Quando o meu marido levou toda a comida para a mãe dele – um drama familiar português
— Não acredito, Rui! — gritei, a voz embargada pela raiva e pela incredulidade, ao ver o frigorífico vazio. O cheiro do arroz de pato ainda pairava no ar, misturado com o aroma doce do leite-creme que tinha acabado de queimar com o ferro. Passei horas na cozinha, a pensar que finalmente teríamos um jantar em família, depois de semanas de silêncios e desencontros. Mas agora, tudo tinha desaparecido.
Rui entrou na cozinha, evitando o meu olhar. Trazia ainda as chaves do carro na mão, como se estivesse pronto para fugir de novo. — A minha mãe precisava — murmurou, quase inaudível.
— E nós? E os miúdos? — perguntei, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. O João e a Matilde estavam na sala, a ver desenhos animados, alheios à tempestade que se formava na cozinha.
Rui encolheu os ombros. — Ela está sozinha desde que o meu pai morreu. Não tem ninguém. — A voz dele soava cansada, mas fria, como se eu fosse egoísta por sequer questionar.
Sentei-me à mesa, as mãos trémulas. Lembrei-me de todas as vezes que tentei agradar à minha sogra, Dona Amélia. Os bolos que levava aos domingos, os presentes no Natal, os telefonemas para saber se precisava de alguma coisa. Mas nada parecia suficiente. Ela olhava-me sempre com desconfiança, como se eu tivesse roubado o filho dela.
Naquela noite, dei arroz de atum às crianças e disse-lhes que era um jantar especial de piquenique. Fingi um sorriso enquanto eles riam e faziam perguntas sobre o pato que tinham visto no forno mais cedo. Rui não jantou connosco. Saiu para fumar no quintal e ficou lá até tarde.
Os dias seguintes foram um arrastar de silêncios e pequenas discussões. Cada vez que tentava falar sobre o assunto, Rui fechava-se ainda mais. — Não percebes o que é perder um pai — atirou uma noite, quando tentei explicar como me sentia desrespeitada.
— E tu não percebes o que é sentir-me invisível nesta casa — respondi, a voz embargada.
A tensão foi crescendo até ao domingo seguinte. Dona Amélia apareceu sem avisar, com um tupperware vazio na mão e um olhar crítico para a minha cozinha desarrumada.
— O Rui disse-me que não tens tido muito tempo para cozinhar — comentou ela, pousando o recipiente em cima da bancada.
Senti o sangue ferver-me nas veias. — Tenho cozinhado todos os dias. Só que às vezes a comida desaparece antes de chegar à mesa.
Ela ergueu uma sobrancelha fina e sorriu de lado. — O Rui sempre foi muito generoso. Herdou isso do pai dele.
Quis gritar-lhe que generosidade não era tirar da boca dos filhos para alimentar uma mágoa antiga. Mas calei-me. Senti-me pequena, esmagada entre dois mundos: o da família que criei e o da família que me foi imposta.
Nessa noite, depois de deitar as crianças, sentei-me na varanda com um copo de vinho barato. Oiço Rui ao telefone com a mãe dele, a prometer-lhe mais sopa para a semana seguinte. Senti uma raiva surda crescer dentro de mim — não só por ele, mas por mim mesma, por ter deixado chegar a este ponto.
Lembrei-me da minha mãe, Maria do Carmo, sempre tão forte depois do divórcio do meu pai. Lembrei-me das vezes em que ela dizia: “Nunca deixes ninguém fazer-te sentir menos do que és.” Mas ali estava eu, a viver à sombra das necessidades dos outros.
Na segunda-feira seguinte, acordei cedo e fui ao mercado da Dona Lurdes. Comprei legumes frescos e peixe para fazer caldeirada — o prato preferido do João. Passei a manhã a cozinhar e a pensar no que diria ao Rui quando ele chegasse.
Quando ele entrou em casa ao fim da tarde, sentei-o à mesa antes mesmo de tirar o casaco.
— Hoje vamos falar — disse-lhe, sem rodeios.
Ele olhou-me surpreendido. — Sobre quê?
— Sobre nós. Sobre esta casa. Sobre a tua mãe.
Rui suspirou e passou as mãos pelo rosto. — Não quero discutir outra vez.
— Não é discussão — insisti. — É respeito. Preciso que escolhas: ou somos uma família juntos ou continuas a viver entre duas casas.
Ele ficou calado durante tanto tempo que pensei que ia levantar-se e sair. Mas ficou ali sentado, os olhos postos na toalha manchada de vinho.
— Não quero perder-te — murmurou finalmente. — Mas também não posso deixar a minha mãe sozinha.
— Não te peço isso — respondi suavemente. — Só te peço que me respeites. Que respeites os nossos filhos. Que não me faças sentir uma intrusa na minha própria casa.
Ele assentiu devagar e prometeu tentar mudar. Mas as promessas são fáceis quando se está encurralado.
As semanas passaram e as coisas melhoraram um pouco. Rui começou a avisar quando levava comida à mãe e passou a ajudar mais em casa. Mas Dona Amélia continuava a aparecer sem avisar, sempre com aquele ar de quem avalia tudo à sua volta.
Um sábado à tarde, enquanto limpava o pó da sala, ouvi-a dizer ao Rui: — Ela nunca vai ser como eu esperava para ti.
Senti um nó na garganta e larguei o pano no chão. Entrei na sala e encarei-a pela primeira vez.
— Dona Amélia, sei que nunca vou ser suficiente para si. Mas sou suficiente para mim e para os meus filhos. E isso basta-me.
Ela olhou-me com surpresa e depois desviou o olhar. Rui ficou calado, mas vi nos olhos dele um misto de orgulho e medo.
Nessa noite dormi melhor do que em muitos meses. Pela primeira vez senti que tinha recuperado um pedaço de mim mesma.
Hoje olho para trás e vejo como foi fácil perder-me nas necessidades dos outros — do Rui, da Dona Amélia, até dos meus filhos. Mas também vejo como foi difícil encontrar coragem para me defender.
Pergunto-me: quantas mulheres portuguesas vivem assim, divididas entre agradar aos outros e serem fiéis a si próprias? Quantas vezes calamos a nossa voz para manter uma paz frágil? E será que vale mesmo a pena?