Quatro anos atrás, quando estudávamos juntos – A perda de um irmão e o desmoronar da família

— Não me olhes assim, mãe. Eu não tive culpa! — gritei, com a voz embargada, enquanto as lágrimas me escorriam pelo rosto. O silêncio pesado da sala parecia sufocar-me, como se as paredes se fechassem sobre mim. O meu pai estava sentado no sofá, de cabeça baixa, os olhos vermelhos de tanto chorar, mas sem dizer uma palavra. A minha mãe, de pé junto à janela, olhava para mim como se eu fosse um estranho. Desde aquele dia, há quatro anos, nunca mais fomos uma família.

O Rui era o meu irmão mais velho. Tinha vinte e dois anos quando tudo aconteceu. Eu tinha dezoito e estava a acabar o secundário. Sempre fomos muito próximos, quase inseparáveis. Estudávamos juntos, partilhávamos segredos, sonhos e até as pequenas rivalidades de irmãos. Lembro-me do último dia em que estivemos juntos como se fosse agora. Estávamos sentados à mesa da cozinha, a estudar para os exames finais. O Rui estava animado, a falar dos planos para o verão, das viagens que queria fazer, dos concertos a que queria ir. Eu ria-me das suas ideias malucas, mas, no fundo, queria fazer tudo com ele.

Naquela noite, o Rui saiu para se encontrar com amigos. Eu fiquei em casa, cansado, a rever apontamentos. Lembro-me de ter ouvido a porta a fechar-se e de lhe ter gritado: — Não chegues tarde! — Ele respondeu, a rir: — Não te preocupes, miúdo! Amanhã estudamos juntos outra vez!

Mas o amanhã nunca chegou. Às três da manhã, o telefone tocou. A minha mãe atendeu e, de repente, o mundo desabou. O Rui tinha tido um acidente de carro. Um condutor bêbado atravessou um sinal vermelho e bateu de frente com o carro onde o Rui ia. Não houve hipótese. O meu irmão morreu ali mesmo, na estrada, sozinho, no escuro.

A partir desse momento, tudo mudou. A minha mãe fechou-se numa dor silenciosa, quase cruel. Começou a culpar-me, a culpar o meu pai, a culpar o mundo inteiro. — Se tivesses ido com ele, talvez nada disto tivesse acontecido! — atirou-me uma vez, num acesso de raiva. Eu fiquei sem chão. Passei noites em claro, a pensar se devia ter insistido para ele ficar em casa, se devia ter ido com ele, se podia ter feito alguma coisa para evitar aquela tragédia.

O meu pai, por outro lado, tornou-se uma sombra de si mesmo. Deixou de falar, de sorrir, de viver. Ia trabalhar, voltava para casa, sentava-se no sofá e ficava a olhar para o vazio. Eu tentava puxá-lo para a vida, mas ele não reagia. A nossa casa, antes cheia de risos e discussões, tornou-se um lugar frio, onde cada um vivia fechado na sua dor.

Os meses passaram e a culpa começou a corroer-me por dentro. Sentia-me responsável pela morte do Rui, mesmo sabendo, racionalmente, que não tinha culpa. Mas as palavras da minha mãe ecoavam na minha cabeça, como um castigo eterno. Afastei-me dos amigos, deixei de sair, as notas começaram a cair. A escola deixou de fazer sentido. O futuro parecia um lugar impossível de alcançar.

Um dia, a minha mãe entrou no meu quarto sem bater à porta. — Vais continuar assim? Vais deixar que a morte do teu irmão destrua tudo? — perguntou, com uma frieza que me gelou o sangue. — Eu não sou o Rui! — respondi, num grito desesperado. — Eu não posso ser ele! — Ela olhou para mim como se eu fosse invisível e saiu, batendo a porta.

A partir daí, deixei de tentar agradar-lhe. Comecei a sair de casa, a andar pelas ruas de Lisboa sem destino, só para não ter de enfrentar o silêncio da nossa casa. Foi numa dessas noites que conheci a Mariana. Estava sentada num banco do jardim, a chorar baixinho. Sentei-me ao lado dela, sem dizer nada. Ficámos ali, em silêncio, durante minutos. Depois, ela olhou para mim e disse: — Também perdeste alguém, não foi? — Assenti, incapaz de falar. — Eu perdi o meu pai há dois meses — continuou. — Desde então, sinto que ninguém me entende.

Aquela conversa foi o início de uma amizade improvável, mas necessária. A Mariana tornou-se o meu refúgio, a pessoa com quem podia falar sem medo de ser julgado. Partilhámos dores, memórias, silêncios. Com ela, aprendi que a dor não desaparece, mas pode ser partilhada. Comecei a voltar à escola, a tentar reconstruir a minha vida, passo a passo.

Mas em casa, tudo continuava igual. O meu pai cada vez mais ausente, a minha mãe cada vez mais amarga. As discussões tornaram-se frequentes. — Não percebes que estás a destruir esta família? — gritava ela, sempre que eu tentava falar do Rui. — Eu também perdi um filho! — respondia o meu pai, num raro momento de fúria. — E eu perdi o meu irmão! — gritava eu, sentindo-me cada vez mais sozinho.

Houve um dia em que tudo explodiu. Era o aniversário do Rui. A minha mãe preparou o jantar favorito dele, como se ele fosse aparecer a qualquer momento. Sentámo-nos à mesa, em silêncio. De repente, ela começou a chorar descontroladamente. — Porque é que ele? Porque não eu? — soluçava. O meu pai levantou-se e saiu de casa, batendo a porta com força. Eu fiquei ali, sem saber o que fazer, a olhar para o prato vazio do meu irmão.

Nessa noite, tomei uma decisão. Não podia continuar a viver assim. Falei com a Mariana e pedi-lhe para me ajudar a encontrar um psicólogo. Comecei a ir a sessões de terapia, a tentar entender a minha dor, a minha culpa, a minha raiva. Foi um processo lento, doloroso, mas necessário. Aos poucos, comecei a aceitar que a morte do Rui não foi culpa minha. Que a minha mãe estava a sofrer tanto quanto eu, mas não sabia como lidar com a dor.

Com o tempo, tentei aproximar-me dela. Convidei-a para ir comigo às sessões de terapia, mas ela recusou sempre. — Não preciso dessas coisas — dizia, com desdém. Mas percebi que não podia obrigá-la a curar-se. Só podia cuidar de mim e esperar que, um dia, ela encontrasse o seu próprio caminho.

O meu pai, por outro lado, começou a reagir. Um dia, entrou no meu quarto e sentou-se ao meu lado. — Desculpa, filho. Sei que te deixei sozinho. Mas eu também não sabia como lidar com isto. — Abraçámo-nos, os dois a chorar, finalmente juntos na dor. A partir desse momento, começámos a reconstruir a nossa relação, devagarinho, com muitos altos e baixos.

Hoje, quatro anos depois, ainda sinto a falta do Rui todos os dias. Ainda há dias em que a culpa e a tristeza me esmagam. Mas aprendi a viver com a dor, a aceitá-la como parte de mim. A Mariana continua ao meu lado, agora como namorada. O meu pai e eu tentamos apoiar-nos um ao outro. A minha mãe continua distante, presa ao passado, mas já não a culpo. Cada um lida com a perda à sua maneira.

Às vezes pergunto-me: será que algum dia voltaremos a ser uma família? Ou será que a perda do Rui nos mudou para sempre? Talvez nunca haja respostas. Mas aprendi que, mesmo quando tudo parece perdido, há sempre uma hipótese de recomeçar. E vocês, como lidam com a dor e a perda? Será possível perdoar e seguir em frente, ou há feridas que nunca saram?