“Tu não fazes nada o dia todo!” – A minha luta por compreensão e respeito durante a licença de maternidade

— Outra vez sopa de legumes? — resmungou o Ricardo, largando a colher na mesa com um estrondo que me fez estremecer. O pequeno Tomás, ao colo, acordou com um soluço e começou a chorar. Senti o peito apertar-se. Não era só o barulho; era tudo o que aquela frase carregava.

Olhei para ele, cansada, com as olheiras fundas de quem não dorme há semanas. — Não tive tempo para mais, Ricardo. O Tomás não me largou um minuto hoje. — A minha voz saiu mais fraca do que queria.

Ele bufou, levantando-se da mesa. — Tu estás em casa o dia todo! Não percebo como é que não consegues fazer nada de jeito. Eu trabalho oito horas e ainda tenho de chegar a casa e ouvir isto?

Fiquei ali sentada, com o Tomás ao colo, sentindo-me pequena, invisível. Oiço o som da televisão na sala, o volume alto demais para o bebé dormir. Fechei os olhos e tentei não chorar. Não queria que o Tomás sentisse a minha tristeza.

A verdade é que desde que fiquei em casa com ele, tudo mudou. Antes, eu era a Sofia — professora de História, amiga animada, mulher independente. Agora era só “a mãe do Tomás”. Os dias misturavam-se: fraldas, mamadas, choros, tentativas falhadas de adormecer o bebé enquanto olhava para o relógio e via as horas passar devagar demais.

A minha mãe ligava todos os dias. — Tens de te organizar melhor, filha. No meu tempo fazia-se tudo sem estas lamúrias.

A sogra aparecia sem avisar, criticava a desarrumação da casa e dizia que o Tomás devia estar mais agasalhado.

E eu? Eu sentia-me cada vez mais sozinha.

Uma noite, depois de adormecer finalmente o Tomás às três da manhã, sentei-me no sofá com uma manta e chorei baixinho. O Ricardo dormia profundamente no quarto ao lado. Pensei em como tudo era diferente do que imaginei quando engravidei. Sonhava com tardes felizes em família, com um marido carinhoso e um bebé sorridente. Em vez disso, sentia-me uma empregada mal paga e mal amada.

No dia seguinte, tentei falar com ele. — Ricardo, preciso que me ajudes mais aqui em casa. Estou exausta.

Ele nem levantou os olhos do telemóvel. — Sofia, tu é que estás em casa. Eu trabalho.

— Mas isto também é trabalho! — gritei sem querer, surpreendendo-me com a força da minha voz.

O Tomás começou a chorar outra vez. Senti-me culpada por tudo: por gritar, por não conseguir ser calma, por não conseguir ser suficiente.

As semanas passaram e comecei a evitar falar dos meus sentimentos. Quando as amigas perguntavam como estava, respondia sempre: — Está tudo bem! — mesmo quando sentia que estava a afundar-me.

Um dia, a minha amiga Inês apareceu cá em casa sem avisar. Encontrou-me sentada no chão da cozinha a chorar enquanto o Tomás berrava no berço.

— Sofia! O que se passa?

Desabei nos braços dela. — Sinto-me tão sozinha… O Ricardo não percebe nada disto. Ninguém percebe.

Ela ficou comigo toda a tarde. Fez-me chá, embalou o Tomás e ouviu-me desabafar como ninguém tinha feito até então.

— Tens de falar com ele outra vez — disse ela antes de sair. — Não podes continuar assim.

Naquela noite, esperei que o Ricardo chegasse do trabalho e sentei-me à mesa com ele.

— Ricardo, preciso mesmo que me ouças desta vez. Não estou bem. Estou cansada, sinto-me sozinha e preciso de ti.

Ele olhou para mim pela primeira vez em semanas como se realmente me visse.

— Sofia… Eu não fazia ideia…

— Não fazias porque nunca quiseste saber! — explodi. — Achas que isto é fácil? Achas que estar aqui fechada todos os dias sem ninguém para falar é algum descanso? Achas que trocar fraldas às três da manhã é lazer?

Ele ficou calado durante uns segundos longos demais.

— Desculpa… Eu só… Eu achava mesmo que era diferente…

— Pois é diferente! E eu preciso de ti aqui comigo! Preciso de sentir que somos uma equipa!

Nessa noite ele ficou acordado comigo quando o Tomás chorou. Viu-me dar-lhe mama, viu-me embalar durante horas até ele adormecer outra vez. No dia seguinte levantou-se cedo para fazer o pequeno-almoço e perguntou se eu queria tomar banho enquanto ele ficava com o bebé.

Foi um pequeno gesto mas senti-me vista pela primeira vez em meses.

As coisas não mudaram de um dia para o outro. Houve discussões, houve silêncios desconfortáveis e houve dias em que voltei a sentir-me sozinha. Mas aos poucos fomos aprendendo a falar um com o outro.

A minha mãe continuava a ligar todos os dias com conselhos não pedidos; a sogra continuava a aparecer sem avisar; mas agora eu já conseguia dizer “não” quando precisava de espaço.

Comecei a sair de casa com o Tomás para apanhar ar fresco no jardim do bairro. Conheci outras mães na mesma situação e percebi que não estava sozinha nesta luta invisível por reconhecimento.

Um dia sentei-me num banco do jardim ao lado da Ana, mãe da Leonor.

— Também te sentes assim? — perguntei-lhe baixinho.

Ela sorriu tristemente. — Todos os dias…

Falámos durante horas sobre expectativas, cansaço e sobre como ninguém nos prepara para esta solidão tão cheia de amor e medo ao mesmo tempo.

Voltei para casa mais leve nesse dia. O Ricardo estava à porta à minha espera com um sorriso tímido.

— Fiz jantar — disse ele, meio envergonhado.

Sentei-me à mesa com ele e pela primeira vez em muito tempo senti esperança.

Hoje olho para trás e vejo como foi difícil pedir ajuda, admitir fraqueza e exigir respeito dentro da minha própria casa. Mas também vejo como foi importante lutar por mim mesma e pelo nosso filho.

Às vezes pergunto-me: quantas mulheres continuam caladas nas suas casas, sentindo-se invisíveis? Quantos Ricardos continuam sem ver realmente quem está ao seu lado?

Será que algum dia vamos aprender a valorizar verdadeiramente quem cuida dos nossos filhos?