Regresso a uma Casa Vazia: Como a Ganância do Meu Genro Despedaçou a Minha Família

— Não me venhas agora com moralismos, Leonor! — gritou o Ricardo, o meu genro, enquanto batia com força na mesa da sala. O som ecoou pela casa, vazia de risos e cheia de silêncios pesados. Eu estava ali, de pé, com as mãos trémulas, tentando perceber em que momento a minha família se tinha tornado isto: um campo de batalha.

Vinte anos. Vinte anos a trabalhar em França, a limpar casas de outros, a juntar cada cêntimo para enviar para Portugal. O sonho era simples: regressar, reformar a casa dos meus pais em Vila Real e viver rodeada dos meus. Mas quando finalmente atravessei a velha porta de madeira, o cheiro a mofo misturava-se com algo mais difícil de suportar — o cheiro da indiferença.

A minha filha, Mariana, recebeu-me com um abraço apressado. Os olhos dela fugiam dos meus. — Mãe, desculpa… as coisas aqui mudaram muito — murmurou. Eu não quis acreditar. Tinha saudades do riso dela, das conversas longas à volta da mesa. Mas agora havia sempre pressa, sempre um telemóvel na mão, sempre um olhar desconfiado.

Na primeira noite, sentei-me sozinha na varanda. Ouvia ao longe o riso das crianças dos vizinhos e perguntava-me onde tinha falhado. O Ricardo nunca gostou de mim — isso era claro desde o início. Sempre achei que era por ciúmes da ligação que tinha com a Mariana. Mas agora percebia que era mais fundo: ele via-me como um obstáculo.

No dia seguinte, durante o pequeno-almoço, tentei puxar conversa:
— Então, Ricardo, como vai o trabalho?
Ele nem levantou os olhos do jornal.
— Vai-se andando. Mas isto aqui não é França, Leonor. Aqui não há dinheiro fácil.
A Mariana olhou-me de lado, como quem pede para não insistir.

Foi nesse dia que percebi que algo estava errado com a casa. Os móveis antigos tinham desaparecido; no lugar deles estavam peças modernas, frias. A minha mãe teria chorado se visse aquilo. Fui à arrecadação procurar as fotografias antigas e encontrei apenas caixas vazias.

À noite, ouvi-os a discutir na cozinha:
— Ela não pode ficar aqui para sempre! — dizia o Ricardo.
— É a minha mãe! Não vais pô-la na rua!
— E quem vai pagar as contas? Achas que ela vai viver aqui à nossa custa?

O meu coração apertou-se. No dia seguinte, tentei falar com a Mariana:
— Filha, se eu sou um peso…
Ela interrompeu-me:
— Mãe, não digas isso! Só… só está tudo muito complicado.

Os dias passaram lentos. O Ricardo começou a evitar-me. Um dia chegou a casa com papéis na mão.
— Leonor, precisamos de falar sobre a casa. Isto está tudo em teu nome, mas nós é que temos vivido aqui e pago tudo. Acho justo pensarmos numa solução.
Eu olhei para ele, incrédula.
— Queres que eu te passe a casa?
Ele encolheu os ombros.
— Ou pelo menos metade. Assim todos ficamos protegidos.

A Mariana chorava todas as noites. O meu neto, Tomás, já nem vinha ao meu colo. Senti-me estrangeira na minha própria casa.

Uma tarde, fui ao café da vila tentar encontrar algum conforto nas caras conhecidas. A dona Rosa puxou-me para o lado:
— Ouvi dizer que o teu genro anda a falar com o advogado do senhorio da quinta ao lado… Dizem que quer vender parte do terreno.
O chão fugiu-me dos pés. Corri para casa e confrontei o Ricardo:
— Estás a tentar vender o terreno dos meus pais?!
Ele não negou.
— Isto é um desperdício! Tu nem cá estavas! Nós precisamos desse dinheiro para acabar as obras e dar uma vida melhor ao Tomás!

A discussão subiu de tom. A Mariana tentou acalmar-nos, mas eu já não conseguia ouvir mais justificações. Saí porta fora e caminhei até ao cemitério onde os meus pais estavam enterrados. Sentei-me junto à campa e chorei como uma criança.

Lembrei-me das cartas que escrevia à Mariana quando ela era pequena. Prometia-lhe sempre que um dia íamos ser felizes ali, naquela casa cheia de memórias e cheiro a pão quente. Agora tudo parecia perdido.

Os dias seguintes foram um tormento. O Ricardo pressionava-me todos os dias para assinar os papéis da partilha da casa e do terreno. A Mariana estava cada vez mais distante; via-se que estava dividida entre mim e ele.

Uma noite ouvi-os a discutir:
— Se ela não assinar, eu vou embora! — gritava o Ricardo.
— Não faças isso ao Tomás! — suplicava a Mariana.

No dia seguinte, sentei-me com ela na varanda:
— Filha… se precisares mesmo desse dinheiro… eu assino. Mas quero que saibas que isto vai destruir tudo o que os teus avós construíram.
Ela chorou baixinho:
— Mãe… eu só queria que estivéssemos todos juntos outra vez…

Assinei os papéis com as mãos trémulas. O Ricardo sorriu pela primeira vez desde que cheguei. No dia seguinte já havia homens no terreno a medir e marcar limites.

A casa ficou ainda mais fria depois disso. O Tomás passou a passar os fins-de-semana com o pai em Lisboa; a Mariana fechou-se no quarto durante dias inteiros. Eu passava horas sentada na cozinha vazia, olhando para as paredes nuas onde antes havia fotografias de família.

Um dia recebi uma carta do banco: parte do dinheiro da venda tinha sido transferido para uma conta em nome do Ricardo. A Mariana não sabia de nada.

Confrontei-o:
— Traíste-nos a todas! Usaste-me para conseguires dinheiro!
Ele encolheu os ombros:
— Cada um faz pela sua vida, Leonor. Aqui ninguém te deve nada.

A Mariana saiu de casa nessa noite com o Tomás nos braços. Foi viver para um apartamento pequeno no centro da vila. Eu fiquei sozinha na casa grande e vazia.

Passei semanas sem conseguir dormir. Os vizinhos evitavam olhar-me nos olhos; toda a vila sabia do escândalo. Um dia recebi uma chamada da Mariana:
— Mãe… desculpa por tudo. Não devia ter deixado isto acontecer.
Eu chorei ao telefone:
— Filha… ainda vamos conseguir reconstruir alguma coisa?

Hoje vivo sozinha naquela casa enorme onde cada canto me lembra o passado e cada silêncio pesa mais do que qualquer solidão em França alguma vez pesou. Pergunto-me todos os dias: onde foi que errámos? Será possível perdoar quando o dinheiro fala mais alto do que o sangue?

E vocês? O que fariam no meu lugar? Até onde iriam por amor à família?