Quando o próprio filho te tira tudo – a história de uma mãe que teve de recomeçar

— Mãe, não compliques. É só uma assinatura. Confia em mim, eu vou tratar de tudo — disse o Ricardo, com aquele tom apressado que sempre usava quando queria que eu fizesse algo sem pensar muito.

Olhei para ele, sentado à mesa da cozinha, com os papéis estendidos à minha frente. O cheiro do café ainda pairava no ar, misturado com o perfume doce das flores que eu colhera do jardim naquela manhã. O sol entrava pela janela, mas dentro de mim sentia uma sombra a crescer.

— Mas para que é isto tudo, Ricardo? — insisti, tentando decifrar as linhas pequenas e os termos jurídicos que me pareciam um labirinto.

Ele suspirou, impaciente. — Mãe, já te expliquei. É para facilitar as coisas, para não teres preocupações com a casa. Assim fica tudo em meu nome e eu trato das contas, dos impostos…

Acreditei. Sempre acreditei no meu filho. Depois da morte do António, o meu marido, foi o Ricardo quem ficou ao meu lado, quem me ajudou a levantar quando tudo parecia desmoronar. Era o meu único filho, o meu orgulho. Assinei.

Nunca imaginei que aquela assinatura fosse o início do fim.

Os primeiros meses passaram sem grandes mudanças. O Ricardo vinha jantar comigo de vez em quando, trazia os netos para me visitar aos domingos. Mas aos poucos, as visitas foram-se tornando mais raras. O telefone tocava menos. E um dia, chegou uma carta.

— O que é isto? — perguntei ao Ricardo, mostrando-lhe o envelope com o logotipo do banco.

Ele desviou o olhar. — São só formalidades, mãe. Não te preocupes.

Mas eu preocupei-me. E com razão.

Pouco tempo depois, apareceu uma senhora bem vestida à porta de casa. Disse que era da imobiliária e que vinha mostrar a casa a uns interessados.

— Deve haver algum engano — respondi, sentindo o coração a bater descompassado.

Ela sorriu, mas os olhos estavam frios. — Não há engano nenhum, dona Maria. O seu filho pôs a casa à venda.

Liguei-lhe imediatamente, as mãos a tremer.

— Ricardo! O que é isto? Porque é que estás a vender a casa?

Do outro lado da linha, ele parecia distante. — Mãe, preciso do dinheiro. Tenho dívidas… Não te preocupes, arranjo-te um sítio para ficares.

— Um sítio? Esta é a minha casa! Foi aqui que te criei! — gritei, mas ele já tinha desligado.

Os dias seguintes foram um pesadelo. Vi estranhos a passearem-se pela minha sala, a abrirem armários, a comentarem as cortinas que eu própria costurei há anos atrás. Senti-me invisível na minha própria vida.

A vizinha, dona Lurdes, tentou ajudar.

— Maria, fala com um advogado! Isto não está certo!

Mas eu não tinha forças. Nem dinheiro para pagar um advogado. E no fundo… no fundo ainda esperava que o Ricardo viesse bater à porta e dissesse que era tudo um mal-entendido.

Quando finalmente chegou o dia da escritura, fui obrigada a sair. O Ricardo apareceu com uma mala na mão e um olhar que já não reconhecia.

— Arranjei-te um quarto em casa da tia Rosa — disse ele, como se estivesse a fazer-me um favor.

A tia Rosa era irmã do António. Uma mulher amarga, sempre pronta a apontar defeitos e a relembrar-me de tudo o que eu fazia mal.

— Então agora vens cá morar? — perguntou ela assim que cheguei, sem sequer me ajudar com as malas. — Espero que não penses que isto é hotel.

As semanas seguintes foram um tormento. A tia Rosa criticava tudo: como eu cozinhava, como arrumava as minhas coisas, até como respirava.

— Se ao menos tivesses sido mais esperta com o teu filho… — murmurava ela ao passar por mim no corredor.

Eu chorava baixinho à noite, abraçada à almofada. Sentia-me uma estranha na vida dos outros e na minha própria pele.

O Ricardo raramente ligava. Quando o fazia era para perguntar se precisava de alguma coisa — mas nunca vinha visitar-me. Os netos deixaram de aparecer. A minha família parecia ter desaparecido num nevoeiro de silêncio e mágoa.

Um dia, decidi sair para apanhar ar e sentei-me no banco do jardim público. Uma senhora idosa sentou-se ao meu lado e começou a conversar comigo sobre flores e saudades dos filhos.

— Às vezes penso que criamos os filhos para eles nos esquecerem — disse ela com um sorriso triste.

Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto antes de conseguir responder:

— Eu dei tudo ao meu filho… E agora não tenho nada.

Ela apertou-me a mão com ternura.

— Ainda tem a si mesma. Não se esqueça disso.

Essas palavras ficaram comigo durante dias. Comecei a pensar: quem era eu antes de ser mãe? O que gostava de fazer? O que me fazia feliz?

Com algum dinheiro guardado das pequenas reformas e com a ajuda da dona Lurdes — que me emprestou uns livros e me incentivou — comecei a procurar trabalho como costureira. Sempre tive jeito para agulhas e linhas; era assim que fazia os vestidos da minha infância e as roupas do Ricardo quando era pequeno.

Arranjei uns biscates: bainhas aqui, fechos ali… Aos poucos fui ganhando confiança e até fiz amizade com outras mulheres do bairro que também precisavam de ganhar algum dinheiro extra.

A tia Rosa continuava amarga, mas já não me magoava tanto. Eu tinha encontrado um pequeno refúgio na costura e nas conversas com as vizinhas.

Um dia recebi uma carta do Ricardo. Dizia apenas:

“Mãe,
Desculpa por tudo. Não sei como cheguei aqui. Preciso falar contigo.”

Fiquei horas a olhar para aquelas palavras. Parte de mim queria rasgar a carta; outra parte queria correr para ele e abraçá-lo como quando era criança e caía da bicicleta.

Acabei por lhe ligar.

— Ricardo…

Do outro lado ouvi um soluço abafado.

— Mãe… Perdoa-me… Eu perdi tudo no jogo… Não sabia o que fazer…

Ouvia-o chorar como nunca antes tinha ouvido. Senti pena dele, mas também raiva e tristeza por tudo o que tinha passado.

— Filho… Eu já não tenho nada para te dar — respondi baixinho.

Ele prometeu mudar, prometeu ajudar-me a recuperar o que pudesse. Mas eu sabia: há coisas que não se recuperam nunca mais.

Hoje vivo num pequeno apartamento arrendado com vista para o rio Tejo. Trabalho todos os dias na costura e aprendi a gostar da minha própria companhia. Às vezes encontro o Ricardo; outras vezes não atendo o telefone porque ainda dói demais.

Pergunto-me muitas vezes: como é possível sobreviver à traição de quem mais amamos? Será que algum dia voltarei a confiar em alguém assim? Talvez nunca saiba as respostas… Mas sei que sou mais forte do que pensava.