Roubaram-me o Futuro dos Meus Filhos: A História de Sofia de Braga

— O que é isto? — perguntei, a voz a tremer, ao ver a minha sogra, Dona Teresa, e a minha cunhada, Mariana, sentadas no sofá da sala, rodeadas de malas e sacos. O cheiro do jantar ainda pairava no ar, mas o ambiente estava gelado. O meu marido, Luís, evitava o meu olhar.

— Sofia, a mãe e a Mariana vão ficar cá uns tempos — disse ele, sem convicção, como se já soubesse que eu não ia aceitar aquilo facilmente.

— Uns tempos? Luís, isto é um T2! Onde é que vamos pôr as crianças? — O meu coração batia tão forte que mal conseguia ouvir as respostas. O João e a Leonor, os nossos filhos pequenos, brincavam no quarto sem perceberem o que estava prestes a acontecer às suas vidas.

Dona Teresa levantou-se devagar, ajeitando o xaile nos ombros. — Sofia, não temos para onde ir. O teu sogro foi-se embora com outra e deixou-nos sem nada. O Luís é nosso filho, tem obrigação de nos ajudar.

Olhei para Mariana, que desviou o olhar. Sempre foi mimada, sempre teve tudo o que quis. Agora vinha para minha casa exigir espaço e atenção. Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.

— E eu? E os meus filhos? Não contam? — perguntei, já com lágrimas nos olhos.

O Luís suspirou. — Sofia, é só até arranjarmos uma solução. Não compliques.

A partir desse dia, a minha casa deixou de ser minha. Dona Teresa ocupou o nosso quarto e eu fui dormir com as crianças no quarto deles. Mariana espalhou as roupas pela casa de banho e pela sala. As discussões começaram logo na primeira semana.

— O João não pode deixar os brinquedos espalhados pela sala! — ralhava Dona Teresa. — Isto não é um infantário!

— Mariana precisa de silêncio para estudar! — dizia Luís, sempre a defender a irmã.

Eu sentia-me cada vez mais invisível. Trabalhava horas extra no hospital para pagar as contas enquanto eles ficavam em casa. Quando chegava, encontrava tudo desarrumado e os meus filhos tristes.

Uma noite, ouvi a Leonor a chorar baixinho. Sentei-me ao lado dela na cama.

— Mamã, porque é que a avó está sempre zangada connosco?

Abracei-a com força. — Não te preocupes, meu amor. Vai ficar tudo bem.

Mas não ficou. Mariana começou a trazer amigos para casa e faziam festas até tarde. O João deixou de dormir bem e começou a ter más notas na escola. Falei com o Luís várias vezes.

— Isto não pode continuar! Os nossos filhos estão a sofrer!

Ele encolheu os ombros. — A minha mãe não tem culpa do que aconteceu. Tens de ser compreensiva.

Senti-me traída. Não era só uma questão de espaço; era uma questão de respeito. A minha família estava a desmoronar-se diante dos meus olhos e ninguém parecia importar-se.

Um dia cheguei mais cedo do trabalho e apanhei Mariana a mexer nas minhas coisas.

— O que estás a fazer no meu quarto?

Ela sorriu com desdém. — Só vim buscar um casaco emprestado. Precisas mesmo de ser tão dramática?

Fui ter com Dona Teresa na cozinha.

— Isto não pode continuar! Quero a minha casa de volta!

Ela olhou-me friamente. — Se não estás satisfeita, podes sempre sair tu.

Fiquei sem palavras. Sair da minha própria casa? Como era possível? Quando confrontei o Luís, ele limitou-se a dizer:

— Talvez seja melhor mesmo pensares nisso.

Nessa noite chorei até adormecer. Os meus filhos dormiam agarrados a mim como se sentissem que algo terrível estava prestes a acontecer.

As semanas passaram e as coisas só pioraram. Um dia cheguei do trabalho e encontrei a Leonor sentada nas escadas do prédio, sozinha e a chorar.

— O que aconteceu?

— A avó disse que estávamos a fazer muito barulho e mandou-nos sair do quarto…

Senti uma fúria incontrolável. Entrei em casa determinada a pôr um ponto final naquela situação.

— Basta! Ou elas saem ou saio eu com os miúdos!

O Luís olhou-me nos olhos pela primeira vez em semanas.

— Faz como quiseres.

No dia seguinte arrumei algumas roupas numa mala velha e levei os meus filhos para casa da minha mãe. Senti-me derrotada, mas sabia que não podia continuar ali.

Os meses seguintes foram um inferno burocrático: divórcio, partilha de bens, discussões intermináveis sobre guarda dos filhos. O Luís tentou convencer-me a voltar atrás várias vezes, mas eu já não confiava nele.

A Dona Teresa espalhou boatos pela família: que eu era ingrata, que tinha abandonado o filho dela quando ele mais precisava. Alguns primos deixaram de me falar; outros olhavam-me com pena nos jantares de família.

A Mariana arranjou emprego numa loja de roupa e saiu pouco depois da casa onde tudo começou. Dona Teresa acabou por ir viver com uma tia distante em Guimarães. O Luís ficou sozinho no apartamento vazio.

Eu reconstruí a minha vida devagarinho. Arranjei um part-time extra para conseguir pagar uma renda modesta num T1 perto da escola das crianças. Não foi fácil: houve noites em que chorei sozinha na cozinha enquanto os miúdos dormiam; dias em que pensei em desistir de tudo.

Mas vi os meus filhos voltarem a sorrir. Vi o João recuperar as notas e a Leonor fazer novas amigas. E percebi que tinha feito o certo.

Hoje olho para trás e ainda sinto mágoa pelo que perdi: o lar onde sonhei criar uma família unida; o marido em quem confiei; os anos desperdiçados à espera de reconhecimento daqueles que nunca me aceitaram verdadeiramente.

Mas também sinto orgulho por não ter desistido dos meus filhos nem de mim própria.

Às vezes pergunto-me: quantas mulheres passam pelo mesmo sem terem coragem de sair? Quantas famílias se destroem porque ninguém tem força para dizer basta? Se pudesse voltar atrás, teria feito diferente? Talvez não… Porque foi nesta dor que descobri quem realmente sou.