Sessenta Anos de Solidão: O Dia em Que Percebi Que Não Sou Suficiente

— Não acredito que eles não vêm, outra vez… — murmurei para mim mesma, olhando para a mesa posta com todo o cuidado, os copos de cristal que só usava em ocasiões especiais e o bolo de amêndoa que a minha mãe me ensinou a fazer. O relógio marcava sete da noite. O silêncio da casa era tão pesado que quase conseguia ouvi-lo.

Durante semanas preparei este dia. Sessenta anos não se fazem todos os dias. Queria celebrar com a minha família, especialmente com o meu filho, o Diogo, e a minha nora, a Sofia. Desde que lhes dei o apartamento no centro de Lisboa — aquele mesmo onde cresci e onde sonhei ver os meus netos a correr pelos corredores — achei que tudo ia mudar entre nós. Achei que finalmente iam perceber o quanto os amo, o quanto me sacrifico por eles.

Mas, ao contrário do que imaginei, as coisas só pioraram. Sofia nunca escondeu que achava o apartamento pequeno demais. “Hoje em dia ninguém vive num T2, Maria. Ainda por cima sem elevador!” — disse-me ela uma vez, sem rodeios, enquanto eu tentava mostrar-lhe as janelas restauradas e o chão de madeira original. Diogo, sempre tão calado, apenas encolheu os ombros.

No início tentei não dar importância. “Eles são jovens, têm outros sonhos”, repetia para mim mesma. Mas cada vez que lhes ligava para saber se precisavam de alguma coisa, sentia aquela distância crescer. “Mãe, estamos ocupados. Depois falamos.” Ou então: “Maria, não se preocupe tanto. Somos adultos.” Fui aprendendo a aceitar as respostas curtas e as visitas cada vez mais raras.

Hoje era diferente. Hoje era o meu aniversário. Tinha esperança de que viessem, de que me abraçassem como antigamente, de que rissem comigo à mesa enquanto contávamos histórias antigas. Mas às oito da noite, quando finalmente peguei no telefone para ligar ao Diogo, ouvi apenas a voz cansada do outro lado:

— Mãe… desculpa, mas não vamos conseguir ir hoje. A Sofia está cheia de trabalho e eu também tenho umas coisas para acabar.

— Mas Diogo… preparei tudo… até fiz aquele arroz de pato que gostas tanto…

— Eu sei, mãe… mas fica para outro dia, está bem? Beijinhos.

O silêncio voltou a cair sobre mim como uma manta fria. Sentei-me à mesa sozinha e olhei para as fotografias antigas na parede: Diogo em pequeno, com as bochechas rosadas e o sorriso aberto; eu e o António no nosso casamento; a minha mãe a segurar-me ao colo. Lembrei-me de todas as vezes em que abdiquei dos meus sonhos para dar ao Diogo tudo o que podia: as noites sem dormir quando ele estava doente; os turnos extra no hospital para pagar-lhe a universidade; o orgulho que senti quando ele me disse que ia casar-se com a Sofia.

Mas agora parecia que nada disso importava. Dei-lhes uma casa — a melhor herança que podia oferecer — e mesmo assim sentia-me invisível.

Lá fora começou a chover. As gotas batiam na janela como se quisessem entrar e fazer-me companhia. Peguei numa fatia de bolo e tentei saboreá-la, mas tinha um nó na garganta. Lembrei-me da última discussão com Sofia:

— Maria, não pode continuar a aparecer lá em casa sem avisar! Temos a nossa vida!

— Eu só queria ajudar… trouxe sopa para vocês.

— Não precisamos de sopa. Precisamos de espaço.

Essas palavras ficaram gravadas na minha memória como uma ferida aberta. Desde então tentei afastar-me, dar-lhes o tal espaço de que tanto falavam. Mas hoje… hoje só queria um pouco de companhia.

O telefone tocou novamente. Era a minha irmã, Teresa.

— Parabéns, mana! Então, como está a festa?

Engoli em seco antes de responder:

— Está tudo bem… está tudo ótimo.

— O Diogo já chegou?

— Ainda não… mas deve estar a caminho.

Não tive coragem de lhe contar a verdade. Não queria preocupar ninguém. Depois da chamada, fui até à varanda e olhei para as luzes da cidade. Lisboa parecia tão viva lá fora… e eu tão morta cá dentro.

De repente ouvi vozes no prédio ao lado: risos, música alta, crianças a correr pelo corredor. Senti uma pontada de inveja daquela alegria simples. Porque é que comigo tinha de ser tudo tão difícil?

Voltei para dentro e sentei-me no sofá com uma manta sobre os ombros. Peguei numa carta antiga do António — já lá vão dez anos desde que ele partiu — e reli as palavras escritas com aquela letra apressada:

“Maria, nunca te esqueças de cuidar de ti também. O Diogo vai crescer e seguir o caminho dele. Tu mereces ser feliz.”

Na altura achei graça à preocupação dele. Agora percebo como estava certo.

A noite foi avançando devagarinho. Fui arrumando os pratos um a um, guardando o bolo no frigorífico e apagando as velas da mesa posta para três pessoas. Antes de me deitar, olhei mais uma vez para as fotografias na parede e perguntei-me onde é que tinha falhado.

Será que dei demais? Será que nunca fui suficiente? Ou será que chegou o momento de começar a pensar em mim?

Talvez seja isso que me falta: aprender a gostar de mim própria sem esperar nada em troca dos outros.

E vocês? Já sentiram que todo o vosso esforço foi em vão? O que fariam no meu lugar?