Quando o coração não consegue perdoar: A minha fuga com o meu bebé e a luta por mim mesma

— Não grites, por favor! — sussurrei, tentando não acordar o Tomás, que dormia no berço improvisado ao lado da nossa cama. Mas o Rui já não me ouvia. A sua voz ecoava pela casa, misturando raiva e frustração, como se cada palavra fosse uma pedra atirada contra mim.

— Sempre a mesma história, Mariana! Achas que és a única cansada? Eu também trabalho, sabes? — atirou ele, os olhos vermelhos de noites mal dormidas e de um ressentimento que já não conseguíamos disfarçar.

Olhei para ele e vi um estranho. O homem por quem me apaixonei na faculdade, com quem sonhei construir uma família, já não estava ali. Em vez disso, havia alguém que me culpava por tudo: pelo choro do bebé, pela casa desarrumada, pelo jantar atrasado, até pelo silêncio entre nós.

Apertei o Tomás contra o peito quando ele começou a choramingar. O meu coração batia tão forte que parecia querer saltar do peito. Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto, mas limpei-as depressa. Não podia mostrar fraqueza. Não agora.

— Mariana, não chores. Já chega de dramas — disse ele, revirando os olhos. — Se não aguentas, vai-te embora.

Aquelas palavras ficaram a ecoar-me na cabeça durante horas. “Se não aguentas, vai-te embora.” Como se fosse assim tão simples. Como se eu não tivesse medo do mundo lá fora, sozinha com um bebé de três meses. Como se eu não tivesse medo de mim mesma.

Naquela noite, sentei-me no chão da casa de banho, com o Tomás ao colo. Oiço ainda hoje o som do chuveiro a correr para abafar os meus soluços. Lembrei-me da minha mãe, da força dela quando o meu pai saiu de casa sem olhar para trás. “Nunca deixes ninguém fazer-te sentir menos do que és”, dizia ela. Mas eu sentia-me tão pequena.

No dia seguinte, tentei falar com o Rui. Esperei que ele acordasse e preparasse o café, como fazia antes de tudo isto desabar.

— Rui, precisamos de conversar — comecei, a voz trémula.

Ele nem levantou os olhos do telemóvel.

— Agora não posso. Tenho uma reunião daqui a pouco.

— Isto não pode continuar assim — insisti. — Eu sinto-me sozinha nesta casa. Sinto que já não somos uma família.

Ele suspirou, impaciente.

— Mariana, toda a gente passa por isto. Tens de te habituar. Não é fácil para ninguém.

Mas eu sabia que não era só isso. Sabia que havia algo partido entre nós que já não conseguíamos colar. E naquele momento percebi: a solidão em companhia dói mais do que qualquer solidão no mundo.

Durante dias vivi num limbo. Acordava com o Tomás ao meu lado e fingia para mim mesma que era capaz de aguentar mais um dia. Mas cada vez que o Rui chegava a casa e me olhava como se eu fosse um fardo, sentia-me a afundar mais um pouco.

A gota de água foi numa noite chuvosa de novembro. O Tomás estava com febre e eu pedi ao Rui para ir à farmácia buscar Ben-u-ron.

— Vai tu! — respondeu ele, sem desviar os olhos da televisão.

— Não posso sair com ele assim! — implorei.

Ele levantou-se bruscamente e saiu porta fora sem dizer palavra. Voltou duas horas depois, bêbado e com cheiro a tabaco. Não trouxe nada para o Tomás.

Nessa noite tomei uma decisão. Esperei que ele adormecesse no sofá e comecei a arrumar as minhas coisas em silêncio. Peguei no Tomás, embrulhei-o numa manta azul e saí porta fora sem olhar para trás.

A rua estava deserta e fria. O vento cortava-me a cara enquanto caminhava até à paragem do autocarro. Senti medo como nunca tinha sentido antes. Medo do futuro, medo de falhar como mãe, medo de nunca mais ser feliz.

Fui para casa da minha irmã, Inês. Quando ela abriu a porta e me viu com o Tomás ao colo, desfeita em lágrimas, abraçou-me sem fazer perguntas.

— Fica aqui o tempo que precisares — disse ela. — Não estás sozinha.

Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções. O Rui ligou-me dezenas de vezes, deixou mensagens cheias de raiva e acusações.

— És uma ingrata! — gritava ele numa das chamadas que atendi por impulso. — Vais arrepender-te disto!

Desliguei-lhe na cara e chorei tudo outra vez.

A minha mãe veio de Viseu para me ajudar. Sentou-se comigo na cozinha da Inês e ouviu-me desabafar durante horas.

— Filha, foste corajosa — disse ela, apertando-me as mãos com força. — Agora tens de pensar em ti e no Tomás.

Mas nem todos na família compreenderam. O meu pai criticou-me por “destruir uma família” e a minha tia Rosa ligou-me só para dizer que “as mulheres hoje em dia já não sabem sofrer”.

Senti-me julgada por todos os lados: pela família, pelos vizinhos que cochichavam quando me viam entrar sozinha no prédio da Inês, até pelas mães do parque infantil que olhavam para mim com pena ou desconfiança.

Houve dias em que pensei voltar atrás. Lembrava-me dos momentos bons com o Rui: as férias no Algarve antes do Tomás nascer, as noites em que sonhávamos juntos com o futuro. Mas depois lembrava-me das palavras dele, do vazio nos olhos dele quando olhava para mim.

Comecei a procurar trabalho para poder alugar um quarto só para mim e para o Tomás. Enviei currículos para todo o lado: supermercados, cafés, lojas de roupa. Fui rejeitada vezes sem conta por ser mãe solteira e não ter onde deixar o bebé.

Uma tarde chuvosa fui chamada para uma entrevista numa pastelaria perto da escola onde estudei em miúda. A dona era uma senhora chamada Dona Amélia, conhecida pelo coração grande mas também pela língua afiada.

— És filha da Teresa? — perguntou ela assim que entrei.

Assenti timidamente.

— A tua mãe sempre foi mulher de coragem — disse ela, sorrindo pela primeira vez. — Vais começar amanhã às sete da manhã.

Chorei de alívio quando saí dali. Pela primeira vez em meses senti esperança.

Os primeiros tempos foram duros: acordava às cinco da manhã para deixar o Tomás com a Inês antes de ir trabalhar; voltava exausta ao fim do dia mas sempre com um sorriso para ele. Aprendi a fazer bolos e cafés como ninguém e até comecei a gostar dos clientes habituais: o senhor António que lia sempre o jornal desportivo; a Dona Lurdes que me dava conselhos sobre bebés; os miúdos da escola secundária que vinham comprar croissants antes das aulas.

O Rui tentou ver o Tomás algumas vezes mas nunca apareceu nas datas combinadas. Mandava mensagens contraditórias: ora dizia que queria voltar para mim, ora ameaçava levar-me a tribunal pela guarda do filho.

Tive medo durante muito tempo: medo de perder o Tomás, medo de nunca conseguir perdoar o Rui nem a mim própria por ter deixado tudo desmoronar.

Mas aos poucos fui percebendo que estava a construir algo novo: uma vida só minha, onde cada pequena vitória era conquistada à força de lágrimas mas também de coragem.

Um dia sentei-me no banco do jardim enquanto o Tomás dormia no carrinho ao meu lado e escrevi uma carta ao Rui (que nunca cheguei a enviar):

“Perdoar não é esquecer nem fingir que nada aconteceu. É aceitar que mereço mais do que aquilo que vivi contigo. É dar ao nosso filho uma mãe inteira e não apenas metade do que sou.”

Hoje olho para trás e vejo tudo aquilo por que passei: as noites sem dormir, os julgamentos da família e dos vizinhos, os dias em que pensei desistir de tudo. Mas também vejo a força que descobri em mim própria e o amor imenso pelo meu filho.

Às vezes pergunto-me se algum dia serei capaz de perdoar verdadeiramente o Rui ou até a mim mesma por ter esperado tanto tempo para sair daquela prisão invisível chamada casamento infeliz.

E vocês? Acham mesmo que é possível perdoar quem nos magoou tanto? Ou será que há feridas que nunca saram completamente?