Sei que não sou perfeita, mas tu também não és o homem dos meus sonhos: A história do fim de um casamento
— Achas mesmo que isto é vida, Sofia? — perguntou o Rui, com a voz embargada, enquanto atirava as chaves para cima da mesa da cozinha. O som metálico ecoou pela casa, cortando o silêncio pesado que se instalara entre nós há meses.
Olhei para ele, sentada à mesa, com a chávena de chá já fria entre as mãos. O relógio marcava quase meia-noite. Mais um dia em que ele chegava tarde, mais um dia em que eu fingia não me importar. Mas importava-me. Importava-me tanto que sentia o peito apertado, como se faltasse o ar.
— Não sei, Rui. Sinceramente, já nem sei o que é vida — respondi, tentando manter a voz firme. Mas as palavras saíram-me trémulas, carregadas de mágoa.
Ele passou as mãos pelo cabelo, nervoso. — Isto não era o que eu queria para nós. Não era assim que imaginei a nossa vida juntos.
Sorri, mas foi um sorriso amargo. — E achas que eu queria isto? Achas que era isto que sonhava quando disse “sim” naquele altar?
O Rui desviou o olhar. Ficámos em silêncio, cada um perdido nos seus pensamentos. Lembrei-me do dia do nosso casamento, há sete anos. A igreja cheia, a minha mãe a chorar de felicidade, o meu pai orgulhoso ao meu lado. Os amigos a rir, a música, as promessas de amor eterno. E agora… agora éramos dois estranhos a partilhar uma casa fria.
A verdade é que nunca fomos perfeitos. Eu sabia disso. Mas sempre achei que o amor bastava. Que com paciência e compreensão tudo se resolvia. Mas ninguém me avisou que o amor também cansa, que também se desgasta.
— Não consigo mais — murmurou ele, quase num sussurro.
Senti uma lágrima escorrer-me pela face. Não era só ele. Eu também estava cansada. Cansada das discussões por coisas pequenas: quem não lavou a loiça, quem se esqueceu de comprar pão, quem ficou até tarde no trabalho. Cansada dos silêncios desconfortáveis à mesa do jantar, das mensagens por responder, dos olhares vazios.
A nossa filha, a Matilde, dormia no quarto ao lado. Tinha cinco anos e olhos curiosos, sempre a perguntar porque é que o pai já não brincava tanto com ela ou porque é que a mãe chorava à noite no sofá. Eu inventava desculpas: “O pai está cansado do trabalho”, “A mãe está só um bocadinho triste”. Mas ela percebia mais do que eu queria admitir.
Os meus pais diziam-me para ter paciência. “Os casamentos são assim mesmo, Sofia. Aguenta mais um pouco.” A minha sogra era mais direta: “O Rui trabalha muito para vos dar uma vida boa. Não sejas ingrata.” Eu sentia-me sufocada pelas expectativas dos outros, pelos conselhos não pedidos, pelas críticas veladas.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre dinheiro — porque ele gastava sem pensar e eu tentava controlar tudo — sentei-me na varanda e olhei para Lisboa iluminada. Senti-me tão pequena naquela imensidão de luzes e prédios. Perguntei-me onde tinha ficado aquela Sofia sonhadora, cheia de planos e esperança.
O Rui começou a chegar cada vez mais tarde a casa. Eu desconfiava de tudo: das mensagens no telemóvel, dos sorrisos trocados com colegas de trabalho, das desculpas esfarrapadas. Um dia encontrei um bilhete no bolso do casaco dele: “Obrigada pelo jantar de ontem. Foi maravilhoso.” O nome era Ana Rita.
Confrontei-o nessa noite.
— Quem é a Ana Rita?
Ele ficou pálido. — É só uma colega…
— Não mintas! — gritei, incapaz de controlar a raiva e o desespero.
Ele baixou os olhos. — Preciso de alguém que me ouça… alguém que não me julgue sempre.
As palavras dele foram como facas no meu peito. Eu também precisava disso. Precisava de alguém que me visse, que me ouvisse sem críticas ou cobranças.
A partir desse dia deixámos de fingir. Dormíamos em quartos separados. A Matilde começou a ter pesadelos à noite e eu sentia-me a pior mãe do mundo por não conseguir protegê-la daquela tristeza.
Os meus amigos afastaram-se aos poucos. Uns porque não sabiam o que dizer, outros porque achavam que eu devia “dar outra oportunidade ao Rui”. Só a minha irmã, a Mariana, ficou sempre ao meu lado.
— Não tens de ser mártir, Sofia — disse ela uma noite enquanto bebíamos vinho na sala desarrumada. — Se não és feliz, sai daí. A Matilde vai perceber um dia.
Mas sair era assustador. Como ia criar uma filha sozinha? Como ia pagar as contas? Como ia enfrentar os olhares da família e dos vizinhos? Em Portugal ainda se fala baixo sobre divórcio, como se fosse uma vergonha secreta.
O Rui começou a passar fins de semana fora “em trabalho”. Um sábado à tarde vi-o no parque com a Ana Rita e um grupo de amigos. Ele ria-se como já não ria há anos comigo. Senti inveja daquela leveza, daquela liberdade.
Nessa noite decidi falar com ele.
— Rui, isto acabou. Não quero mais esta vida para mim nem para a Matilde.
Ele não discutiu. Apenas assentiu com um olhar triste.
Os meses seguintes foram um caos: advogados, papéis para assinar, discussões sobre guarda partilhada e pensão de alimentos. A Matilde chorava sempre que ia para casa do pai e eu chorava quando ela saía pela porta.
A minha mãe deixou de falar comigo durante semanas. O meu pai evitava olhar-me nos olhos. Só a Mariana continuava a ligar todos os dias.
Comecei a trabalhar mais horas para pagar as contas e tentei reconstruir uma rotina com a Matilde: pequenos-almoços demorados ao domingo, idas ao jardim zoológico, tardes de filmes no sofá. Aos poucos fui reaprendendo a viver sozinha e a gostar da minha própria companhia.
Um dia encontrei o Rui na rua com a Ana Rita e percebi que ele estava feliz. Senti uma pontada de tristeza mas também alívio por já não ser eu aquela mulher ao lado dele.
Hoje olho para trás e vejo tudo com outros olhos. Sei que não fui perfeita — fui ciumenta, controladora, insegura muitas vezes — mas também sei que ele nunca foi o homem dos meus sonhos depois das primeiras ilusões caírem por terra.
Pergunto-me muitas vezes: será que fiz bem? Será que algum dia vamos conseguir perdoar-nos um ao outro? E vocês… já sentiram este vazio depois do fim de um sonho?