Quis Reconciliar-me com a Minha Ex-Mulher Depois de 25 Anos Juntos: Mas Era Tarde Demais. Agora Tenho 52 Anos e Nada.

— António, não podes continuar assim! — gritou a minha filha, Inês, enquanto batia com força a porta do meu quarto. O eco da sua voz ainda ressoava quando me sentei na beira da cama, com as mãos a tremer. O relógio marcava três da manhã e eu não conseguia dormir. A casa estava vazia, fria, cheia de silêncios que me esmagavam.

Lembro-me do dia em que conheci a Teresa. Era verão em Lisboa, 1993. Ela usava um vestido azul e ria-se como se o mundo fosse simples. Apaixonei-me ali mesmo, no meio do Chiado, entre os pregões dos vendedores e o cheiro a castanhas assadas. Casámo-nos um ano depois, sem grandes festas, mas com uma alegria genuína. Eu trabalhava numa seguradora e ela ficou em casa, como era costume na altura. Sempre achei que era o melhor para nós: eu trazia o dinheiro, ela cuidava da casa e dos nossos filhos.

Durante anos, achei que éramos felizes. A rotina era confortável: acordar cedo, pequeno-almoço feito por ela, os miúdos prontos para a escola. Eu saía para trabalhar e voltava ao fim do dia para um jantar quente e uma casa arrumada. Não percebia que, aos poucos, nos estávamos a afastar. O amor foi-se tornando respeito, depois hábito, depois quase nada.

— António, já não falamos — disse-me ela uma noite, enquanto lavava a loiça.
— Falamos sim, Teresa. Todos os dias.
— Não é disso que falo. Falamos das contas, dos miúdos… mas já não falamos de nós.

Encolhi os ombros. Achei que era normal. Afinal, todos os casais acabam por cair na rotina. Nunca pensei que isso pudesse ser o princípio do fim.

Os anos passaram. Os nossos filhos cresceram: a Inês foi para a universidade no Porto, o Miguel começou a trabalhar numa loja de informática. Eu continuava preso ao trabalho e às preocupações. Teresa começou a sair mais com as amigas, a fazer voluntariado na paróquia. Eu sentia-me cada vez mais sozinho em casa, mas não sabia como dizer-lho.

Foi numa noite de inverno que tudo mudou. Cheguei tarde do trabalho e encontrei Teresa sentada à mesa da cozinha, com uma mala feita ao lado.

— Vou sair de casa, António.
— O quê? Estás maluca?
— Não aguento mais esta solidão a dois. Preciso de viver outra vez.

Fiquei sem palavras. Tentei argumentar, implorar até, mas ela estava decidida. Os miúdos ficaram do meu lado no início — ou assim pensei — mas rapidamente perceberam que eu também tinha culpa no cartório.

O divórcio foi rápido e silencioso. Fiquei com a casa, mas ela levou consigo tudo o que tinha cor: as plantas da varanda, as fotografias das férias em Vila Nova de Milfontes, até o cheiro do café pela manhã desapareceu.

Nos primeiros meses tentei convencer-me de que estava melhor assim. Saía mais com colegas do trabalho, tentava conhecer outras mulheres — mas nada fazia sentido. A solidão era um peso constante.

Um dia, ao fazer compras no Pingo Doce, vi Teresa ao longe. Estava diferente: mais leve, mais sorridente. Falava animadamente com um senhor que eu não conhecia. Senti uma pontada de ciúmes misturada com arrependimento.

Os anos passaram depressa demais. Os meus filhos começaram a visitar-me menos. A Inês casou-se e foi viver para Braga; o Miguel mudou-se para Londres atrás de um emprego melhor. Fiquei sozinho naquela casa grande demais para mim.

Foi então que comecei a pensar em tudo o que tinha perdido. Lembrei-me das noites em que Teresa me pedia para conversar e eu preferia ver futebol; dos jantares em silêncio; das discussões por coisas pequenas que nunca resolvíamos realmente.

Um dia criei coragem e liguei-lhe.

— Olá Teresa…
— António? Está tudo bem?
— Queria pedir-te desculpa… Por tudo.

Do outro lado ouvi um suspiro longo.

— Já passou tanto tempo…
— Eu sei… Mas gostava de te ver. Só conversar.

Ela aceitou encontrar-se comigo num café perto do antigo apartamento dela em Benfica. Quando chegou, trazia aquele mesmo sorriso calmo de sempre — mas os olhos já não eram os mesmos.

— António… Porque é que só agora te lembras?
— Porque só agora percebi o quanto errei… E o quanto preciso de ti.

Ela olhou para mim com ternura e tristeza ao mesmo tempo.

— Eu também precisei de ti durante muitos anos… Mas agora aprendi a viver sozinha. Tenho amigos, faço voluntariado… Sinto-me bem assim.

Fiquei ali sentado, sem saber o que dizer. O café parecia demasiado pequeno para tanto silêncio entre nós.

Nos meses seguintes tentei reaproximar-me dos meus filhos, mas eles estavam ocupados com as suas vidas. A Inês ligava-me de vez em quando; o Miguel respondia às mensagens quando podia. Senti-me cada vez mais invisível.

Comecei a beber mais do que devia. As noites eram longas e cheias de arrependimentos. Às vezes falava sozinho pela casa:

— Como é possível perder tudo sem dar por isso?

A minha irmã Ana tentou ajudar-me:

— António, tens de te perdoar primeiro… Não podes viver só de saudades.

Mas como se perdoa alguém que destruiu a própria família por orgulho e cegueira?

Hoje faço 52 anos. Sentei-me à mesa da cozinha — aquela mesma onde Teresa me disse adeus — e olhei para as paredes nuas. Não tenho quase nada: nem família por perto, nem amigos verdadeiros, nem sequer memórias felizes que não estejam manchadas pelo arrependimento.

Pergunto-me todos os dias: será possível recomeçar depois de perder tudo? Ou será este vazio o preço justo pelas escolhas que fiz? E vocês… já sentiram este peso nas vossas vidas?