Sempre fui só a ‘tia do apartamento’. Uma história sobre como a família pode magoar mais do que ninguém.
— Maria, não percebes? A casa já devia ser minha! — gritou a minha sobrinha, Inês, com uma voz que eu mal reconhecia. Estávamos sentadas na sala do meu pequeno apartamento em Benfica, o mesmo onde vivi quase toda a minha vida, rodeada de móveis antigos e memórias que pareciam pesar toneladas naquele momento. O sol de fim de tarde entrava pela janela, mas o ambiente estava gelado.
Fiquei calada, sentindo o coração apertado. Sempre fui a tia Maria, a que nunca casou, a que ajudou a criar os sobrinhos quando a minha irmã, Helena, ficou viúva cedo demais. Fui eu que ficava com as crianças quando ela precisava de trabalhar à noite, eu que pagava livros, roupas, consultas. Nunca me importei. A família era tudo para mim. Ou pelo menos, era o que eu pensava.
— Inês, esta casa é minha. Sempre foi. — A minha voz saiu mais fraca do que queria. — Não percebo porque estás a falar assim comigo.
Ela bufou, cruzando os braços. — Porque a mãe sempre disse que, quando tu fosses para o lar, a casa ficava para mim. Eu preciso dela, tia! O João e eu não conseguimos pagar renda em Lisboa. Tu já nem sais de casa, para que é que precisas disto tudo?
Senti uma dor funda, como se cada palavra dela fosse uma facada. Lembrei-me de todas as noites em que a embalei quando tinha febre, das vezes em que lhe fiz sopa quando estava doente, dos natais em que era eu que montava a árvore porque a mãe dela estava a trabalhar. E agora, era só a “tia do apartamento”.
— Inês, eu ainda estou aqui. Não estou morta, nem incapaz. — A minha voz tremeu. — E esta casa é o que me resta. Não tens direito de falar assim comigo.
Ela levantou-se, pegou na mala e olhou para mim com uma frieza que me gelou o sangue. — Vais ver, tia. Vais acabar sozinha, agarrada a estas paredes velhas. Depois não digas que não te avisei.
A porta bateu com força. Fiquei ali sentada, a tremer, com lágrimas a escorrer-me pelo rosto. Senti-me tão pequena, tão inútil. Como é que cheguei aqui? Como é que a menina que eu ajudei a criar agora me via apenas como um obstáculo?
Os dias seguintes foram um tormento. A minha irmã ligou-me, furiosa.
— Maria, não compliques! A Inês precisa da casa. Tu já tens idade para ir para um lar, vais ser melhor tratada lá. Não sejas egoísta.
Egoísta. A palavra ecoou na minha cabeça durante dias. Eu, que sempre pus todos à frente de mim, agora era egoísta porque queria manter o meu lar, o meu refúgio, o único sítio onde me sentia segura.
Comecei a evitar atender o telefone. Os meus sobrinhos deixaram de me visitar. Os vizinhos, sempre tão simpáticos, começaram a olhar para mim de lado, como se eu fosse uma velha avarenta, agarrada a uma casa que devia ser de “gente nova”.
As noites tornaram-se longas e frias. Oiço os passos no andar de cima, o barulho dos carros na rua, mas o silêncio dentro de mim é ensurdecedor. Pergunto-me onde errei. Será que devia ter sido mais dura? Será que devia ter imposto limites há mais tempo?
Uma tarde, a campainha tocou. Era o senhor António, o administrador do prédio.
— Dona Maria, desculpe incomodar, mas a sua sobrinha veio cá perguntar sobre a documentação da casa. Disse que ia tratar da escritura.
O chão fugiu-me dos pés. Senti-me traída, invadida. Liguei imediatamente para a minha irmã, mas ela não atendeu. Liguei para a Inês, que me respondeu com desdém:
— Tia, é só uma questão de tempo. A mãe já está a tratar de tudo com o advogado. Não te preocupes, vais ficar bem.
Vais ficar bem. Como se fosse possível ficar bem quando a nossa própria família nos trata como um estorvo.
Os dias passaram. Recebi uma carta do advogado da família, a pedir para marcar uma reunião. Sentei-me à mesa da cozinha, com as mãos a tremer, a ler aquelas palavras frias, técnicas, que falavam de usufruto, de herança, de incapacidade. Senti-me como se já estivesse morta para eles.
Na reunião, o advogado olhou para mim com pena. — Dona Maria, a sua família está preocupada consigo. Acham que seria melhor para si ir para um lar, onde teria companhia e cuidados. A casa ficaria para a Inês, que está a começar vida agora.
Olhei para a minha irmã e para a minha sobrinha. Não vi amor, nem preocupação. Vi apenas impaciência, pressa, ganância. Senti uma raiva a crescer dentro de mim, uma força que não sabia que tinha.
— Não. — Disse, com firmeza. — Esta casa é minha. Enquanto eu viver, ninguém me tira daqui. Se querem que eu morra sozinha, que assim seja. Mas não vou sair pelo vosso conforto.
A Inês levantou-se, furiosa. — És uma velha egoísta! — gritou, saindo porta fora. A minha irmã ficou calada, a olhar para o chão.
Depois disso, cortaram relações comigo. Passei a ser a “tia do apartamento”, a velha que não cede, a ingrata. Os vizinhos começaram a cochichar, a olhar-me de lado. Senti-me cada vez mais isolada, mas também mais dona de mim. Pela primeira vez, impus limites. Pela primeira vez, escolhi-me a mim.
Os meses passaram. Aprendi a viver com a solidão. Descobri o prazer de ler um livro sem interrupções, de ouvir música alta, de cozinhar só para mim. Fiz amizade com a dona Rosa, do terceiro andar, que me traz bolos e conversa. Comecei a ir ao jardim, a falar com outras senhoras da minha idade. Descobri que ainda havia vida para além da família.
Um dia, recebi uma carta da Inês. Dizia que estava grávida, que precisava de ajuda, que não tinha onde ficar. Senti o coração apertado, mas também uma estranha serenidade. Respondi-lhe que podia vir visitar-me, mas que a casa era minha, e que as regras agora eram minhas. Ela nunca respondeu.
Às vezes, ainda me dói pensar que fui reduzida a um pedaço de betão e tijolo na cabeça da minha família. Mas também sei que, se não tivesse lutado, teria perdido a única coisa que era verdadeiramente minha: a minha dignidade.
Agora, sento-me à janela, vejo o sol pôr-se sobre Lisboa e pergunto-me: será que a família é mesmo o mais importante, quando é ela que mais nos magoa? Ou será que, no fim, só nos resta sermos fiéis a nós próprios?
E vocês, já sentiram que a vossa família vos traiu? O que fariam no meu lugar?