Sangue não é tudo: A história de uma traição entre irmãs e o desmoronar de uma família portuguesa
— Não me olhes assim, Leonor. Eu também tenho direito! — gritou a minha irmã, Inês, com os olhos vermelhos de raiva e lágrimas. O eco da sua voz ainda ressoava nas paredes frias da sala, onde o cheiro do café frio e das flores murchas do velório da nossa mãe se misturavam num aroma agridoce de fim.
Eu queria responder, mas as palavras ficaram presas na garganta. O testamento estava ali, aberto em cima da mesa, como uma ferida exposta. A casa onde crescemos, onde brincámos no quintal e ouvimos as histórias da avó à lareira, agora era motivo de discórdia. Nunca pensei que o luto pudesse ser tão feio, tão sujo.
— Achas justo? — insistiu ela, aproximando-se. — Foste tu que ficaste sempre com a mãe nos últimos anos, mas eu também sou filha! Não vou sair daqui de mãos a abanar!
Lembrei-me de quando éramos pequenas e partilhávamos o quarto. Inês era sempre a mais rebelde, a que fazia birra por tudo e por nada. Eu era a que cedia, a que tentava manter a paz. Mas agora, já não havia paz possível.
O advogado da família, o senhor Álvaro, pigarreou, desconfortável. — Meninas, por favor… Isto não é altura para discussões. A vossa mãe deixou instruções claras…
— Instruções claras? — interrompeu Inês, rindo-se amargamente. — Claras para quem? Para ti, Leonor! Sempre foste a preferida!
Senti o sangue ferver-me nas veias. — Não digas disparates! Sabes bem que a mãe só queria o melhor para nós as duas. Se ela deixou a casa para mim foi porque sabia que tu nunca quiseste ficar em Lisboa!
Ela atirou com uma cadeira ao chão. — Agora já quero! Preciso de um sítio para viver! Achas que vou continuar no Porto a trabalhar num call center para sempre?
O silêncio caiu pesado. O senhor Álvaro fechou o testamento com um suspiro e saiu discretamente. Ficámos só nós as duas, frente a frente, como duas estranhas.
Naquela noite não dormi. Ouvia os passos de Inês no corredor, sentia o rancor dela como uma sombra atrás da porta do meu quarto. Lembrei-me do último Natal com a mãe: as duas à mesa, Inês ausente porque tinha ido viajar com um namorado qualquer. A mãe olhou-me com tristeza: “A tua irmã tem um coração inquieto.”
No dia seguinte, Inês já tinha falado com um advogado dela. Chegaram cartas formais, ameaças de tribunal. O nosso primo Miguel tentou intervir: — Vocês vão mesmo deixar isto destruir-vos? A tia Rosa não ia querer isto…
Mas era tarde demais. Cada conversa era uma batalha. Os vizinhos começaram a cochichar: “As filhas da dona Rosa andam à guerra por causa da casa…” Senti vergonha de sair à rua.
O processo arrastou-se durante meses. O tribunal pediu avaliações à casa, papéis antigos, contas por acertar. Eu ia todos os dias ao trabalho com um nó no estômago e voltava para casa vazia, onde cada canto me lembrava da infância — e do que estava a perder.
Numa das audiências, Inês olhou-me nos olhos pela primeira vez em semanas.
— Porque é que nunca me perdoaste? — sussurrou ela.
Fiquei sem resposta. Talvez nunca lhe tivesse perdoado ter ido embora quando a mãe ficou doente. Talvez nunca me tivesse perdoado a mim própria por ter ficado.
O juiz decidiu: metade para cada uma. Mas Inês queria vender; eu queria ficar. Discutimos até à exaustão.
— Se venderes, nunca mais falo contigo — disse-lhe num acesso de raiva.
Ela encolheu os ombros. — Já quase não falamos mesmo.
Assinámos os papéis num cartório frio e impessoal. No dia em que entreguei as chaves ao novo dono, chorei como nunca tinha chorado antes.
A família partiu-se ali mesmo: os tios tomaram partidos, os primos afastaram-se. O Natal seguinte foi passado sozinha num apartamento alugado em Benfica, com um bacalhau congelado e silêncio na televisão.
Recebi uma mensagem da Inês meses depois: “Desculpa.” Não respondi.
Hoje olho para trás e pergunto-me: valeu a pena lutar tanto por paredes e memórias? Ou teria sido melhor ceder e tentar salvar o pouco que restava da nossa ligação?
Às vezes pergunto-me se algum dia conseguiremos perdoar-nos uma à outra… ou se certas feridas familiares nunca saram realmente. E vocês? Já passaram por algo assim? O que fariam no meu lugar?