Quando o Daan Trouxe o Pequeno Tomás para Casa: O Meu Mundo Virou do Avesso
— Não podes simplesmente aparecer aqui com uma criança, Daan! — gritei, a voz a tremer, enquanto ele pousava a mochila azul do Tomás no chão da sala. O miúdo olhava para mim com uns olhos enormes, assustados, agarrado ao boneco de peluche como se fosse o seu único porto seguro. O Daan, por sua vez, parecia mais velho, cansado, como se tivesse envelhecido anos numa só noite.
— Marta, eu não tinha escolha. A mãe do Tomás… ela foi-se embora. Disse que precisava de tempo, que não conseguia lidar com tudo isto. Eu não podia deixá-lo sozinho — respondeu, a voz baixa, quase um sussurro, como se tivesse medo de acordar um monstro adormecido dentro de mim.
O meu coração batia descompassado. Sete anos. Sete anos de segredo. Como é que nunca soube que o Daan tinha um filho? Como é que ele conseguiu esconder-me isto durante tanto tempo? Senti-me traída, humilhada, mas acima de tudo, perdida. Olhei para o Tomás e vi nele um reflexo de tudo o que eu não sabia sobre o homem com quem partilhava a vida.
— E agora? O que é que esperas que eu faça? — perguntei, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam cair.
O Daan aproximou-se, tentou tocar-me no ombro, mas eu afastei-me. Não queria sentir o calor da sua mão, não queria perdoar tão facilmente. Ele suspirou, resignado.
— Só preciso que me ajudes, Marta. Só isso. Não sei o que fazer. Ele é meu filho, mas eu mal o conheço. E tu… tu és a pessoa mais importante da minha vida. Preciso de ti.
As palavras dele ecoaram na minha cabeça durante dias. O Tomás ficou connosco, claro. Não havia alternativa. Mas a casa, antes tão cheia de risos e cumplicidade, tornou-se um campo de batalha silencioso. O Tomás era um estranho, e eu sentia-me uma intrusa na minha própria casa.
As manhãs eram as piores. O Tomás sentava-se à mesa, calado, a mexer no leite com chocolate, enquanto o Daan tentava, desajeitadamente, puxar conversa.
— Dormiste bem, Tomás? — perguntava ele, forçando um sorriso.
O miúdo encolhia os ombros, sem nunca me olhar nos olhos. Eu sentia-me invisível, como se a minha presença fosse um incómodo. E, no fundo, talvez fosse mesmo.
Os dias passaram, e a tensão só aumentava. O Daan chegava tarde do trabalho, e eu ficava sozinha com o Tomás. Tentava ser simpática, mas tudo soava falso, forçado. Uma noite, enquanto lhe preparava o jantar, ouvi-o chorar no quarto. Fui até lá, hesitante, e bati à porta.
— Tomás? Está tudo bem?
Não houve resposta. Entrei devagarinho e vi-o encolhido na cama, a chorar baixinho, o boneco de peluche apertado contra o peito.
— Queres falar comigo? — perguntei, sentando-me na beira da cama.
Ele abanou a cabeça, mas não consegui sair dali. Senti uma onda de compaixão, misturada com raiva — raiva da mãe dele, do Daan, de mim própria. Passei-lhe a mão pelo cabelo, e ele não se afastou. Ficámos assim, em silêncio, até ele adormecer.
Nessa noite, chorei sozinha na casa de banho. Senti-me egoísta por não conseguir aceitar o Tomás, por não conseguir ser a mulher forte que o Daan precisava. Mas como podia ser, se nem eu sabia quem era naquele momento?
Os conflitos começaram a surgir entre mim e o Daan. Pequenas discussões transformavam-se em tempestades. Uma noite, depois de o Tomás adormecer, explodi.
— Achas justo? Achas mesmo justo teres escondido isto de mim? Eu merecia saber, Daan! Merecia poder escolher!
Ele olhou para mim, exausto.
— Eu sei, Marta. Mas tive medo. Medo de te perder. Medo de não seres capaz de aceitar…
— E agora? Achas que não te perdi? — perguntei, a voz embargada.
Ele não respondeu. Ficámos ali, sentados no sofá, separados por um abismo de mágoa e silêncio.
Os meus pais, quando souberam, ficaram em choque. A minha mãe ligou-me todos os dias, preocupada.
— Marta, tens de pensar em ti. Não podes carregar o mundo às costas. O Daan enganou-te. Não podes simplesmente perdoar e seguir em frente.
Mas eu não sabia o que fazer. Sentia-me presa entre o passado e o futuro, sem saber onde pertencia.
O Tomás começou a adaptar-se, devagarinho. Um dia, trouxe-me um desenho. Era uma casa, com três pessoas de mãos dadas. Eu, o Daan e ele. O meu coração derreteu-se, mas também se partiu um bocadinho mais.
— Foste tu que desenhaste isto, Tomás?
Ele acenou com a cabeça, tímido.
— Gosto de ti, Marta — murmurou, quase impercetível.
Abracei-o, e pela primeira vez, senti que talvez houvesse esperança. Mas a dor da traição continuava lá, como uma ferida aberta.
O tempo foi passando, e as rotinas foram-se ajustando. O Daan esforçava-se por ser um bom pai, mas eu via o medo nos olhos dele. Medo de me perder, medo de falhar com o filho. Eu própria sentia-me dividida entre o amor e a mágoa.
Uma tarde, o Daan chegou mais cedo a casa. Encontrou-me na cozinha, a preparar o jantar.
— Marta, precisamos de conversar.
Assenti, sem o encarar.
— Eu sei que te magoei. Sei que não mereço o teu perdão. Mas quero tentar. Quero construir uma família contigo e com o Tomás. Só te peço uma oportunidade.
Olhei para ele, e vi o homem por quem me apaixonei, mas também vi todas as mentiras, todos os segredos. Não sabia se era capaz de perdoar, mas sabia que não queria desistir sem lutar.
— Não prometo nada, Daan. Mas vou tentar. Por nós. Por ele.
Os dias seguintes foram um teste à minha paciência, à minha capacidade de amar. O Tomás começou a confiar em mim, a procurar-me para lhe ler histórias antes de dormir, a pedir-me ajuda com os trabalhos da escola. O Daan esforçava-se por ser presente, por reparar os estragos do passado.
Mas havia dias em que tudo parecia demasiado. Em que me sentia sufocada, perdida. Nesses dias, pensava em ir embora, em recomeçar do zero. Mas depois olhava para o Tomás, para o Daan, e sentia que talvez o amor fosse isto: aceitar as imperfeições, lutar mesmo quando tudo parece perdido.
Uma noite, depois de deitar o Tomás, sentei-me na varanda, a olhar para as luzes da cidade. O Daan juntou-se a mim, em silêncio. Ficámos ali, lado a lado, sem palavras, mas com a esperança de que, juntos, talvez conseguíssemos reconstruir o que foi destruído.
Hoje, olho para trás e vejo o quanto cresci, o quanto mudámos todos. O Tomás já me chama de “madrasta”, e às vezes até me abraça sem motivo. O Daan e eu ainda temos discussões, ainda há mágoa, mas também há amor, há vontade de seguir em frente.
Pergunto-me muitas vezes: será que algum dia vou conseguir perdoar completamente? Será que é possível reconstruir uma família a partir dos cacos de tantas mentiras? Talvez nunca saiba a resposta. Mas sei que, enquanto houver amor, vale a pena tentar. E vocês, o que fariam no meu lugar? Conseguiriam perdoar e recomeçar?