Quando o Amor Dói: Confissões de uma Mulher de Lisboa

— Mariana, precisamos de conversar. — A voz do Miguel soou fria, quase distante, enquanto pousava o telemóvel na mesa da cozinha. O relógio marcava 22h17 e eu já sentia o coração apertado, como se pressentisse que aquela noite não acabaria bem.

Olhei para ele, tentando decifrar-lhe o rosto. Mas era impossível. O Miguel, com quem partilhava a vida há quase dez anos, parecia-me agora um estranho. O silêncio entre nós era pesado, cortante. Tentei sorrir, mas a minha voz saiu trémula:

— O que se passa?

Ele desviou o olhar, fitando o chão. — Não sei como te dizer isto…

Foi nesse momento que vi o ecrã do telemóvel aceso. Uma notificação de mensagem: “Saudades tuas…”. O nome era de uma tal de Sofia. Senti um frio a percorrer-me a espinha. Peguei no telemóvel antes que ele pudesse impedir-me. As mãos tremiam-me enquanto lia as mensagens. Palavras doces, promessas, desejos partilhados. O chão fugiu-me dos pés.

— Miguel… quem é a Sofia?

Ele tentou tirar-me o telemóvel das mãos, mas eu recuei. — Diz-me! — gritei, a voz embargada pelas lágrimas que já me escorriam pelo rosto.

— Não é nada do que estás a pensar… — murmurou ele, mas eu já não conseguia ouvir mais nada. O mundo à minha volta tornou-se um zumbido distante. Sentei-me à mesa, as pernas incapazes de me susterem.

Aquela noite foi longa. Discutimos, chorámos, acusámo-nos mutuamente de tudo o que estava mal no nosso casamento. Ele jurou que não tinha passado de mensagens, que nunca se encontraram. Mas como acreditar? Como confiar depois daquilo?

Nos dias seguintes, tentei manter-me funcional. Tinha de levar os miúdos à escola, ir trabalhar no escritório de advogados onde era assistente jurídica, fingir normalidade perante os colegas e amigos. Mas por dentro sentia-me vazia, como se alguém tivesse arrancado uma parte de mim.

A minha mãe ligava-me todos os dias. — Mariana, estás tão calada… aconteceu alguma coisa? — perguntava ela com aquela preocupação típica das mães portuguesas.

— Está tudo bem, mãe — mentia eu, incapaz de partilhar a vergonha e a dor.

Mas não estava tudo bem. A casa tornou-se um campo de batalha silencioso. O Miguel tentava aproximar-se, mas eu afastava-o. À noite, fingíamos dormir lado a lado, mas havia um abismo entre nós.

Uma tarde, ao buscar os miúdos à escola, encontrei a minha amiga Inês. Ela olhou para mim com aquele olhar perscrutador.

— Mariana, tu não estás bem… Queres falar?

Desabei ali mesmo no banco do jardim da escola. Contei-lhe tudo entre soluços. Ela abraçou-me e disse:

— Tens de pensar em ti primeiro. Não deixes que te destruam.

As palavras dela ecoaram em mim durante dias. Comecei a questionar tudo: o meu casamento, as minhas escolhas, até a minha própria identidade. Quem era eu sem o Miguel? Será que alguma vez fui feliz ou apenas me acomodei à rotina?

Os miúdos começaram a perceber que algo não estava bem. O João, com apenas oito anos, perguntou-me uma noite:

— Mãe, porque é que tu e o pai já não riem juntos?

O nó na garganta apertou-se ainda mais. Como explicar a uma criança que o amor às vezes dói? Que as pessoas erram e magoam quem mais amam?

O Miguel sugeriu terapia de casal. Aceitei, mais por desespero do que por esperança. As sessões eram dolorosas; cada palavra parecia abrir uma ferida nova.

— Mariana, porque acha que não consegue perdoar? — perguntou a terapeuta.

Olhei para o Miguel e respondi:

— Porque não sei se ele merece o meu perdão… ou se eu sou capaz de voltar a confiar.

A verdade é que eu própria já não sabia quem era aquela mulher no espelho. A Mariana alegre e confiante tinha desaparecido, dando lugar a alguém desconfiado e amargurado.

Os meus pais começaram a perceber que algo estava errado. Um domingo ao almoço, o meu pai olhou-me nos olhos e disse:

— Filha, não tens de carregar o mundo às costas sozinha.

Chorei como há muito não chorava. Senti-me criança outra vez, desejando apenas colo e proteção.

As semanas passaram e nada melhorava. O Miguel continuava em casa, mas era como se vivêssemos em universos paralelos. Os miúdos tornaram-se mais irrequietos; até as notas do João começaram a baixar.

Uma noite, depois de todos dormirem, sentei-me na varanda com uma manta sobre os ombros e um copo de vinho na mão. Olhei para as luzes da cidade e pensei em fugir dali, recomeçar noutro lugar qualquer onde ninguém me conhecesse.

Mas depois ouvi o riso dos meus filhos no quarto ao lado e percebi que não podia simplesmente desistir.

Decidi confrontar o Miguel uma última vez.

— Preciso saber toda a verdade — disse-lhe sem rodeios. — Preciso saber se ainda há algo entre vocês.

Ele hesitou antes de responder:

— Não há nada agora… mas houve sentimentos. Eu senti-me sozinho, perdido…

As palavras dele magoaram-me mais do que qualquer traição física poderia ter feito.

— E eu? Nunca pensaste em como me sentiria? — perguntei-lhe com raiva contida.

Ele baixou a cabeça:

— Desculpa…

Naquela noite tomei uma decisão: precisava de tempo para mim. Pedi-lhe que saísse de casa durante uns tempos.

Os meus pais apoiaram-me; a minha mãe veio ajudar com os miúdos e as tarefas domésticas. Senti-me culpada por lhes causar preocupação, mas também aliviada por finalmente assumir o controlo da minha vida.

Durante esse tempo sozinha, redescobri pequenas coisas que me davam prazer: ler um livro na esplanada do bairro, passear junto ao Tejo ao fim da tarde, ouvir música alta enquanto cozinhava para os miúdos.

Comecei também a escrever num diário todas as noites. As palavras ajudavam-me a organizar os pensamentos e a libertar emoções reprimidas há anos.

O Miguel continuava a ligar-me todos os dias; dizia que sentia saudades dos miúdos e de mim. Mas eu precisava de espaço para perceber se ainda havia amor ou apenas medo da solidão.

A Inês foi incansável; levava-me ao cinema ou simplesmente ficávamos horas a conversar sobre tudo e nada.

Um dia levei os miúdos ao Oceanário; vi-lhes os olhos brilharem ao verem os peixes coloridos e percebi que ainda havia felicidade possível na nossa vida — mesmo sem o Miguel ao nosso lado.

Depois de dois meses separados, aceitei encontrar-me com ele num café discreto em Campo de Ourique.

— Mariana… — começou ele — Eu errei muito contigo. Sei que te magoei profundamente e não sei se algum dia vais conseguir perdoar-me…

Olhei-o nos olhos e vi arrependimento sincero. Mas também percebi que já não era aquela mulher dependente dele para ser feliz.

— Preciso de tempo — respondi-lhe calmamente — Tempo para perceber quem sou sem ti.

Voltámos a casa juntos nessa noite apenas para explicar aos miúdos o que estava a acontecer. Eles choraram; eu chorei com eles. Mas prometi-lhes que tudo iria ficar bem.

Hoje continuo sem respostas definitivas. O Miguel tenta reconquistar-me todos os dias; eu tento perdoar-lhe aos poucos — mas acima de tudo tento perdoar-me por ter deixado chegar este ponto.

Às vezes pergunto-me: será possível reconstruir um amor depois da traição? Ou será melhor aprender a ser feliz sozinha?

E vocês? Já sentiram esta dor? O que fariam no meu lugar?