Sob o Regime da Minha Sogra: Viver à Sombra do Relógio
— Já são sete e meia, Leonor! O pequeno-almoço não se faz sozinho! — A voz da Dona Amélia ecoou pelo corredor, cortando o silêncio da manhã como uma navalha. Senti o coração acelerar, as mãos suadas a tremerem enquanto me apressava a sair do quarto. O Rui ainda dormia, alheio à tensão que me consumia desde que tínhamos decidido, por necessidade, vir morar com a mãe dele.
A cozinha cheirava a café forte e pão torrado. Dona Amélia estava de avental, braços cruzados, olhar fixo no relógio de parede. — Aqui em casa, cada minuto conta, Leonor. — O tom dela era sempre o mesmo: frio, calculista, como se cada palavra fosse medida ao milímetro. — Não podemos viver na desordem.
Sentei-me à mesa, tentando não mostrar o desconforto. — Bom dia, Dona Amélia. Precisa de ajuda?
Ela não respondeu. Apenas empurrou a manteiga na minha direção e suspirou alto, como se a minha presença fosse um fardo. O Rui entrou pouco depois, despenteado, e deu-me um beijo rápido na testa. — Bom dia, mãe. Bom dia, Leonor.
— Rui, já viste as horas? — Ela apontou para o relógio. — O teu pai nunca se atrasava para o trabalho. — O Rui encolheu os ombros, pegou numa fatia de pão e saiu apressado. Fiquei sozinha com ela, sentindo o peso da comparação constante com o falecido marido, o senhor António, que eu só conheci pelas histórias de disciplina e rigor.
Os dias eram todos iguais. Dona Amélia tinha horários para tudo: pequeno-almoço às sete e meia, limpeza da casa às nove, almoço ao meio-dia em ponto. Se eu me atrasava, mesmo por um minuto, ela fazia questão de me lembrar. — Não sei como era na tua casa, mas aqui não há espaço para preguiça. — O olhar dela perfurava-me, como se eu fosse uma intrusa.
Às vezes, à noite, chorava baixinho no quarto, para não acordar o Rui. Sentia-me uma estranha na minha própria vida. Tinha deixado o meu emprego em Lisboa para acompanhar o Rui quando ele perdeu o trabalho e aceitou um novo em Coimbra. A promessa era temporária, só até nos reerguermos. Mas os meses passavam e eu sentia-me cada vez mais pequena.
A minha mãe ligava-me todos os domingos. — Filha, tens de te impor. Não deixes que te apaguem. — Mas como? Como é que se impõe alguém à Dona Amélia, que parecia ter sempre razão, que fazia questão de me lembrar que aquela casa era dela, que as regras eram dela?
Uma tarde, enquanto limpava a sala, ouvi-a ao telefone com a irmã. — A Leonor não tem jeito para nada. Nem para cozinhar, nem para manter a casa. Não sei o que o Rui viu nela. — Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim, mas calei-me. Não queria criar conflitos. O Rui já tinha tanto com que se preocupar.
Mas a tensão foi crescendo. Pequenos gestos tornaram-se grandes afrontas. Um dia, esqueci-me de fechar a janela da sala e começou a chover. Dona Amélia entrou furiosa. — Vais estragar tudo! Não tens cuidado nenhum! — Gritei de volta, pela primeira vez. — Já chega! Estou farta de ser tratada como uma criança!
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O Rui chegou a casa nesse momento e encontrou-nos frente a frente, eu com lágrimas nos olhos, ela com o rosto vermelho de raiva. — O que se passa aqui?
— A tua mulher não respeita as regras da casa! — gritou ela.
— E a tua mãe não me respeita a mim! — respondi, a voz a tremer.
O Rui ficou no meio, perdido. — Por favor, não discutam. Estamos todos a tentar fazer o melhor.
Mas eu sabia que não estava a fazer o melhor para mim. Estava a desaparecer, a perder-me. Comecei a sair mais de casa, a procurar trabalho, a tentar recuperar um pouco da minha independência. Dona Amélia não gostou. — Agora já nem ajudas em casa? — perguntou, com desdém.
— Preciso de trabalhar, Dona Amélia. Preciso de sentir que sou útil, que sou alguém.
Ela riu-se, amarga. — Útil? Aqui em casa há sempre trabalho para fazer. Mas se preferes andar por aí…
O Rui tentava mediar, mas era como falar para uma parede. — Mãe, a Leonor precisa de espaço. Nós precisamos de espaço.
— Esta casa é minha! — gritou ela. — Se não gostam, podem ir embora!
As palavras dela ficaram a ecoar na minha cabeça. Podíamos mesmo ir embora? Tínhamos dinheiro para isso? O Rui hesitava, preso entre a lealdade à mãe e o amor por mim. — Dá-me só mais um tempo, Leonor. Eu vou arranjar uma solução.
Mas o tempo passava e nada mudava. A minha saúde começou a ressentir-se. Tinha insónias, dores de cabeça constantes. Um dia, desmaiei na cozinha. Acordei com o Rui ao meu lado, preocupado. — Não podes continuar assim, Leonor. Isto está a destruir-te.
— E tu? Vais continuar a deixar que a tua mãe mande em nós?
Ele ficou em silêncio. Pela primeira vez, vi nos olhos dele o medo de perder tudo: a mãe, a casa, a mim. — Eu amo-te, Leonor. Mas não sei como sair disto.
A Dona Amélia entrou no quarto, trazendo um chá. — Não quero que fiques doente, Leonor. Mas tens de perceber que aqui as coisas são como eu digo.
— E se eu não quiser? — perguntei, a voz baixa mas firme.
Ela olhou-me, surpresa. — Então não sei se esta casa é para ti.
Nesse momento, percebi que a escolha era minha. Podia continuar a viver à sombra do relógio da Dona Amélia, ou podia tentar recuperar a minha vida. Falei com o Rui nessa noite. — Ou encontramos um lugar só nosso, ou eu vou embora. Não posso continuar assim.
Ele chorou. Eu também. Mas no dia seguinte, começámos a procurar um apartamento pequeno, só para nós. Não foi fácil. Tivemos de apertar o cinto, pedir ajuda à minha família. Dona Amélia ficou ofendida, disse que estávamos a abandoná-la. — Depois não digam que não vos avisei. O mundo lá fora não é fácil.
Mas o mundo cá dentro era insuportável. Quando finalmente nos mudámos, senti um alívio imenso. A primeira noite no nosso novo lar foi silenciosa, mas pela primeira vez em muitos meses, dormi tranquila. O Rui demorou a adaptar-se. Sentia falta da mãe, do conforto da rotina. Mas aos poucos, fomos construindo a nossa própria vida, com os nossos horários, as nossas regras.
Às vezes, ainda penso na Dona Amélia, sozinha naquela casa grande, presa aos seus relógios e rotinas. Sinto pena, mas também sei que precisava de me salvar. Não foi fácil escolher-me a mim própria, mas foi necessário.
Agora pergunto-me: quantas pessoas vivem presas a regras que não são suas, com medo de desagradar, de magoar, de perder? Até onde vai o respeito pelos outros antes de se tornar falta de respeito por nós mesmos? E vocês, já sentiram que precisaram de escolher entre agradar e sobreviver?