Recusei-me a Salvar o Meu Pai: Entre a Culpa e a Liberdade
— Mariana, por favor, não me deixes morrer. — A voz do meu pai ecoava pelo corredor frio do hospital de Santa Maria, em Lisboa. O cheiro a desinfetante misturava-se com o peso das palavras dele, e eu sentia o coração a bater tão forte que quase me sufocava.
Olhei para ele, deitado naquela cama, tão diferente do homem que sempre temi. O rosto envelhecido, a pele pálida, os olhos suplicantes. Mas dentro de mim, uma tempestade: raiva, medo, pena, culpa. Tinha vinte e oito anos e nunca pensei que um dia teria de decidir se salvava ou não o homem que me destruiu tantas vezes.
A minha mãe estava sentada ao meu lado, as mãos trémulas no colo. — Mariana, ele é teu pai… — sussurrou, sem conseguir olhar-me nos olhos. Mas eu sabia o que ela queria dizer: que ser filha é uma obrigação eterna, mesmo quando dói.
Cresci em Almada, num T2 pequeno onde os gritos eram mais frequentes do que as risadas. O meu pai era electricista, mas em casa era um tirano. Lembro-me de ter seis anos e de me encolher atrás do sofá sempre que ouvia a chave dele na porta. O cheiro a vinho tinto anunciava as tempestades. A minha mãe tentava proteger-me, mas também ela era vítima. E eu cresci a acreditar que o amor era medo.
Aos dezasseis anos fugi de casa pela primeira vez. Fui para casa da minha tia Rosa, em Setúbal. Ela acolheu-me como pôde, mas nunca quis envolver-se demasiado. — Mariana, família é família, mas cada um tem os seus problemas — dizia ela, enquanto me servia sopa quente. Voltei para casa semanas depois porque a minha mãe adoeceu e eu sentia-me responsável por ela.
Os anos passaram e fui aprendendo a sobreviver: estudava durante o dia e trabalhava à noite num café. O meu pai continuava igual — agressivo, imprevisível. Só quando entrei na universidade é que consegui afastar-me de vez. Arranjei um quarto em Lisboa e prometi a mim mesma que nunca mais deixaria ninguém fazer-me sentir tão pequena.
Mas agora ali estava ele, frágil e dependente de mim. Os rins tinham falhado por causa dos anos de abuso do álcool e precisava urgentemente de um transplante. Eu era a única compatível na família.
— Mariana… — repetiu ele, com lágrimas nos olhos. — Eu sei que não fui bom pai… mas preciso de ti.
Senti um nó na garganta. Quantas vezes desejei ouvir um pedido de desculpa? Mas agora parecia tarde demais. A minha mãe chorava baixinho ao meu lado. — Ele mudou… está arrependido — dizia ela, como se isso pudesse apagar tudo.
Passei noites sem dormir, a olhar para o teto do meu pequeno apartamento em Benfica. Lembrava-me das noites em que me escondia no armário para não ouvir os gritos dele, das vezes em que me chamou nomes horríveis ou me bateu porque o jantar estava frio. Lembrava-me também dos poucos momentos bons: quando me ensinou a andar de bicicleta no parque da Paz ou quando me comprou um gelado depois de uma consulta no dentista.
Falei com amigos, com psicólogos, com desconhecidos em fóruns online. Todos tinham opiniões diferentes: uns diziam que devia ajudar porque era família; outros diziam que ninguém é obrigado a sacrificar-se por quem lhe fez mal.
O meu irmão mais novo, Tiago, ligou-me uma noite. — Mariana, eu sei que foi difícil para ti… mas ele é nosso pai. Se tu não ajudares, ele morre.
— E quem me ajudou a mim quando eu precisei? — perguntei-lhe, sentindo as lágrimas a escorrerem-me pela cara.
O silêncio dele do outro lado da linha foi ensurdecedor.
No hospital, os médicos pressionavam-me com prazos e estatísticas. Diziam que era uma operação segura, que eu podia viver perfeitamente com um rim só. Mas ninguém falava das cicatrizes invisíveis.
Uma semana antes da decisão final, fui visitar o meu pai sozinha. Ele estava mais fraco do que nunca. Quando entrei no quarto, olhou para mim como se eu fosse a sua última esperança.
— Mariana… desculpa… — murmurou ele. — Eu não sabia ser melhor… O meu pai também era assim…
Sentei-me ao lado dele e pela primeira vez consegui olhar-lhe nos olhos sem medo. Vi ali um homem derrotado pela vida e pelos próprios erros. Mas também vi o homem que me roubou a infância.
— Pai… eu não consigo — disse-lhe finalmente, com a voz trémula. — Não consigo dar-te uma parte de mim depois de tudo o que vivi contigo. Preciso de me proteger agora.
Ele chorou baixinho e eu saí do quarto com o coração despedaçado.
A minha mãe deixou de me falar durante semanas. O Tiago também se afastou. Senti-me sozinha como nunca antes. No trabalho, fingia normalidade; à noite chorava até adormecer.
O meu pai acabou por morrer dois meses depois. Não houve grandes despedidas nem reconciliações cinematográficas. No funeral estavam poucas pessoas; a maioria da família afastara-se há muito tempo.
Durante meses carreguei uma culpa insuportável. Perguntava-me todos os dias se tinha feito o certo ou se era apenas uma filha ingrata e egoísta. Procurei respostas em livros, em conversas com terapeutas e até em missas silenciosas numa igreja perto de casa.
Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente: mais forte, mas também marcada pelas escolhas difíceis que teve de fazer. Sei que nunca vou esquecer o olhar do meu pai naquele hospital — nem as palavras da minha mãe: “Ele mudou… está arrependido”.
Mas pergunto-me: até onde vai a nossa obrigação para com quem nos magoou? Será possível perdoar tudo? E vocês… o que teriam feito no meu lugar?