Quando o Amor Tem Preço: O Dia em que a Minha Mãe Pediu Dinheiro para Cuidar da Minha Filha
— Rita, precisamos conversar — disse a minha mãe, Maria do Carmo, com uma voz que eu nunca tinha ouvido antes, seca e distante, enquanto pousava o pano de loiça na bancada. O relógio da cozinha marcava 19h12, e a minha filha Leonor brincava no tapete da sala, alheia à tempestade que se preparava.
— O que se passa, mãe? — perguntei, sentindo um aperto no peito. Tinha acabado de chegar do trabalho, cansada, mas feliz por ver a minha filha bem cuidada, como sempre.
Ela hesitou, olhou para as mãos, depois para mim. — Rita, eu já não sou nova. Cuidar da Leonor todos os dias… é muito. E, sinceramente, acho que está na altura de falarmos sobre uma compensação. Não posso continuar a fazer isto de graça.
O mundo parou. Senti o sangue gelar-me nas veias. — Compensação? Estás a pedir dinheiro para tomares conta da tua neta?
— Não é isso, filha. Mas tu sabes como estão as coisas. A reforma mal chega para as contas, a luz subiu, o gás… E eu deixo de fazer muita coisa para estar aqui. Não é justo.
A minha cabeça rodopiava. Sempre achei que o amor de uma avó era incondicional, que o tempo que passava com a neta era um privilégio, não um fardo. — Mãe, eu… não sei o que dizer. Nunca pensei ouvir isto de ti.
Ela suspirou, cansada. — Eu também nunca pensei ter de pedir. Mas não aguento mais. Preciso de ajuda, Rita. Ou arranjas outra solução, ou…
O silêncio caiu pesado entre nós. Leonor, com os seus caracóis dourados, correu para mim, abraçando-me as pernas. — Mamã, brincas comigo?
Ajoelhei-me, abraçando-a com força. O cheiro a bolachas acabadas de fazer, o calor da casa da minha infância, tudo parecia agora distante, quase irreal. — Já vou, meu amor.
Naquela noite, não consegui dormir. O João, meu marido, virou-se para mim na cama. — O que é que se passa? Estás estranha.
— A minha mãe quer dinheiro para ficar com a Leonor. — Disse as palavras como quem cospe veneno. — Não sei o que fazer.
Ele ficou em silêncio, depois encolheu os ombros. — Rita, ela tem razão. Não é fácil. E nós também não lhe damos nada. Achas justo?
— Não se trata de justiça, João! É a minha mãe! É a avó da Leonor! — Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. — O que é que mudou? Porque é que agora tudo tem de ser pago?
No dia seguinte, fui trabalhar com os olhos inchados. No escritório, a minha colega Sofia percebeu logo que algo não estava bem. — O que se passa, Rita?
— A minha mãe pediu-me dinheiro para ficar com a Leonor. — Disse, quase sussurrando, como se fosse uma vergonha.
Sofia abanou a cabeça. — Olha, a minha sogra também pediu. No início fiquei chocada, mas depois percebi. Elas também têm vida, contas, sonhos. Não são obrigadas.
— Mas… e o amor? — perguntei, sentindo-me uma criança perdida.
— O amor não paga contas, Rita. — respondeu ela, pragmática.
Durante dias, evitei a minha mãe. Levava Leonor à creche, mesmo sabendo que o dinheiro era apertado. O João começou a fazer contas, a cortar nos pequenos luxos. O ambiente em casa tornou-se tenso, pesado. Leonor perguntava pela avó, e eu não sabia o que responder.
Uma noite, depois de deitar a Leonor, sentei-me à mesa da cozinha com o João. — Não aguento mais isto. Sinto-me traída. Como é que a minha mãe pôde fazer-me isto?
Ele pousou a mão na minha. — Rita, ela não te traiu. Só está a ser honesta. Talvez devesses falar com ela. Ou vais perder as duas: a tua mãe e a tua filha.
No sábado, criei coragem. Fui a casa da minha mãe. Ela abriu a porta, o rosto cansado, os olhos vermelhos.
— Mãe, podemos falar?
Sentámo-nos à mesa. O silêncio era cortante.
— Eu não queria que isto acontecesse, Rita. Mas estou cansada. Sinto-me sozinha. Sinto que só sirvo para tomar conta da Leonor. E quando tu chegas, vais logo embora, nem perguntas como estou. — A voz dela tremia.
— Mãe, desculpa. Eu nunca pensei… — As lágrimas caíam-me pelo rosto. — Eu só queria que tudo fosse como antes. Que estivéssemos juntas, felizes.
Ela sorriu, triste. — Antes eu era mais nova, Rita. Agora dói-me tudo. E às vezes sinto que ninguém vê.
Ficámos ali, de mãos dadas, a chorar em silêncio. Pela primeira vez, vi a minha mãe como uma mulher, não só como mãe ou avó. Uma mulher com dores, cansaço, sonhos adiados.
— Podemos tentar encontrar um meio-termo? — perguntei. — Eu ajudo-te mais, pago-te o que puder, mas… não quero perder-te.
Ela assentiu. — Eu também não quero perder-vos. Só quero ser vista, Rita. Só quero sentir que ainda sou importante.
Voltámos a falar, a rir, a partilhar. Combinei com o João que, mesmo com sacrifícios, iríamos ajudar a minha mãe. E, acima de tudo, prometi a mim mesma nunca mais tomar o amor dela como garantido.
Hoje, olho para a Leonor a brincar com a avó e pergunto-me: quantas vezes esquecemos que as pessoas que mais amamos também precisam de ser cuidadas? Será que o amor tem preço, ou é a falta de reconhecimento que o faz pesar tanto?