Quando Percebi Que o Meu Filho Não Me Ouvia: Um Jantar de Revelações
— Ivan, já chega! — gritei, sentindo a voz tremer mais de cansaço do que de raiva. O barulho dos talheres batendo no prato ecoou pela sala de jantar. O meu marido, Rui, olhou-me de soslaio, tentando medir se devia intervir ou não. Ivan, com os seus catorze anos recém-feitos, fitou-me com aquele olhar desafiador que só os adolescentes sabem ter.
— Só estava a dizer que não quero ir à casa da avó este fim de semana. Não percebo porque é que nunca me ouves! — atirou ele, empurrando a cadeira para trás com força.
Senti o peito apertar. Não era só sobre a casa da avó. Era sobre tudo: as horas ao telemóvel, as notas a descer, as respostas atravessadas. Era sobre o silêncio que se instalava entre nós cada vez que eu tentava impor um limite e ele fazia questão de o ignorar.
— Ivan, não é uma questão de ouvir ou não ouvir. Há coisas que simplesmente têm de ser feitas — tentei explicar, mas a minha voz soava estranha até para mim, como se estivesse a falar através de um vidro.
Ele bufou e saiu disparado da sala. O som da porta do quarto a bater foi como um murro no estômago. Fiquei ali sentada, com Rui ao meu lado em silêncio. Senti as lágrimas a quererem cair, mas engoli-as. Não queria mostrar fraqueza.
— Achas que estamos a falhar com ele? — perguntei baixinho ao Rui.
Ele demorou a responder. — Não sei… Talvez seja só uma fase. Mas às vezes parece que já não conseguimos chegar até ele.
A noite caiu pesada sobre a casa. Fui arrumar a cozinha sozinha, cada prato lavado era uma tentativa de lavar também a culpa e o medo que me corroíam por dentro. Lembrei-me de quando o Ivan era pequeno e corria para mim sempre que caía ou tinha um pesadelo. Agora parecia fugir de mim como se eu fosse o próprio pesadelo dele.
Na manhã seguinte, tentei falar com ele antes de sair para a escola.
— Ivan, podemos conversar?
Ele nem tirou os olhos do telemóvel.
— Estou atrasado, mãe.
— Só quero saber se está tudo bem contigo…
Ele encolheu os ombros e saiu porta fora sem olhar para trás. Fiquei ali parada no corredor, sentindo-me invisível na minha própria casa.
Os dias seguintes foram uma sucessão de pequenas guerras: discussões sobre as tarefas domésticas, sobre as horas de chegada a casa, sobre os amigos novos que eu não conhecia e que ele se recusava a apresentar. Cada conversa era um campo minado onde qualquer palavra podia explodir numa discussão.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre as notas da escola — ele tinha escondido um teste negativo — perdi o controlo.
— Não percebes que isto é para o teu bem? Porque é que insistes em fazer tudo ao contrário do que te pedimos?
Ele olhou-me nos olhos, e pela primeira vez vi lágrimas ali.
— Porque vocês nunca me ouvem! Só querem mandar em mim! — gritou, antes de se fechar no quarto.
Sentei-me no chão do corredor, encostada à porta dele. Do outro lado ouvi soluços abafados. O Rui veio ter comigo e sentou-se ao meu lado em silêncio.
— Lembras-te quando achávamos que educar um filho era só dar amor e pronto? — sussurrei.
Ele sorriu tristemente. — Ninguém nos avisou que ia ser tão difícil deixá-los crescer.
Naquela noite não dormi. Fiquei a pensar em tudo o que tinha dito e feito nos últimos meses. Será que estava mesmo a ouvir o Ivan? Ou estava só a impor-lhe as minhas vontades, os meus medos?
No dia seguinte, decidi tentar algo diferente. Esperei por ele à porta da escola. Quando me viu, franziu o sobrolho.
— O que estás aqui a fazer?
— Queria dar-te boleia para casa… e conversar um bocadinho.
Ele hesitou, mas entrou no carro. Durante o caminho fiquei calada, à espera que ele falasse primeiro. Quando chegámos ao parque perto de casa, estacionei e desliguei o motor.
— Ivan… desculpa se tenho sido demasiado dura contigo. Eu só quero proteger-te. Mas acho que tens razão: talvez eu não esteja mesmo a ouvir-te como devia.
Ele ficou em silêncio durante uns segundos eternos.
— Eu também não facilito… Mas às vezes parece que já não me conheces — murmurou.
Senti um nó na garganta.
— Se calhar precisamos os dois de reaprender a falar um com o outro…
Ele assentiu devagar. Ficámos ali sentados no carro, sem pressa de voltar para casa. Pela primeira vez em muito tempo senti que havia uma ponte entre nós — frágil ainda, mas real.
Os dias seguintes foram feitos de pequenos gestos: um café juntos ao sábado de manhã, uma conversa sobre música (descobri que ele adorava bandas portuguesas antigas), até uma tarde passada a ver filmes antigos do António Variações porque ele queria perceber porque é que eu gostava tanto dele.
Nem tudo ficou perfeito. Ainda discutimos sobre as saídas à noite e as notas na escola. Mas agora havia espaço para pedir desculpa e para ouvir o outro sem gritar.
Uma noite, depois do jantar — já sem gritos nem pratos partidos — sentei-me ao lado dele no sofá.
— Sabes… às vezes tenho medo de te perder — confessei baixinho.
Ele olhou-me nos olhos e sorriu pela primeira vez em muito tempo.
— Eu também tenho medo de te desiludir.
Abracei-o com força. Senti o coração finalmente acalmar-se dentro do peito.
Hoje olho para trás e percebo: educar um filho não é só impor limites ou proteger; é aprender todos os dias a ouvir e a ser ouvido. E vocês? Já sentiram que os vossos filhos não vos ouvem… ou será que somos nós que deixámos de escutar?