Regresso a Casa Vazia: Como a Ganância do Meu Cunhado Despedaçou a Minha Família
— Não podes simplesmente aparecer aqui e achar que tudo te pertence, Leonor! — A voz do meu cunhado, Rui, ecoou pela sala, cortando o silêncio pesado que pairava desde que cheguei.
Olhei para ele, sentindo o coração a bater tão forte que quase me sufocava. A minha irmã, Teresa, estava sentada no sofá, os olhos baixos, as mãos crispadas no colo. O cheiro a café frio misturava-se com o odor a madeira húmida da casa dos nossos pais. Era suposto ser um regresso feliz, depois de vinte anos a viver em França. Mas ali, naquele instante, percebi que o tempo não cura todas as feridas — às vezes só as esconde.
— Não vim aqui para reclamar nada — respondi, tentando manter a voz firme. — Só queria ver a casa, sentir que ainda tenho família.
Rui bufou, levantando-se de repente. — Família? Agora lembras-te de nós? Quando o pai morreu, nem vieste ao funeral. Quando a mãe adoeceu, foste tu que cuidaste dela? Não! Foste viver a tua vida lá fora e deixaste tudo para trás.
As palavras dele eram facas. Eu sabia que tinha falhado. Mas também sabia o que me levou a partir: a aldeia pequena demais para os meus sonhos, o peso das expectativas, o medo de nunca ser mais do que “a filha mais nova do senhor António”. Em França, lavei escadas, servi cafés, criei os meus filhos sozinha depois do divórcio. Mandei dinheiro sempre que pude. Mas nunca foi suficiente para apagar a distância.
Teresa levantou finalmente os olhos para mim. Havia neles uma tristeza antiga, misturada com algo que não consegui decifrar. — Leonor… O Rui só está preocupado. A casa precisa de obras e nós… bem, não temos como pagar tudo sozinhos.
— E achas justo vender tudo? — perguntei, sentindo a voz tremer. — Deitar abaixo o que os nossos pais construíram?
Rui interrompeu-me com um gesto brusco. — Não vamos discutir isto outra vez. Já está decidido: vamos vender o terreno ao senhor Américo. Ele oferece bom dinheiro e nós precisamos.
— “Nós”? Ou tu? — O silêncio caiu como uma pedra. Teresa mordeu o lábio inferior, evitando o meu olhar.
A verdade era óbvia: Rui queria o dinheiro para investir no negócio dele — uma oficina que nunca deu lucro. Teresa sempre foi submissa, sempre cedeu para evitar conflitos. Eu era a estranha agora, a intrusa que vinha perturbar o equilíbrio frágil da família.
Naquela noite, deitei-me na cama dos meus pais. O colchão afundava-se sob o meu peso; as molas rangiam como se protestassem contra a minha presença. Olhei para o teto e deixei as lágrimas correrem em silêncio. Lembrei-me dos domingos em que a mãe fazia arroz-doce e o pai contava histórias junto à lareira. Onde é que tudo se perdeu?
No dia seguinte, fui ao café da aldeia. Os olhares seguiram-me quando entrei — alguns curiosos, outros desconfiados. Dona Emília serviu-me um galão e um bolo de arroz.
— Então voltou de França? — perguntou ela, limpando as mãos ao avental.
Assenti. — Por pouco tempo… talvez.
Ela inclinou-se sobre o balcão. — Sabe como é… As famílias mudam quando há dinheiro à mistura. O seu cunhado anda a dizer por aí que vai abrir uma oficina nova na cidade.
O rumor já corria antes mesmo de eu chegar. Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Não era só pelo dinheiro — era pela traição silenciosa da minha irmã, pela forma como todos pareciam aceitar que eu não tinha direito a nada.
À noite, tentei falar com Teresa sozinha. Esperei até Rui sair para ir ao café jogar cartas.
— Teresa… Por favor, fala comigo. Somos irmãs! Não podemos resolver isto sem gritos?
Ela olhou-me finalmente nos olhos. Vi ali uma fadiga profunda.
— Eu não sei o que fazer, Leonor. O Rui diz que precisamos do dinheiro… E eu… eu tenho medo de ficar sozinha se ele se for embora.
Abracei-a com força. Senti-a tremer nos meus braços como uma criança assustada.
— Não estás sozinha — sussurrei-lhe. — Eu estou aqui agora.
Mas será que estava mesmo? Ou era tarde demais para recuperar o tempo perdido?
Os dias seguintes foram um desfile de reuniões com advogados e conversas tensas com vizinhos e familiares distantes. O testamento dos meus pais era claro: metade para cada filha. Mas Rui pressionava Teresa para assinar uma procuração que lhe dava plenos poderes sobre tudo.
Uma tarde, encontrei-me com o senhor Américo à porta da casa.
— Então, menina Leonor… Já decidiu se aceita a proposta?
Olhei para ele — um homem gordo, sorriso fácil mas olhos frios como granito.
— Ainda não decidi nada — respondi secamente.
Ele encolheu os ombros e afastou-se, mas percebi logo que não ia desistir facilmente.
Nessa noite sonhei com os meus pais: estavam sentados à mesa da cozinha, sorridentes, mas quando tentei aproximar-me, eles desapareceram numa névoa espessa.
Acordei sobressaltada e fui até à cozinha beber água. Encontrei Teresa sentada à mesa, os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Assinei a procuração… — murmurou ela sem me olhar nos olhos.
Senti um vazio abrir-se dentro de mim.
— Porquê? — perguntei num fio de voz.
Ela encolheu os ombros, derrotada. — Não aguento mais discussões… Só quero paz.
Paz? Que paz pode haver quando se vende a alma da família?
No dia seguinte fui ao cartório tentar travar o processo de venda. O advogado explicou-me que podia contestar judicialmente, mas seria uma batalha longa e cara — e eu já estava cansada de guerras.
Na última noite antes de voltar para França, sentei-me no quintal da casa vazia e ouvi os grilos cantarem na escuridão. Lembrei-me das brincadeiras com Teresa em crianças, das promessas sussurradas ao luar: “Nunca vamos deixar ninguém separar-nos”.
Mas ali estávamos agora: separadas por silêncios e papéis assinados à pressa.
No comboio de regresso a Paris olhei pela janela e vi as luzes da aldeia desaparecerem ao longe. Senti um nó na garganta e perguntei-me: será que alguma vez podemos voltar verdadeiramente a casa? Ou há feridas que nem o tempo nem o amor conseguem sarar?
E vocês? Já sentiram que perderam tudo sem nunca ter tido culpa? Como se recomeça quando até as raízes nos são arrancadas?