Tudo o que construí pode ruir por causa da família do meu genro – o drama de um pai português

— Não quero mais ouvir falar desse assunto, pai! — gritou a Inês, batendo com a porta da cozinha. O som ecoou pela casa, misturando-se com o cheiro do café acabado de fazer. Fiquei parado, com a chávena na mão, sentindo o coração apertar como se alguém o estivesse a espremer. Como é possível que tudo aquilo que construí com tanto sacrifício esteja agora à beira de se desmoronar por causa de uma família que nem é minha?

Chamo-me António, tenho 62 anos. Passei metade da vida a trabalhar nas obras em França, a juntar cada cêntimo para dar uma vida melhor à minha filha. Quando finalmente regressei a Portugal, comprei este apartamento em Benfica, um T3 modesto mas luminoso, com espaço suficiente para a Inês, o Miguel e os meus dois netos, o Tomás e a Leonor. Sempre sonhei em ver a minha família reunida à mesa, a rir-se das pequenas coisas, sem preocupações. Mas agora, cada refeição é um campo de batalha.

Tudo começou quando o Miguel perdeu o emprego. Ele sempre foi um rapaz trabalhador, mas desde que casou com a Inês parece que carrega o peso do mundo nos ombros. A família dele — os Pais, o irmão mais novo e até uma tia distante — começaram a aparecer cá em casa cada vez mais. Primeiro era só para um café, depois para almoços de domingo, até que começaram a trazer sacos de compras e a dormir no sofá. A mãe do Miguel, a Dona Lurdes, tem sempre uma opinião sobre tudo: “António, devia pensar em vender este apartamento e comprar uma casa maior para todos!” — disse ela uma noite, enquanto eu lavava a loiça.

Senti o sangue ferver. Este apartamento é o resultado de anos de saudade, de noites frias em Paris sem ninguém com quem falar português. Não posso permitir que alguém venha aqui dizer-me o que fazer com aquilo que é meu. Mas a Inês não vê as coisas assim. “Eles são família do Miguel”, diz ela. “Estão só a passar uma fase difícil.” Mas quanto tempo dura uma fase difícil? Dois meses? Um ano?

O pior foi quando descobri que o irmão do Miguel andava a usar o meu cartão multibanco para levantar dinheiro. Só percebi quando fui ao banco e vi os movimentos estranhos. Confrontei-o na sala, à frente de todos:

— Rui, foste tu que levantaste este dinheiro?

Ele nem sequer tentou negar. “Precisei para pagar umas contas, António. Depois devolvo.”

Olhei para a Inês à espera de apoio, mas ela desviou o olhar. Senti-me traído por todos. Liguei ao meu amigo Joaquim nessa noite:

— Joaquim, sinto-me um estranho na minha própria casa. Achas que estou a exagerar?

Ele suspirou do outro lado da linha: “António, tens de pôr limites. Senão eles nunca vão parar.”

Mas como é que se põem limites à própria filha? Como é que lhe digo que não quero aquela gente aqui sem parecer um velho egoísta? O Miguel começou a beber mais. Chegava tarde, cheirava a álcool e discutia com a Inês por tudo e por nada. Uma noite ouvi gritos vindos do quarto deles:

— Não aguento mais esta pressão! — gritava ele.
— E eu? Achas que é fácil para mim? — respondia ela.

Os miúdos acordaram assustados. Fui ter com eles ao corredor e abracei-os forte. “O avô está aqui”, sussurrei, mas sentia-me impotente.

A situação piorou quando a Dona Lurdes sugeriu que eu passasse o apartamento para o nome da Inês e do Miguel “para garantir o futuro dos netos”. Senti um nó no estômago. E se eles se separassem? E se vendessem tudo? Passei noites sem dormir, a olhar para o teto e a pensar nos anos perdidos longe de casa.

Um dia, ao chegar do supermercado, encontrei toda a família do Miguel sentada na sala, como se fosse deles. A Dona Lurdes falava alto ao telefone: “Sim, sim, estamos aqui em casa do António… Ele já está velho, coitado.”

Fui à varanda fumar um cigarro — coisa que já não fazia há anos — e chorei em silêncio. Senti-me derrotado.

Tentei falar com a Inês:
— Filha, isto não pode continuar assim.
Ela olhou-me com olhos vermelhos:
— O Miguel está deprimido… Precisa da família dele por perto.
— E nós? E tu? E os teus filhos?
Ela encolheu os ombros:
— Não sei… Sinto-me perdida.

Comecei a evitar estar em casa. Ia ao café do senhor Manuel só para ouvir conversas normais sobre futebol ou política. Um dia ele perguntou-me:
— Então António, está tudo bem lá em casa?
E eu respondi:
— Já não sei onde é a minha casa.

A situação atingiu o limite quando encontrei o Tomás a chorar no quarto porque os primos do Miguel tinham partido os brinquedos dele. Fui falar com o Miguel:
— Isto não pode continuar! Os teus sobrinhos não têm respeito por ninguém!
Ele levantou-se devagar:
— Se não gostas, podes ir viver para outro lado.
Senti um murro no estômago. Era eu agora o intruso?

Nessa noite escrevi uma carta à Inês:
“Filha,
Sei que estás a passar por momentos difíceis, mas esta casa foi construída com amor e sacrifício para ti e para os teus filhos. Não deixes que ninguém destrua isso. Amo-te.”

No dia seguinte encontrei-a sentada na cozinha com lágrimas nos olhos:
— Desculpa pai… Não quero perder-te.
Abracei-a como quando era pequena.
— Ainda vamos conseguir dar a volta por cima.

A Dona Lurdes percebeu que já não era bem-vinda e começou a aparecer menos vezes. O Miguel procurou ajuda e arranjou um trabalho temporário numa oficina. As coisas ainda não estão perfeitas — há dias em que sinto que tudo pode voltar atrás — mas pelo menos já consigo ouvir os risos dos meus netos outra vez.

Agora pergunto-me: quantos pais já passaram por isto? Quantos sacrificaram tudo pelos filhos e acabaram por se sentir estrangeiros na própria casa? Valeu a pena tanto esforço? Talvez nunca saiba responder… Mas continuo aqui — porque família é isso mesmo: lutar até ao fim.