Quando o Meu Pai Decidiu Reformar-se e Viver à Minha Custa: Um Diário de Conflitos e Silêncios
— Filha, já puseste mais café? — a voz do meu pai ecoou pela cozinha, rouca, impaciente, como se cada manhã fosse um teste à minha capacidade de ser filha. O cheiro do café misturava-se com o cheiro a leite morno e fraldas usadas. O bebé chorava no quarto ao lado. Senti o peito apertar-se, como se cada som da casa me esmagasse um pouco mais.
A minha mãe morreu há dois anos. Desde então, o meu pai foi-se apagando, até ao dia em que me disse, sem rodeios: — Vou reformar-me. Não faz sentido continuar a trabalhar. Vou viver contigo, assim ajudas-me e eu ajudo-te com o bebé.
Na altura, pareceu-me justo. Afinal, sempre ouvi dizer que família é para isso mesmo: apoiar-se. Mas nunca imaginei que a reforma dele fosse tão pouco — ou que ele esperasse que eu pagasse tudo: a comida, a luz, até o tabaco escondido no bolso do casaco. Eu estava de licença de maternidade, com um ordenado reduzido, noites mal dormidas e um corpo que ainda não era meu.
— Pai, não posso continuar a pagar tudo — disse-lhe uma noite, enquanto embalava o bebé ao colo. — A minha licença acaba daqui a dois meses e não sei se vou conseguir manter o emprego. O mercado está difícil.
Ele encolheu os ombros, sem olhar para mim. — Sempre trabalhei para ti. Agora é a tua vez.
As palavras ficaram a pairar no ar, pesadas como chumbo. Senti-me pequena, egoísta, ingrata. Mas também revoltada. Porque é que tudo tinha de ser sempre para ele? Porque é que nunca podia ser sobre mim?
Os dias começaram a arrastar-se num ciclo de pequenas discussões e silêncios desconfortáveis. O meu pai criticava tudo: o modo como eu dava banho ao bebé, as horas a que lhe dava de comer, até a forma como arrumava a loiça.
— No meu tempo não era assim — dizia ele. — As mulheres sabiam cuidar da casa.
Eu mordia o lábio para não responder. Por vezes, fechava-me na casa de banho só para respirar fundo e chorar em silêncio. Sentia-me sozinha dentro da minha própria casa.
A minha irmã, a Marta, ligava de vez em quando. — Ele está melhor contigo — dizia ela. — Eu não tenho espaço nem paciência.
— E eu tenho? — perguntei-lhe uma vez, exausta.
Ela suspirou. — És a mais velha. Sempre foste tu a responsável.
Responsável. A palavra soava-me como uma sentença. Era eu quem tinha ficado com as fotografias da família, com as cartas antigas da mãe, com os segredos e as culpas todas.
Uma tarde, depois de uma discussão sobre as contas da água, o meu pai trancou-se no quarto dele e não saiu até ao jantar. O silêncio era tão denso que quase me sufocava. O bebé dormia no meu colo e eu olhava para ele, perguntando-me se algum dia ele me iria culpar por alguma coisa destas.
À noite, sentei-me na varanda com uma manta sobre os ombros. Oiço os vizinhos a rir no andar de baixo, vozes felizes e despreocupadas. Senti inveja deles — da leveza dos seus dias.
O meu pai apareceu à porta da varanda.
— Estás zangada comigo? — perguntou.
Olhei para ele. Vi um homem cansado, envelhecido antes do tempo, perdido sem a mulher que sempre lhe organizou a vida.
— Não estou zangada — menti. — Só estou cansada.
Ele sentou-se ao meu lado em silêncio. Ficámos ali muito tempo sem dizer nada.
Os dias seguintes foram iguais: pequenas discussões sobre dinheiro, tarefas domésticas e educação do bebé. Por vezes ele tentava ajudar — mudava uma fralda ou aquecia um biberão — mas acabava sempre por criticar ou fazer tudo à sua maneira.
Uma noite ouvi-o ao telefone com um amigo:
— A minha filha não entende… Hoje em dia as raparigas só pensam nelas próprias…
Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Não era justo! Eu estava a dar tudo o que podia… E mesmo assim nunca era suficiente.
Comecei a evitar estar em casa. Saía para passear com o bebé durante horas, só para respirar ar puro e não ouvir as críticas do meu pai. Às vezes encontrava vizinhas no parque:
— O teu pai está contigo agora? Deve ser bom ter ajuda em casa…
Sorria por educação, mas por dentro gritava: “Ajuda? Ele só me dá trabalho!”
Certa manhã acordei com o som da televisão alta na sala. O meu pai estava sentado no sofá, de robe, rodeado de chávenas sujas e migalhas de pão.
— Pai… — comecei eu, mas ele interrompeu-me:
— Não me chateies logo de manhã! Já basta ter deixado tudo para trás para vir para aqui…
Fiquei sem palavras. Senti-me culpada por desejar que ele fosse embora. Mas também sentia raiva por ele nunca reconhecer o esforço que fazia.
O bebé começou a chorar e fui buscá-lo ao quarto. Abracei-o com força, como se pudesse protegê-lo não só do frio da manhã mas também das mágoas da família.
Nessa noite liguei à Marta:
— Não aguento mais — confessei-lhe entre lágrimas. — Sinto-me sufocada na minha própria casa.
Ela ficou em silêncio durante uns segundos antes de responder:
— Talvez esteja na altura de lhe dizeres isso…
Passei dias a pensar nisso. Como é que se diz ao próprio pai que já não há espaço para ele? Que preciso de cuidar do meu filho e de mim?
Finalmente ganhei coragem numa tarde chuvosa de domingo. O meu pai estava sentado à mesa da cozinha, a olhar pela janela.
— Pai… precisamos de conversar.
Ele olhou para mim com desconfiança.
— Eu não consigo continuar assim — disse-lhe, tentando controlar as lágrimas. — Preciso do meu espaço… Preciso de cuidar do meu filho sem sentir este peso todos os dias.
Ele ficou calado durante muito tempo. Depois levantou-se devagar e foi buscar um maço de tabaco ao bolso do casaco.
— Então queres que eu vá embora? — perguntou num tom magoado.
— Não é isso… Só quero que percebas que também preciso de ti… Mas não desta maneira. Preciso que sejas meu pai, não mais uma responsabilidade.
Ele abanou a cabeça e saiu para a rua sem dizer mais nada.
Nessa noite não dormi. Ouvia cada som da casa como se fosse um presságio do fim de alguma coisa importante.
No dia seguinte ele voltou para casa com um saco de compras na mão e um olhar diferente.
— Comprei peixe para o jantar — disse apenas.
Não falámos mais sobre o assunto durante dias. Mas aos poucos as coisas começaram a mudar: ele começou a ajudar mais sem criticar tanto; eu comecei a confiar-lhe pequenas tarefas sem medo do julgamento dele.
Ainda discutimos muitas vezes — sobre dinheiro, sobre o passado, sobre as escolhas que fizemos ou deixámos por fazer. Mas agora há mais silêncios confortáveis do que silêncios pesados.
Às vezes pergunto-me: até onde vai o nosso dever para com a família? Quando é que temos direito ao nosso próprio espaço e felicidade? Será egoísmo querer ser feliz sem carregar o peso dos outros?