Quando o Perfume Mudou Tudo: O Dia em Que Percebi Que a Minha Vida Não Era Minha
— Para quem é essa camisa nova, Miguel? — perguntei, tentando soar casual, mas a minha voz tremeu. Ele nem levantou os olhos do telemóvel.
— Para mim, claro. Não posso comprar uma camisa sem interrogatório agora? — respondeu, rindo de lado, mas sem humor.
Eu sabia que não era só uma camisa. Sabia porque, há três meses, Miguel começou a mudar. Primeiro foram as idas ao ginásio, depois a dieta, depois os cremes para o rosto e, finalmente, aquele perfume caro — aquele aroma intenso que nunca antes quis sequer experimentar. No início, tentei convencer-me de que era só uma fase. Afinal, um homem de cinquenta e dois anos também pode querer cuidar de si. Não pode?
Mas havia algo no ar. Algo que me fazia acordar no meio da noite com o coração apertado. O silêncio dele tornou-se mais pesado. As conversas à mesa resumiam-se a perguntas sobre contas ou sobre o tempo. O nosso filho, Tiago, já nem se dava ao trabalho de esconder o incómodo.
— Mãe, o pai está estranho — disse-me uma noite, enquanto lavávamos a loiça juntos. — Ele nunca me pergunta nada. Só fala do trabalho ou do Benfica.
Sorri-lhe, tentando esconder o medo.
— O teu pai anda cansado, filho. O trabalho não tem sido fácil.
Mas Tiago não se convenceu. E eu também não.
Na semana seguinte, encontrei um recibo no bolso das calças de Miguel. Era de um restaurante caro no centro de Lisboa. Dois pratos principais, duas sobremesas, vinho do Douro. Não era um almoço de negócios — conheço os colegas dele há anos e nunca vão a sítios assim.
Esperei até ele chegar a casa. Sentei-me no sofá com o recibo na mão.
— Foste jantar fora?
Ele hesitou por um segundo — só um segundo — antes de responder.
— Foi um almoço com o chefe. Tive de ir.
— Com sobremesa e vinho? — perguntei, sem conseguir esconder a mágoa.
Ele bufou e foi para o quarto. Fiquei ali sentada, sozinha, com o cheiro do perfume dele ainda no ar.
Os dias seguintes foram um tormento. Comecei a reparar em tudo: nas mensagens que ele apagava do telemóvel, nas chamadas que atendia no corredor, nos sorrisos forçados quando eu entrava na sala. Senti-me a enlouquecer.
Uma noite, não aguentei mais.
— Miguel, tu estás com outra pessoa?
O silêncio dele foi pior do que qualquer resposta. Olhou-me nos olhos e eu vi ali tudo o que precisava de saber.
— Não sei do que estás a falar — murmurou, desviando o olhar.
Levantei-me e fui para a varanda. Chorei baixinho para não acordar Tiago. Senti-me ridícula por ter acreditado nas minhas próprias desculpas durante tanto tempo.
No dia seguinte, fui trabalhar como se nada fosse. Os colegas perguntaram se estava tudo bem e eu sorri, como sempre fiz. Mas dentro de mim havia um buraco negro a crescer.
À noite, quando Miguel chegou a casa mais tarde do que o costume, sentei-me à mesa com ele.
— Precisamos de falar — disse-lhe.
Ele suspirou e passou as mãos pelo cabelo.
— Eu não queria magoar-te, Ana. Juro que não queria.
As lágrimas caíram-me pelo rosto sem eu conseguir controlar.
— Quem é ela?
Ele hesitou antes de responder:
— Chama-se Sofia. Conheci-a no trabalho. Não foi planeado…
Levantei-me tão rápido que quase derrubei a cadeira.
— Não foi planeado? Achas que isso me consola? Achas que isso apaga tudo?
Miguel tentou aproximar-se de mim, mas recuei.
— Não me toques! — gritei-lhe.
Tiago apareceu à porta da cozinha com os olhos arregalados.
— O que se passa?
Olhei para ele e senti o coração partir-se em mil pedaços.
— O teu pai… O teu pai vai sair de casa por uns tempos — consegui dizer, antes de fugir para o quarto.
Naquela noite não dormi. Fiquei a olhar para o teto, a pensar em tudo o que tínhamos vivido juntos: as férias em Albufeira quando Tiago era pequeno, as noites em que ficávamos acordados a ver filmes antigos, os jantares de aniversário em família. Tudo parecia tão distante agora.
Miguel saiu de casa dois dias depois. Levou apenas uma mala pequena e deixou as chaves em cima da mesa da entrada. Não houve despedidas dramáticas nem promessas vãs. Só silêncio.
Os dias seguintes foram um nevoeiro denso. Tive de aprender a viver sozinha com Tiago, a gerir as contas da casa, a lidar com as perguntas dos vizinhos e dos meus pais.
A minha mãe ligou-me todos os dias durante uma semana.
— Ana, tens de ser forte. Os homens são todos iguais — dizia ela, com aquela voz dura que sempre teve.
Mas eu não queria ser forte. Queria gritar, partir pratos, desaparecer por uns dias. Queria não sentir nada.
Tiago fechou-se ainda mais no quarto dele. Passava horas no computador ou a ouvir música com os auscultadores nos ouvidos. Tentei falar com ele várias vezes, mas só me respondia com monossílabos.
Uma noite entrei no quarto dele sem bater à porta.
— Filho…
Ele tirou os auscultadores e olhou para mim com os olhos vermelhos.
— A culpa é minha? — perguntou baixinho.
Sentei-me ao lado dele na cama e abracei-o com força.
— Claro que não! Nada disto é culpa tua! O teu pai… Ele fez escolhas erradas. Mas nós vamos ficar bem, prometo-te.
Ele chorou no meu ombro como quando era pequeno e tinha pesadelos à noite.
Os meses passaram devagar. Fui ao advogado tratar dos papéis do divórcio. Miguel ligava de vez em quando para saber do Tiago, mas evitava falar comigo. A Sofia nunca apareceu cá por casa — pelo menos isso poupou-me algum sofrimento.
Comecei a sair mais com as minhas amigas do trabalho. Fomos ao cinema, jantámos fora algumas vezes. Uma noite, depois de uns copos de vinho a mais, contei-lhes tudo.
— Ele mudou tanto… Eu devia ter percebido antes — disse-lhes entre lágrimas.
A Marta abraçou-me e disse:
— Não te culpes por confiares em quem amas. Isso é sinal de coragem, não de fraqueza.
Essas palavras ficaram comigo durante semanas.
Um sábado à tarde decidi ir ao ginásio onde Miguel tinha começado a treinar meses antes. Inscrevi-me nas aulas de pilates e comecei a cuidar mais de mim — não para agradar ninguém, mas porque precisava de sentir que ainda tinha algum controlo sobre a minha vida.
Tiago começou a sair mais com os amigos e trouxe notas melhores da escola naquele período difícil — talvez para me animar ou talvez para se distrair da dor dele próprio.
O tempo foi sarando as feridas devagarinho. Um dia acordei e percebi que já não pensava em Miguel todas as horas do dia. Já não chorava sempre que via um casal feliz na rua ou ouvia uma música romântica na rádio.
Um domingo à tarde fui passear à beira-rio sozinha e sentei-me num banco a ver as gaivotas voar sobre o Tejo. Senti uma paz estranha — como se finalmente pudesse respirar fundo sem medo do futuro.
Às vezes ainda me pergunto: como é possível alguém mudar tanto sem darmos conta? Como é possível amar alguém durante metade da vida e depois acordar um dia e perceber que já não conhecemos essa pessoa?
Talvez nunca encontre respostas para estas perguntas. Mas aprendi que mereço ser feliz — mesmo depois da maior das traições.