Quando o Passado Bate à Porta: O Dia em que o Meu Nome Ecoou no Vento

— Maria! — ouvi, alto, quase cortando o vento que me gelava o rosto. Parei, o coração disparou, e por um segundo pensei que era só imaginação. Mas não. Aquele timbre, rouco, arrastado, era inconfundível. Virei-me devagar, como se o tempo tivesse abrandado, e vi-o: António. O meu irmão. O mesmo olhar escuro, agora mais cansado, o cabelo grisalho, a barba por fazer. Quarenta anos. Quarenta anos sem uma palavra, sem um postal, sem um telefonema. E ali estava ele, parado junto ao quiosque da Dona Emília, como se nunca tivesse desaparecido.

— Maria, espera! — insistiu, aproximando-se, as mãos trémulas, o casaco velho e puído. — Preciso de falar contigo.

Senti o chão fugir-me dos pés. O passado, que sempre tentei enterrar debaixo de rotinas e silêncios, vinha agora exigir respostas. Olhei em volta, como se alguém pudesse salvar-me daquele momento. Mas era só eu, ele e o vento de novembro.

— O que queres, António? — perguntei, a voz mais fria do que pretendia. — Depois de tudo este tempo, achas mesmo que há algo para dizer?

Ele baixou os olhos, envergonhado. — Eu sei que não tenho desculpa. Mas precisava de te ver. Precisava de te pedir perdão.

A raiva, que julgava ter desaparecido, voltou a crescer dentro de mim. Lembrei-me da mãe, das noites em claro à espera de notícias, do pai a envelhecer de tristeza, das cartas nunca respondidas. Lembrei-me de mim, a irmã mais nova, a tentar ser forte para todos, a esconder as lágrimas no travesseiro.

— Perdão? — repeti, quase a rir de nervosismo. — Achas que basta apareceres e dizeres “desculpa”? Achas que é assim tão simples?

Ele respirou fundo, os olhos húmidos. — Não, não acho. Mas precisava de tentar. Não consegui viver mais com este peso.

O silêncio entre nós era pesado. As pessoas passavam apressadas, indiferentes ao drama que se desenrolava ali, no meio da cidade. Senti vontade de fugir, de voltar para o conforto do meu apartamento, da minha rotina. Mas também senti curiosidade. O que teria acontecido ao António? Porque desapareceu sem deixar rasto? Porque agora?

— Anda — disse, finalmente, com um suspiro. — Vamos tomar um café. Não vou discutir contigo no meio da rua.

Entrámos no café da esquina, o mesmo onde costumávamos ir em pequenos, quando a mãe nos dava moedas para um bolo de arroz. Sentámo-nos junto à janela, em silêncio. Pedi dois cafés, sem açúcar, como sempre gostámos.

— Então? — perguntei, cruzando os braços. — O que aconteceu, António? Porque foste embora?

Ele olhou para as mãos, envergonhado. — Fui cobarde, Maria. Tinha dívidas, meti-me com gente errada. Não queria arrastar-vos comigo. Achei que, se desaparecesse, vocês ficariam a salvo.

— A salvo? — interrompi, sentindo a voz tremer. — A mãe morreu de desgosto, António! O pai nunca mais foi o mesmo. E eu… eu tive de crescer de um dia para o outro. Achas que isso é proteger?

Ele chorava agora, lágrimas silenciosas a escorrerem-lhe pelo rosto. — Eu sei. Sei que falhei convosco. Mas não conseguia voltar. Tinha vergonha. E depois… depois era tarde demais.

O café chegou. Ficámos em silêncio, cada um perdido nos seus pensamentos. Olhei para ele, para o homem que era agora, tão diferente do rapaz rebelde que conheci. Senti pena, mas também raiva. Era justo perdoá-lo? Ou seria melhor manter a distância, proteger-me de mais desilusões?

— O que queres de mim, António? — perguntei, finalmente.

Ele hesitou. — Quero tentar recuperar o tempo perdido. Quero conhecer os meus sobrinhos, se me deixares. Quero… quero voltar a ser teu irmão.

Ri-me, amarga. — Achas que é assim tão fácil? Que podes recuperar quarenta anos com um café?

Ele abanou a cabeça. — Não. Mas quero tentar. Sei que não mereço, mas precisava de te ver. De te dizer que nunca deixei de pensar em vocês.

Ficámos ali, a olhar um para o outro, como dois estranhos. O passado era um muro entre nós, feito de mágoas, silêncios e saudade. Mas, pela primeira vez em muitos anos, senti uma pequena brecha nesse muro. Talvez fosse possível reconstruir alguma coisa. Talvez.

— Tenho de ir — disse, levantando-me. — Preciso de tempo para pensar.

Ele assentiu, resignado. — Eu compreendo. Vou esperar. O tempo que for preciso.

Saí do café, o vento frio a bater-me no rosto. Caminhei pelas ruas de Lisboa, perdida em pensamentos. A cidade parecia diferente, como se o passado tivesse mudado as cores, os cheiros, os sons. Cheguei a casa, sentei-me no sofá, tirei os sapatos e fiquei a olhar para o vazio.

A vida é feita de escolhas, pensei. E se tivesse sido eu a desaparecer? E se fosse eu a pedir perdão? Será que teria coragem de recomeçar?

Agora pergunto-me: será que o tempo cura mesmo todas as feridas? Ou há dores que nunca passam, por mais que tentemos esquecer? O que fariam vocês no meu lugar?