Regresso a uma Casa de Mentiras: Entre o Amor e a Traição
— O que estás a fazer aqui, mãe? — perguntei, a voz a tremer, enquanto a chave ainda rodava na fechadura. Não era suposto ninguém estar em casa àquela hora. O cheiro a café fresco misturava-se com um perfume estranho, doce demais para ser o dela. O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer resposta.
A minha mãe apareceu à porta da cozinha, o rosto pálido, os olhos vermelhos. — Filha, não devias ter vindo agora… — murmurou, tentando esconder algo atrás das costas. O meu coração disparou. Senti o chão fugir-me dos pés. — O que se passa? — insisti, a voz mais alta, quase a gritar. Foi então que o meu pai saiu do quarto, a camisa desapertada, o cabelo em desalinho. Atrás dele, uma mulher que eu nunca tinha visto, a ajeitar o vestido apressadamente.
O tempo parou. Oiço ainda hoje o eco da minha própria respiração, ofegante, e o som abafado das lágrimas da minha mãe. — Isto não é o que parece — disse o meu pai, mas a frase soou vazia, ridícula. — Não é o que parece? — repeti, a raiva a crescer dentro de mim, como um incêndio. — Então explica-me, pai! Explica-me o que é isto!
A mulher desconhecida saiu apressada, sem me olhar nos olhos. A minha mãe caiu numa cadeira, as mãos a tremer. — Eu sabia… — sussurrou ela, quase para si própria. — Eu sempre soube, mas nunca quis acreditar. — O meu pai tentou aproximar-se, mas recuei, como se o simples toque dele me queimasse.
— Filha, ouve-me… — começou ele, mas não consegui. Saí porta fora, o vento frio a cortar-me a pele, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. Caminhei sem destino pelas ruas de Lisboa, perdida entre turistas e buzinas, sentindo-me invisível e, ao mesmo tempo, exposta ao mundo inteiro.
Durante dias, evitei casa. Dormi em casa da minha amiga Inês, que me abraçou sem fazer perguntas. — Não tens de falar, Leonor. Só fica — disse ela, e foi o que fiz. Mas as perguntas não me largavam. Como é que não vi os sinais? Como é que a minha mãe aguentou tanto tempo? E, acima de tudo, como é que o meu pai foi capaz?
A minha família sempre foi o meu porto seguro. Cresci a acreditar que, apesar das discussões, do dinheiro que faltava, das dificuldades, éramos unidos. Agora, tudo parecia uma mentira. A minha mãe ligava-me todos os dias, mas eu não atendia. O meu pai mandava mensagens, desculpas vazias, promessas de que ia mudar. Mas eu não queria ouvir.
Na escola, os colegas notaram a minha ausência. A professora de História chamou-me ao corredor. — Leonor, está tudo bem em casa? — perguntou, com aquela voz suave que só os professores mais velhos têm. Hesitei, mas acabei por contar-lhe tudo. Ela ouviu-me em silêncio, depois pousou a mão no meu ombro. — Às vezes, as pessoas que mais amamos magoam-nos sem querer. Mas tu não tens culpa de nada, ouviste?
Essas palavras ficaram comigo. Não tenho culpa. Mas sentia-me culpada. Culpada por não ter visto, por não ter protegido a minha mãe, por não conseguir perdoar o meu pai. Culpada por querer fugir de tudo.
Uma noite, a Inês encontrou-me a chorar na varanda. — Tens de voltar a casa, Leonor. Não podes fugir para sempre. — Eu sabia que ela tinha razão. Mas como enfrentar aquela casa cheia de memórias, agora manchadas pela traição?
No domingo seguinte, decidi voltar. O caminho até ao prédio pareceu-me mais longo do que nunca. Subi as escadas devagar, cada degrau um peso no peito. Quando abri a porta, encontrei a minha mãe sentada no sofá, a olhar para uma fotografia antiga: nós os três, sorridentes, na praia da Nazaré.
— Mãe… — sussurrei. Ela levantou-se e abraçou-me com força. Chorámos juntas, sem palavras. — Desculpa, filha. Desculpa por tudo. — Eu não sabia o que responder. Não era ela que devia pedir desculpa.
O meu pai apareceu à porta da sala, hesitante. — Leonor, precisamos de falar. — Sentei-me, o coração aos saltos. — Eu errei. Não há desculpa para o que fiz. Mas amo-te, filha. Amo-te mais do que tudo. — As palavras dele soaram sinceras, mas eu já não sabia se podia acreditar.
— Porque é que o fizeste? — perguntei, a voz a tremer. Ele olhou para o chão. — Não sei. Senti-me perdido, sozinho… Mas isso não justifica nada. — A minha mãe virou-lhe as costas, os olhos frios. — Perdido? E eu? E a Leonor? Não estivemos sempre aqui?
O silêncio caiu sobre nós, pesado como chumbo. — Eu vou sair de casa — disse o meu pai, finalmente. — Preciso de tempo para pensar, para vos dar espaço. — A minha mãe assentiu, sem o olhar nos olhos. — Faz o que quiseres. Já não me importo.
Os dias seguintes foram estranhos. A casa parecia vazia, mesmo com a minha mãe lá. Ela passava horas a olhar para o nada, a mexer em papéis antigos, a limpar gavetas como se quisesse apagar todos os vestígios do meu pai. Eu tentava concentrar-me nos estudos, mas a cabeça estava sempre longe.
Uma tarde, ouvi a minha mãe ao telefone, a discutir com a avó Rosa. — Não, mãe, não vou perdoar o António assim tão facilmente! — gritava ela. — Ele destruiu a nossa família! — Do outro lado, a avó tentava acalmar, mas a minha mãe desligou abruptamente. — Sempre a mesma coisa, sempre a proteger os homens desta família — murmurou, furiosa.
Comecei a perceber que a traição do meu pai não era só dele. Era uma ferida antiga, que vinha de outras gerações. A minha avó também tinha sido traída, mas calou-se, fingiu que nada se passava. A minha mãe recusava-se a fazer o mesmo.
Certa noite, sentei-me ao lado dela na cama. — Mãe, vamos ficar bem? — perguntei, baixinho. Ela sorriu, triste. — Não sei, filha. Mas vamos tentar. — Abraçámo-nos, e pela primeira vez senti que, apesar de tudo, ainda éramos uma família.
O meu pai ligava-me todos os dias, mas eu raramente atendia. Quando o fazia, as conversas eram curtas, cheias de silêncios. — Desculpa, Leonor. Amo-te muito. — Eu queria acreditar, mas não conseguia esquecer o que vi.
Na escola, as coisas também mudaram. Alguns colegas começaram a cochichar, a inventar histórias. — Ouvi dizer que o pai da Leonor fugiu com outra — dizia a Mariana, sempre pronta para o drama. Senti-me exposta, envergonhada. Mas a Inês estava sempre lá, a defender-me. — Cala-te, Mariana. Não sabes nada da vida dela.
Os meses passaram. A minha mãe arranjou um emprego novo, começou a sair mais, a sorrir de vez em quando. Eu fui-me habituando à ausência do meu pai, embora a dor nunca desaparecesse completamente. Um dia, ele apareceu à porta, com um ar cansado, envelhecido. — Posso entrar? — perguntou. Hesitei, mas deixei-o passar.
Sentámo-nos à mesa da cozinha, como tantas vezes antes. — Leonor, queria pedir-te perdão. Sei que não mereço, mas precisava de te dizer isto. — Olhei-o nos olhos, procurando o pai que conheci. — Não sei se consigo perdoar-te, pai. Mas vou tentar. — Ele sorriu, emocionado. — Já é muito para mim.
A vida foi-se recompondo, devagar. A minha mãe e o meu pai continuaram separados, mas falavam de vez em quando, por minha causa. Eu aprendi a viver com a dor, a aceitar que as pessoas erram, mesmo as que mais amamos.
Hoje, olho para trás e vejo uma Leonor diferente. Mais forte, mais madura. Sei que nunca vou esquecer o que aconteceu, mas também sei que não sou definida pelas escolhas dos outros. A esperança nasceu entre os escombros, e aprendi a reconstruir-me, pedra a pedra.
Às vezes pergunto-me: quantas famílias vivem presas em mentiras, com medo de enfrentar a verdade? E será que algum dia conseguimos realmente perdoar quem nos magoou? O que acham vocês?