Quando o Silêncio Grita – Confissões de uma Avó Portuguesa

— Leonor, porque é que já não vens lanchar comigo aos sábados? — perguntei, tentando esconder o tremor na voz enquanto arrumava as bolachas na travessa. A minha neta olhou para mim, os olhos grandes e castanhos cheios de uma tristeza que não combinava com a sua idade.

— Não sei, avó. Tenho trabalhos de casa… — respondeu ela, desviando o olhar para o telemóvel, como se procurasse ali uma saída para a conversa.

Senti um aperto no peito. Desde que o meu filho, Miguel, casou com a Sofia, sempre fiz questão de estar presente. Ajudei-os quando nasceu o Tiago, depois a Leonor. Fui eu quem ficou noites em claro quando a Sofia teve aquela depressão pós-parto. Fui eu quem cozinhava e limpava quando eles estavam atolados em trabalho. Sempre achei que era querida, necessária. Mas agora… agora sentia-me um móvel antigo, empurrado para um canto da casa.

A Sofia entrou na cozinha nesse momento, apressada como sempre.

— Leonor, despacha-te! O teu pai já está à espera no carro.

— Sofia — arrisquei —, posso falar contigo um minuto?

Ela suspirou, impaciente.

— Diga, Dona Teresa.

O “Dona” doía-me sempre. Antes era só Teresa. Antes éramos quase amigas. Agora parecia que havia uma parede entre nós.

— Notei que as crianças têm vindo menos cá a casa. Aconteceu alguma coisa?

Ela sorriu, mas era um sorriso frio.

— Nada de especial. Só têm andado ocupados com a escola e as atividades. Sabe como é…

Mas eu sabia que não era só isso. Sentia no ar uma tensão estranha. O Miguel também estava diferente comigo: mais distante, menos carinhoso. E eu? Eu sentia-me cada vez mais sozinha naquela casa grande demais para uma só pessoa.

Naquela noite, sentei-me no sofá com o álbum de fotografias no colo. Passei os dedos pelas imagens: Leonor bebé no meu colo, Tiago a rir-se na praia da Nazaré, Sofia e eu a preparar rabanadas no Natal. Onde é que tudo se perdeu?

No domingo seguinte, decidi ir à missa cedo e depois passar pela casa deles sem avisar. Quando cheguei, ouvi vozes exaltadas vindas da cozinha.

— Não quero que ela se meta na nossa vida! — era a voz da Sofia.

— Mas é a minha mãe! Ela só quer ajudar… — respondeu o Miguel, num tom cansado.

— Ajudar? Ou controlar? Já viste como ela quer saber tudo? Até as notas das crianças!

Senti-me gelar por dentro. Afastei-me da porta antes que me vissem e voltei para casa devagarinho, como se cada passo pesasse toneladas.

Nos dias seguintes, tentei agir normalmente. Liguei à Leonor para saber como estava; ela respondeu com monossílabos. Convidei-os para jantar; Sofia disse que tinham outros planos. Até o Tiago, sempre tão meigo comigo, parecia mais calado.

Uma tarde, ao sair do supermercado, encontrei a minha vizinha Rosa.

— Então, Teresa? Já não vejo os teus netos por aqui…

Senti as lágrimas ameaçarem cair.

— Estão crescidos… já não precisam tanto da avó — menti.

Mas aquela noite não consegui dormir. Levantei-me e comecei a escrever uma carta à Sofia. Expliquei tudo: como me sentia posta de parte, como só queria fazer parte da vida deles. Não tive coragem de entregar a carta. Guardei-a na gaveta do criado-mudo.

Dias depois, recebi uma chamada do colégio da Leonor: ela tinha tido um ataque de ansiedade durante um teste importante. Fui imediatamente para lá e encontrei-a sentada num banco do jardim, os olhos vermelhos de tanto chorar.

— Avó… — sussurrou ela quando me viu — posso ir para tua casa?

Levei-a comigo e fiz-lhe chá de camomila. Sentámo-nos à mesa da cozinha e esperei que ela falasse.

— Sinto-me tão perdida… — confessou finalmente — A mãe está sempre nervosa, o pai nunca está em casa… E tu… tu pareces zangada comigo.

Abracei-a com força.

— Nunca estou zangada contigo, meu amor. Só tenho saudades tuas.

Ela chorou no meu ombro durante muito tempo. Depois adormeceu no sofá da sala, como fazia quando era pequena.

Quando a Sofia veio buscá-la, olhou-me nos olhos pela primeira vez em meses.

— Obrigada por ter ficado com ela — disse baixinho.

— Sofia… precisamos conversar. Não quero ser um peso na vossa vida. Só quero ajudar.

Ela hesitou antes de responder:

— Eu sei… Só que às vezes sinto que não sou suficiente como mãe. Que nunca faço nada bem…

Aquelas palavras apanharam-me de surpresa. Sempre vi a Sofia como uma mulher forte e determinada. Mas ali estava ela: frágil e insegura como qualquer mãe.

— Ninguém nasce ensinado — disse-lhe — Eu também errei muito com o Miguel. O importante é estarmos juntos quando as coisas correm mal.

Ela assentiu e abraçou-me rapidamente antes de sair com a Leonor.

Naquela noite, Miguel ligou-me:

— Mãe… desculpa se temos estado afastados. A vida tem sido difícil cá em casa…

— Eu sei, filho. Só quero que saibas que estou aqui para vocês — respondi com lágrimas nos olhos.

A partir desse dia, as coisas começaram a mudar devagarinho. A Leonor voltou a vir lanchar comigo aos sábados; o Tiago pediu-me ajuda com os trabalhos de matemática; até a Sofia passou a ligar-me só para conversar ou pedir conselhos sobre receitas.

Mas sei que nada será como antes. Os laços familiares mudam com o tempo; às vezes apertam-nos até doerem, outras vezes parecem tão frágeis que temos medo de os perder para sempre.

Agora pergunto-me: quantas famílias vivem presas em silêncios e mal-entendidos? Quantas avós sentem este vazio? E será que algum dia aprendemos mesmo a ouvir o silêncio dos outros?