Tive de expulsar a minha filha e o genro de casa: A hospitalidade que me destruiu
— Mãe, não podes continuar a meter-te na nossa vida! — gritou a Inês, com os olhos cheios de lágrimas e raiva, enquanto o Rui, de braços cruzados, olhava para mim como se eu fosse uma intrusa na minha própria casa.
Senti o chão fugir-me dos pés. A minha cozinha, onde tantas vezes preparei o arroz de pato preferido da Inês, parecia agora um campo de batalha. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com a tensão no ar. Nunca imaginei que a minha filha, a menina que embalei nos braços durante noites sem fim, me olhasse com tanto desprezo.
Tudo começou há seis meses, quando a Inês me ligou a chorar. Tinham sido despejados do apartamento em Lisboa — o senhorio queria vender e eles não tinham para onde ir. “Mãe, só por uns tempos, até arranjarmos alguma coisa”, pediu ela, a voz trémula. O Rui tinha perdido o emprego na restauração e ela fazia uns biscates como babysitter. O meu coração apertou-se. Como poderia eu dizer não?
No início, tentei ver o lado positivo: teria a minha filha por perto, poderia ajudá-la e talvez até conhecer melhor o Rui. Mas rapidamente percebi que a hospitalidade tem um preço alto. O Rui passava os dias no sofá, a jogar PlayStation e a beber cerveja barata. A Inês dormia até tarde e só saía para ir ao café com as amigas. A casa enchia-se de vozes altas, discussões e pratos por lavar.
Tentei falar com eles. “Inês, filha, talvez fosse bom procurares trabalho aqui em Coimbra. Há sempre vagas no supermercado ou na pastelaria da Dona Lurdes.” Ela revirou os olhos. “Mãe, não percebes que isso é temporário? Não vou ficar presa aqui como tu!”
As palavras dela doeram mais do que qualquer bofetada. Eu, presa? Eu, que trabalhei trinta anos como enfermeira no Hospital dos Covões para lhe dar tudo? Senti-me pequena, inútil.
As semanas passaram e nada mudava. O Rui começou a trazer amigos para ver futebol. Uma noite chegaram às três da manhã, ruidosos e bêbados. Levantei-me da cama e pedi silêncio. “Isto agora também é nossa casa!”, respondeu-me ele, sem vergonha.
A vizinha do lado, a Dona Emília, começou a evitar-me no elevador. Ouvi rumores no prédio: “A filha da D. Teresa anda metida com gente estranha…” Senti vergonha. Pela primeira vez na vida quis desaparecer.
A gota de água foi numa tarde de domingo. Cheguei da missa e encontrei a sala num caos: garrafas vazias, cinzeiros cheios, restos de pizza no chão. O Rui dormia no sofá, roncando alto. A Inês estava no quarto, aos gritos ao telefone com alguém.
Respirei fundo e chamei-os à sala.
— Isto não pode continuar assim. Esta é a minha casa e há regras! — disse eu, tentando manter a voz firme.
O Rui levantou-se devagar e sorriu com desdém.
— Se não gostas, diz logo para irmos embora!
Olhei para a Inês à espera de apoio. Ela baixou os olhos.
— Mãe… talvez seja melhor mesmo irmos — murmurou.
Senti uma dor aguda no peito. Era isto que restava da nossa relação? Anos de sacrifícios reduzidos a um ultimato?
Naquela noite não dormi. Revirei-me na cama, recordando os aniversários da Inês, os natais em família, as tardes no parque verde do Mondego. Onde foi que errei? Fui demasiado permissiva? Ou talvez demasiado exigente?
No dia seguinte preparei-lhes um pequeno-almoço simples: pão com manteiga e café forte. Sentei-me à mesa com eles.
— Vocês têm uma semana para encontrarem outro sítio — disse eu, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. — Não aguento mais viver assim.
O Rui bufou e saiu da cozinha sem dizer palavra. A Inês ficou ali sentada, imóvel.
— Mãe… desculpa — sussurrou ela finalmente. — Eu só queria um pouco de paz.
— E eu só queria respeito — respondi.
Durante essa semana mal nos falámos. No último dia vi-os sair com duas malas velhas e um saco de plástico cheio de roupa suja. A Inês não olhou para trás.
A casa ficou silenciosa demais. Senti falta do barulho, das discussões até. Mas acima de tudo senti falta da minha filha — daquela menina doce que me chamava “mamã” quando tinha medo do escuro.
Os dias passaram lentos. Voltei à rotina: compras no mercado, missa ao domingo, chá com as vizinhas (agora mais simpáticas). Mas nada preenchia o vazio.
Uma noite recebi uma mensagem da Inês: “Mãe, desculpa por tudo. Estamos num quarto alugado em Santa Clara. Preciso de tempo para perceber quem sou sem ti ao meu lado.” Chorei baixinho na cozinha.
Agora pergunto-me: será que fiz bem? Será que o amor de mãe deve ter limites? Ou será que há momentos em que proteger-nos a nós próprias é também um ato de amor?
E vocês? Até onde iriam por um filho? Onde traçariam a linha entre ajudar e perder-se?