Todos os dias cozinho para o Pedro: Quando será suficiente?

— Outra vez arroz, Susana? — A voz do Pedro ecoou pela cozinha, carregada de desdém, enquanto eu pousava a travessa fumegante na mesa. O cheiro do arroz de pato ainda pairava no ar, mas o seu olhar já me cortava como uma faca. — Não podias ter feito outra coisa? Sabes que não gosto de repetir pratos.

A minha mão tremeu ao pousar a colher de servir. Senti o calor subir-me ao rosto, misturado com a humilhação e o cansaço. Olhei para ele, sentado à cabeceira da mesa, com o jornal aberto e o telemóvel ao lado do prato, como se tudo aquilo fosse um cenário montado só para ele.

— Pedro, cheguei há menos de uma hora do trabalho. Não tive tempo para mais — tentei justificar-me, mas a minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Ele nem sequer levantou os olhos.

— Se tivesses planeado melhor, não era preciso comer sempre o mesmo — murmurou, já a servir-se de vinho.

Sentei-me em silêncio. Oiço o tilintar dos talheres e o som abafado da televisão na sala. Oiço também o meu coração a bater forte no peito, como se quisesse fugir dali. Todos os dias são assim: acordo antes das seis para lhe preparar o pequeno-almoço fresco — pão torrado, sumo de laranja espremido na hora, café acabado de fazer. Depois vou trabalhar no escritório da imobiliária até às seis da tarde, sempre a correr entre clientes e papéis. E quando chego a casa, não descanso: tiro o avental e volto à cozinha, porque Pedro não come comida aquecida. Nunca comeu.

No início do casamento achei graça ao seu paladar exigente. Era sinal de que valorizava a tradição, pensei eu. Mas agora, passados oito anos, sinto-me presa numa rotina sufocante. Não há um dia em que não me sinta exausta. Não há um dia em que ele agradeça.

A minha mãe diz-me sempre: “Susana, é assim que são os homens portugueses. A tua avó também cozinhava todos os dias para o avô.” Mas eu não sou a minha avó. E este não é o tempo dela.

Naquela noite, depois do jantar, fui arrumar a cozinha sozinha. O Pedro ficou na sala a ver futebol com o irmão ao telefone. Oiço-os rir alto, falar de apostas e jogadores como se nada mais existisse no mundo. Eu lavo os pratos em silêncio, as mãos doridas da água quente e dos detergentes baratos.

Quando finalmente me sento no sofá, já ele está a ressonar na poltrona. Olho para ele e pergunto-me: será que ele alguma vez percebeu o que faço por nós? Será que alguma vez lhe passou pela cabeça agradecer?

No dia seguinte, acordo com o despertador antes das seis. O corpo pesa-me como chumbo. Vou à cozinha e preparo tudo como sempre: pão fresco, queijo da serra, café forte. Quando ele entra na cozinha, nem bom dia me diz.

— O leite está frio — reclama.

Respiro fundo. Sinto uma raiva surda a crescer dentro de mim. Pego na caneca e volto a aquecer o leite no micro-ondas. Penso em todas as vezes que engoli sapos para evitar discussões. Penso em todas as vezes que quis gritar mas calei-me.

No trabalho, a minha colega Carla olha para mim com preocupação:

— Estás bem? Pareces cansada.

— Dormi mal — minto.

Ela sorri com ternura:

— Tens de cuidar de ti, Susana. Não és só dona de casa.

As palavras dela ficam-me a ecoar na cabeça todo o dia. Não és só dona de casa. Mas será que sou mais alguma coisa?

À noite, quando chego a casa, encontro Pedro sentado à mesa com a mãe dele. A sogra veio fazer-lhe companhia porque “não gosta de ver o filho sozinho”. Ela olha para mim com aquele ar crítico:

— Fiz sopa de feijão porque sei que o Pedro gosta — diz ela, como se eu não soubesse cozinhar.

Pedro sorri-lhe como nunca me sorri a mim.

— A sopa da mãe é sempre melhor — diz ele.

Sinto-me invisível naquela casa. Sento-me à mesa e como em silêncio. A sogra fala dos tempos antigos, das mulheres que sabiam cuidar dos maridos e dos filhos. Eu engulo as palavras dela como quem engole pedras.

Depois do jantar, Pedro vira-se para mim:

— Amanhã podias fazer bacalhau à Brás. Já não como há séculos.

— Amanhã tenho reunião até tarde — respondo sem pensar.

Ele franze o sobrolho:

— Então janta-se o quê?

— Não sei — respondo, sentindo uma coragem estranha a crescer dentro de mim. — Talvez possas cozinhar tu ou pedir comida fora.

A sogra olha para mim como se eu tivesse dito um disparate enorme.

— Susana! Uma mulher tem de cuidar do marido!

Levanto-me da mesa sem responder. Vou para o quarto e fecho a porta atrás de mim. Sento-me na cama e deixo as lágrimas correrem pelo rosto. Sinto-me sozinha no meio daquela casa cheia de vozes e exigências.

No dia seguinte não acordo cedo. Deixo Pedro preparar o pequeno-almoço sozinho. Ele bate à porta do quarto:

— Susana? O que se passa contigo?

Não respondo. Fico ali sentada na cama, a olhar para as mãos vazias.

O dia passa devagar. No trabalho não consigo concentrar-me. Penso em tudo o que abdiquei por este casamento: os jantares com amigas que deixei de aceitar porque ele não gostava; os cursos que quis fazer mas nunca tive tempo; os sonhos pequenos que fui deixando morrer aos poucos.

Quando chego a casa ao fim do dia, Pedro está à minha espera na sala.

— Podemos falar? — pergunta ele, num tom menos duro do que o habitual.

Sento-me no sofá à sua frente.

— O que se passa contigo? Andas estranha — diz ele.

Olho-o nos olhos pela primeira vez em muito tempo.

— Estou cansada, Pedro. Cansada de fazer tudo sozinha e nunca ser suficiente. Cansada de sentir que nada do que faço tem valor.

Ele fica calado por uns segundos.

— Eu trabalho muito também…

Abano a cabeça:

— Não é disso que falo. Falo de respeito, de reconhecimento… De sentir que somos uma equipa e não apenas eu a servir-te todos os dias.

Ele baixa os olhos.

— Nunca pensei nisso assim…

O silêncio instala-se entre nós como uma parede invisível.

Naquela noite não cozinho. Sentamo-nos juntos no sofá e pedimos uma pizza pela primeira vez desde que casámos. Comemos em silêncio, cada um perdido nos seus pensamentos.

Nos dias seguintes tento mudar pequenas coisas: deixo de acordar tão cedo; às vezes compro comida feita; outras vezes peço-lhe ajuda na cozinha. Nem sempre corre bem — há discussões, há silêncios pesados — mas sinto-me um pouco mais livre.

A minha mãe liga-me preocupada:

— Susana, tens de ter cuidado… Os homens não gostam dessas mudanças.

Mas eu já não quero viver presa ao medo do desagrado dos outros.

Às vezes Pedro ainda reclama; outras vezes ajuda-me sem eu pedir. Estamos longe de ser perfeitos — talvez nunca sejamos — mas pela primeira vez sinto que posso respirar nesta casa.

Olho para trás e pergunto-me: quantas mulheres vivem presas neste ciclo sem fim? Quantas vezes damos tudo até não sobrar nada para nós? Será que algum dia vamos aprender a dizer basta antes de nos perdermos completamente?