pronta para aquecer o jantar. Abri o frigorífico e… nada. As caixas estavam vazias. O arroz doce tinha desaparecido. Até a sopa, que eu tinha feito em dose dupla, não estava lá. Fiquei parada, a olhar para o vazio, o coração a bater forte.

— Rui! — gritei, já com a voz a tremer. — O que aconteceu à comida?

Ele apareceu na porta da cozinha, com o telemóvel na mão, como se nada fosse.

— Ah, a minha mãe veio cá. Levei-lhe as coisas. Ela anda cansada, coitada. — disse, encolhendo os ombros.

— Levaste-lhe tudo? — perguntei, incrédula.

— Sim, Mariana, ela precisa. Não faças uma tempestade num copo de água.

Senti uma raiva a crescer dentro de mim, uma mistura de frustração e tristeza. Não era só a comida. Era o tempo que eu tinha investido, o esforço, o cuidado. Era o facto de ele nem sequer me ter perguntado. Como se o meu trabalho não valesse nada. Como se eu fosse invisível.

— Rui, tu não percebes… — tentei explicar, mas ele já estava a sair da cozinha, a ignorar-me.

Fui para o quarto, fechei a porta e sentei-me na cama. As lágrimas começaram a cair, silenciosas. Lembrei-me de todas as vezes em que pus os outros à frente de mim. Da minha mãe, que sempre dizia: “Uma mulher tem de saber ceder.” Mas até quando? Até quando é que o meu esforço vai ser dado como garantido?

No dia seguinte, acordei cedo. Os miúdos perguntaram pelo arroz doce. Inventei uma desculpa qualquer, mas vi a desilusão nos olhos deles. No trabalho, não consegui concentrar-me. A cabeça andava à roda, cheia de perguntas. Porque é que ele não me respeita? Porque é que eu deixo?

À noite, tentei falar com ele outra vez. Esperei que as crianças fossem para a cama.

— Rui, precisamos de conversar. — disse, com a voz firme.

Ele olhou para mim, impaciente.

— Sobre o quê? Já te disse, a minha mãe precisava.

— E eu? E os nossos filhos? Não merecemos respeito? Eu passei horas a cozinhar, Rui. Horas! E tu nem sequer me perguntaste se podias levar a comida. Achas isso normal?

Ele bufou.

— Mariana, estás a exagerar. É só comida. Amanhã fazes mais.

Foi aí que percebi. Para ele, era só comida. Para mim, era tudo o que eu sou. O meu tempo, o meu esforço, o meu amor pela família. E ele achava que podia simplesmente dar tudo, sem sequer me consultar.

— Não, Rui. Amanhã não faço mais. — disse, sentindo uma força nova dentro de mim. — Não sou tua criada. Não sou invisível. Se queres ajudar a tua mãe, faz tu a comida. Eu não vou passar mais horas na cozinha para depois ver tudo desaparecer.

Ele ficou calado, surpreendido. Nunca me tinha ouvido falar assim. Eu própria nunca me tinha ouvido falar assim.

Os dias seguintes foram estranhos. Não cozinhei. Comprei comida feita, aqueci restos, deixei que ele se desenrascasse. A casa parecia diferente, como se o ar estivesse mais pesado. A sogra ligou-me, a perguntar se estava tudo bem. Disse-lhe que sim, mas que estava cansada. Ela não insistiu.

Comecei a reparar em pequenas coisas. Como ele nunca arrumava a loiça, como deixava as meias espalhadas, como esperava que eu tratasse de tudo. E comecei a perguntar-me: desde quando é que isto se tornou normal? Desde quando é que aceitei ser a única a sacrificar-me?

Uma noite, sentei-me com os miúdos na sala. Perguntei-lhes o que gostavam de fazer juntos. Jogámos cartas, rimos, comemos pipocas. Senti-me feliz, pela primeira vez em muito tempo. Percebi que o amor não está só na comida, mas no tempo que damos uns aos outros.

Rui começou a perceber que algo tinha mudado. Tentou falar comigo, mas eu já não era a mesma. Disse-lhe que precisava de respeito, de reconhecimento. Que não podia continuar a dar tudo de mim sem receber nada em troca.

Ele ficou calado, pensativo. Pela primeira vez, vi-o a arrumar a loiça, a ajudar os miúdos com os trabalhos de casa. Não foi fácil. Discutimos, chorámos, mas também aprendemos a ouvir-nos.

A minha relação com a sogra mudou. Passei a impor limites. Quando ela me pedia alguma coisa, eu dizia que sim — se pudesse. Se não pudesse, dizia que não. E percebi que o mundo não acabava por isso.

Hoje, olho para trás e vejo a mulher que era: cansada, invisível, sempre a tentar agradar a todos. E vejo a mulher que sou agora: mais forte, mais segura, capaz de dizer não.

Às vezes, Rui ainda se esquece. Ainda tenta que eu faça tudo. Mas agora, olho-o nos olhos e digo:

— Não sou tua criada. Sou tua mulher. E mereço respeito.

Pergunto-me: quantas de nós vivem assim, a dar tudo e a receber tão pouco? Quantas de nós têm medo de dizer basta? E vocês, já sentiram que o vosso esforço é invisível? O que fariam no meu lugar?