Quando os Filhos Crescem: O Eco do Silêncio em Casa
— Mãe, não podes ligar-me a toda a hora. Tenho a minha vida, sabes? — A voz da Inês, a minha filha mais velha, ecoa fria do outro lado do telefone. Sinto um aperto no peito, mas tento disfarçar.
— Eu sei, filha, só queria saber se já jantaste. — Tento soar casual, mas a verdade é que o silêncio da casa pesa-me nos ombros como um casaco molhado.
Ela suspira. — Jantei, sim. Olha, tenho de ir, está bem? Depois ligo-te.
O telefone desliga-se antes que eu possa responder. Fico ali, com o aparelho na mão, a olhar para a parede branca da cozinha. O relógio marca 19h12. Lembro-me de quando a Inês e o Tiago corriam pela casa, a rir, a pedir-me para lhes contar histórias antes de dormir. Agora, cada um vive no seu apartamento, em Lisboa, e eu fiquei nesta casa grande demais para uma só pessoa.
O António, meu marido, partiu há cinco anos. O cancro levou-o depressa demais. Desde então, os meus dias são feitos de rotinas: regar as plantas, ir ao mercado, ver as novelas, esperar por uma chamada que raramente vem. Às vezes, pergunto-me se fiz tudo certo como mãe. Será que os preparei demasiado bem para o mundo? Será que, ao ensinar-lhes a serem independentes, ensinei-os também a não precisarem de mim?
No domingo passado, tentei reunir a família para o almoço. Liguei à Inês e ao Tiago, preparei o bacalhau à Brás que eles tanto gostam. Mas a Inês tinha um trabalho urgente, e o Tiago foi passar o fim de semana com a namorada, a Marta. Fiquei sozinha, a olhar para a mesa posta para quatro, os pratos vazios a gritarem a minha solidão.
No café da esquina, a Dona Rosa, que me conhece desde menina, percebe logo o meu estado de espírito.
— Então, Maria, estás com ar de quem viu um fantasma. — Ela serve-me um galão e senta-se ao meu lado.
— Sinto-me tão inútil, Rosa. Os meus filhos não precisam de mim. Nem sequer me ligam para pedir conselhos. — A minha voz treme, e sinto as lágrimas a quererem saltar.
— Olha que isso é bom sinal, Maria. Sinal de que fizeste bem o teu trabalho. Mas eu entendo-te. O meu João também só aparece quando precisa de dinheiro ou de lavar roupa. — Ela sorri, mas os olhos denunciam a mesma tristeza que sinto.
À noite, deito-me cedo. Oiço o vento a bater nas persianas. Penso em ligar ao Tiago, mas lembro-me do tom impaciente da Inês e desisto. Em vez disso, pego no álbum de fotografias. Vejo o António a segurar a Inês ao colo, o Tiago a fazer caretas para a câmara. Sinto uma saudade tão funda que quase me afogo nela.
No dia seguinte, decido ir ao centro de dia do bairro. A minha vizinha, a Dona Emília, anda sempre a dizer que devia ocupar o tempo, conhecer gente nova. Entro tímida, mas sou recebida com sorrisos. Há um grupo a jogar cartas, outro a fazer tricô. Sento-me ao lado da Dona Emília e começo a conversar. Pela primeira vez em muito tempo, sinto-me parte de alguma coisa.
— Sabes, Maria, os filhos crescem e vão à vida deles. Mas nós ainda temos muito para viver. — Diz-me ela, enquanto me ensina a fazer um cachecol.
Durante semanas, vou ao centro todos os dias. Faço novas amizades, aprendo a jogar sueca, até começo a dar aulas de culinária. Descubro que ainda tenho muito para dar, mesmo que não seja aos meus filhos.
Um dia, a Inês liga-me.
— Mãe, desculpa não ter ligado antes. Tenho andado tão ocupada… — A voz dela soa cansada, mas mais doce.
— Não faz mal, filha. Olha, hoje fiz um bolo de laranja no centro de dia. Ficou uma delícia! — Respondo, tentando esconder a emoção.
— Centro de dia? — Ela parece surpreendida. — Que bom, mãe! Fico feliz por estares a fazer coisas novas.
— A vida não acaba quando os filhos saem de casa, Inês. — Digo, mais para mim do que para ela.
No fim de semana seguinte, o Tiago aparece de surpresa com a Marta. Trazem flores e um sorriso. Sentamo-nos à mesa, rimos, falamos da vida. Sinto-me de novo mãe, mas de uma forma diferente. Já não sou o centro do universo deles, mas continuo a ser o porto seguro.
À noite, depois de eles partirem, fico a pensar em tudo o que mudou. A casa ainda está silenciosa, mas já não me assusta tanto. Descobri que posso ser feliz, mesmo sem ser necessária a toda a hora. O amor de mãe não diminui, só se transforma.
Pergunto-me: será que todas as mães sentem este vazio quando os filhos crescem? Como é que vocês lidaram com esta nova fase? Será que algum dia deixamos mesmo de ser precisas, ou apenas aprendemos a amar de outra maneira?