Quando o Silêncio se Torna Grito: O Dia em que o Meu Mundo Desabou
— Maria, não te esqueças de fechar bem a porta quando fores dormir. — A voz do António ecoou no corredor, abafada pelo som da mala a rolar no soalho antigo do nosso apartamento em Benfica.
— Sim, António, vai descansado. — respondi, sem sequer olhar para ele, ocupada a arrumar a loiça do jantar. Era mais uma segunda-feira igual a tantas outras. Ele partia em mais uma das suas delegações para o Porto, e eu ficava com o silêncio da casa e o cheiro a café frio na bancada.
Nunca pensei que aquele seria o último olhar, o último toque, o último beijo apressado na testa. O António era previsível como o relógio da igreja ao fundo da rua. Trabalhador, metódico, pouco dado a surpresas. Por isso, quando fechei a porta atrás dele, não senti nada de especial. Nem saudade, nem preocupação. Apenas aquela certeza confortável de quem acredita que tudo está no seu devido lugar.
Os dias passaram arrastados. O trabalho no hospital, as compras no Pingo Doce, as conversas rápidas com a minha mãe ao telefone — tudo igual. Só à noite, quando me deitava na cama vazia, sentia um frio estranho, como se faltasse um pedaço do meu corpo.
No sétimo dia, estava a preparar o jantar quando ouvi o som seco de uma mensagem no telemóvel. Peguei no aparelho sem pressa, esperando um “chego amanhã” ou “traz leite”. Mas o que li gelou-me o sangue:
“Maria, preciso ser honesto. Não volto. Começo uma nova vida. Desculpa.”
O chão fugiu-me dos pés. Sentei-me no banco da cozinha, as mãos a tremerem tanto que quase deixei cair o telemóvel. Li e reli aquelas palavras curtas, frias, como se fossem de um estranho. Começo uma nova vida. Desculpa.
— Isto é uma brincadeira? — murmurei para mim mesma, esperando que ele aparecesse à porta a rir-se daquela piada cruel.
Mas os minutos passaram e nada aconteceu. Liguei-lhe uma, duas, dez vezes. Caixa postal. Mandei mensagens: “António, estás bem?”, “Isto é sério?”, “Por favor, fala comigo.” Silêncio absoluto.
Naquela noite não dormi. Sentei-me no chão da sala, rodeada pelas fotografias do nosso casamento, dos verões em Sesimbra com os miúdos (os sobrinhos dele), das festas de Natal em casa da minha sogra. Tudo parecia mentira agora.
No dia seguinte, fui trabalhar como um autómato. A enfermeira-chefe olhou para mim com estranheza:
— Maria, estás pálida… aconteceu alguma coisa?
Quis responder que não, que estava tudo bem — mas desatei a chorar ali mesmo, no corredor do hospital.
A notícia espalhou-se depressa entre os colegas. Uns olhavam-me com pena, outros com aquela curiosidade mórbida tão portuguesa:
— Achas que ele tem outra?
— Mas não deste por nada?
— E agora, o que vais fazer?
Eu não sabia responder a nada disso. Só sabia que estava sozinha e que tudo aquilo me parecia um pesadelo do qual não conseguia acordar.
Nos dias seguintes tentei falar com a família dele. A mãe do António atendeu-me com voz trémula:
— Maria… eu também não sei de nada. Ele só me mandou uma mensagem a dizer que precisava de tempo.
O irmão foi mais direto:
— Olha, Maria… o António sempre foi estranho. Mas fazer isto? Nem eu percebo. Se precisares de alguma coisa…
A minha mãe ficou em choque:
— Filha, volta para casa. Não fiques aí sozinha.
Mas eu não queria voltar para lado nenhum. Queria respostas.
Uma semana depois, recebi uma carta pelo correio — letra dele, reconheci logo:
“Maria,
Não procures culpados nem respostas fáceis. Senti-me preso durante anos e nunca tive coragem de te dizer. Conheci alguém e percebi que precisava de mudar de vida. Não é culpa tua. Espero que um dia me perdoes.
António”
Rasguei a carta em mil pedaços e atirei-os pela janela da sala. O vento levou-os para longe — tal como ele se tinha ido embora sem olhar para trás.
Os meses seguintes foram um inferno lento e silencioso. Os amigos afastaram-se aos poucos — uns porque não sabiam o que dizer, outros porque tinham medo de “escolher lados”. No trabalho, era olhada como aquela mulher abandonada pelo marido — como se tivesse uma doença contagiosa.
As contas começaram a apertar. O ordenado mal dava para pagar a renda e as despesas da casa sozinha. Tive de vender o carro e pedir ajuda à minha mãe para comprar comida nos meses mais difíceis.
Certa noite, ao regressar do hospital depois de um turno duplo, encontrei a porta do prédio aberta e ouvi vozes no átrio:
— Ouviste? O marido da Maria fugiu com uma brasileira! — cochichava a vizinha do terceiro andar à porteira.
Parei ali mesmo, sem coragem de subir as escadas. Senti vergonha — mas porquê? Eu não tinha feito nada de errado!
Comecei a evitar as pessoas, a sair só quando era estritamente necessário. Passei horas a fio sentada no sofá a olhar para o vazio ou a ver novelas só para não pensar na minha própria vida.
Um dia recebi uma mensagem inesperada da Rita, uma amiga dos tempos da faculdade:
— Maria! Ouvi dizer… Queres vir jantar cá a casa?
Hesitei muito antes de aceitar. Mas naquela noite, rodeada por risos e conversas banais sobre política e futebol, percebi que ainda havia vida fora daquele buraco negro onde eu me tinha enfiado.
Aos poucos fui recuperando forças. Voltei a sair ao fim de semana, inscrevi-me num curso de fotografia na Junta de Freguesia e até comecei a correr no parque das Conchas ao domingo de manhã.
Mas as feridas estavam longe de sarar. Cada vez que via um casal de mãos dadas na rua sentia um aperto no peito impossível de explicar.
Um ano depois do abandono recebi outra carta do António — desta vez vinda do Algarve:
“Maria,
Espero que estejas bem. Sei que te magoei muito e nunca vou conseguir reparar isso. Só queria dizer-te que estou feliz e espero que tu também consigas ser feliz um dia.
António”
Desta vez não chorei nem rasguei nada. Apenas sorri com amargura e guardei a carta numa gaveta.
Hoje olho para trás e vejo aquela mulher perdida na cozinha como alguém distante — quase uma estranha. Aprendi a viver sozinha, a gostar do silêncio da casa e até das minhas próprias manias.
Às vezes pergunto-me: como é possível alguém virar costas assim à vida construída a dois? Será que algum dia conseguimos mesmo conhecer quem dorme ao nosso lado? E vocês — já sentiram o chão fugir-vos dos pés assim?