Se amanhã não houver dinheiro, acabou – A história de Inês
— Inês, não dá mais. Ou arranjas o dinheiro até amanhã, ou acabou. — A voz do Miguel ecoou pela cozinha, fria como nunca antes.
Fiquei ali, parada, com a chávena de chá a tremer nas mãos. O vapor subia, mas o calor já não me chegava ao peito. Olhei para ele, à espera de um sorriso, de um gesto que desmentisse aquelas palavras. Mas os olhos dele estavam duros, fixos no chão.
— Miguel, não podes estar a falar a sério… — sussurrei, quase sem voz.
Ele levantou-se da cadeira, afastando-a com um estrondo. — Estou farto, Inês! Sempre a mesma conversa: “Vamos dar a volta”, “Vai correr tudo bem”… Mas nunca muda nada! Preciso desse dinheiro para pagar as dívidas do meu pai. Se não consegues ajudar-me, então não faz sentido continuarmos.
O silêncio caiu pesado entre nós. O relógio da parede marcava dez e meia da noite. Lá fora, Lisboa dormia, mas dentro de mim tudo estava em guerra.
Desde que o pai do Miguel se meteu em negócios duvidosos, a nossa vida virou um caos. Ele perdeu o emprego há meses e eu, com o meu salário de rececionista numa clínica veterinária, mal conseguia pagar as contas da casa. A minha mãe dizia sempre: “Filha, amor não enche barriga”. Eu achava que ela exagerava. Agora já não tinha tanta certeza.
Naquela noite não dormi. Fiquei a olhar para o teto do quarto, a ouvir a respiração pesada do Miguel ao meu lado. Lembrei-me de quando nos conhecemos na faculdade, das promessas que fizemos junto ao Tejo, das noites em que sonhámos com uma vida simples mas feliz.
De manhã, ele saiu sem me dizer nada. Fiquei sozinha com os meus pensamentos e uma ansiedade que me corroía por dentro. Liguei à minha irmã, Sofia.
— Inês? Estás bem? — perguntou ela, assim que atendeu.
— Preciso de falar contigo… — respondi, a voz embargada.
Conto-lhe tudo. Ela suspira do outro lado da linha.
— Ele não pode pôr-te nesta posição! — diz ela, indignada. — Isso não é amor, Inês. É chantagem.
— Mas ele está desesperado… E eu também. Não quero perdê-lo.
— E tu? Não estás desesperada? Não te estás a perder a ti própria?
As palavras dela ficaram a ecoar-me na cabeça enquanto ia trabalhar. No caminho para a clínica, olhei para as pessoas no metro: cada uma com os seus problemas, as suas dores escondidas atrás de rostos cansados.
No trabalho, tentei concentrar-me nos animais e nos clientes. Mas tudo me parecia distante. A dona Rosa trouxe o seu cãozinho para uma vacina e perguntou-me se estava tudo bem.
— Está sim… só um pouco cansada — menti.
Ao almoço, sentei-me sozinha no jardim em frente à clínica. Peguei no telemóvel e abri o chat com o Miguel. Escrevi: “Podemos falar logo à noite?” Apaguei antes de enviar.
Pensei em pedir dinheiro emprestado à minha mãe. Mas ela já me ajudou tantas vezes… E sei que não tem muito para dar. O meu pai morreu há dois anos e desde então ela vive só com a reforma.
À tarde, recebi uma mensagem do Miguel: “Já arranjaste o dinheiro?”
Senti um nó no estômago. Respondi apenas: “Ainda não.”
Ele não respondeu mais.
Quando cheguei a casa, encontrei-o sentado no sofá, de braços cruzados.
— Então? — perguntou ele sem sequer olhar para mim.
— Não tenho como arranjar esse dinheiro até amanhã, Miguel… Já pensei em tudo. Não posso pedir à minha mãe nem à Sofia. Não tenho mais ninguém.
Ele levantou-se de repente e começou a andar de um lado para o outro.
— Sabes o que isto significa? — disse ele, com os olhos vermelhos de raiva ou talvez de tristeza.
— Sei… — sussurrei.
— Eu amo-te, Inês… Mas preciso de alguém ao meu lado que esteja disposto a lutar comigo! — gritou ele.
— Eu lutei! Tenho lutado todos os dias! Mas há coisas que não posso fazer…
Ele pegou na mala e saiu porta fora sem olhar para trás.
Sentei-me no chão da sala e chorei como há muito tempo não chorava. Chorei por mim, por ele, pelo sonho que tínhamos construído juntos e que agora se desmoronava como um castelo de cartas.
Nos dias seguintes, tentei seguir em frente. O Miguel não voltou a ligar. A minha mãe veio visitar-me e trouxe-me sopa e bolinhos de bacalhau.
— Filha, às vezes é preciso perder para perceber o nosso valor — disse ela enquanto me acariciava o cabelo.
Aos poucos fui recuperando a força. Voltei a sair com amigas antigas, inscrevi-me num curso de fotografia ao fim de semana e comecei a sentir-me mais leve.
Um mês depois, encontrei o Miguel na rua Augusta. Estava magro e parecia mais velho.
— Olá… — disse ele, hesitante.
— Olá — respondi eu, tentando sorrir.
Ficámos ali parados uns segundos intermináveis.
— Desculpa por tudo — murmurou ele finalmente. — Fui injusto contigo.
— Eu também errei… Talvez tenhamos querido salvar-nos um ao outro quando devíamos ter aprendido primeiro a salvar-nos a nós próprios.
Ele assentiu e afastou-se devagar entre a multidão.
Fiquei ali parada a ver as pessoas passarem, cada uma com as suas histórias invisíveis.
Agora pergunto-me: quantas vezes sacrificamos quem somos por quem amamos? E será que vale mesmo a pena perder-nos assim? O que fariam vocês no meu lugar?