Quando a Noite Caiu Sobre Nós: O Dia em que Perdi o Meu Filho
— Não me peças para te perdoar, Miguel! Não consigo! — gritei, com a voz embargada, enquanto a chuva batia furiosamente nas janelas do nosso apartamento em Almada. O cheiro a terra molhada misturava-se com o odor frio do hospital que ainda sentia na pele. O Miguel estava sentado no sofá, as mãos na cabeça, os olhos vermelhos de tanto chorar. A Inês, nossa filha de quatro anos, dormia no quarto ao lado, alheia ao inferno que se abatia sobre nós.
Naquela noite, perdi o meu filho Tomás. Tinha apenas dezoito meses. Um vírus qualquer, disseram os médicos. Uma febre que subiu demasiado depressa. Eu estava a trabalhar até tarde — mais uma vez — e o Miguel ficou encarregado das crianças. Quando cheguei a casa, já era tarde demais. Tomás estava inerte nos braços do pai, e eu nunca vou esquecer o grito que dei ao ver aquele corpinho mole, a pele pálida, os olhos fechados como se dormisse.
Os dias seguintes foram um borrão de lágrimas, telefonemas e silêncios. A minha mãe veio de Setúbal para ajudar com a Inês, mas eu mal conseguia olhar para ela. Sentia-me vazia, como se metade de mim tivesse sido arrancada à força. O Miguel tentava falar comigo, mas cada palavra dele era uma faca. “Desculpa, Ana… Eu não percebi que era tão grave… Ele parecia só cansado…” Eu queria acreditar nele, queria perdoá-lo, mas a raiva era maior do que tudo.
A família do Miguel também veio — a sogra com as suas rezas e os conselhos inúteis: “Deus sabe o que faz.” Eu queria gritar-lhe que Deus não sabia nada, que Deus não estava ali quando o Tomás precisou de nós. O meu pai, sempre calado, limitava-se a passar-me a mão pelos cabelos quando eu desabava no corredor.
No funeral, chovia tanto que parecia que o céu também chorava por nós. A Inês perguntava onde estava o mano e eu não sabia o que responder. “O mano foi para as estrelas”, disse-lhe a minha mãe. Mas eu via nos olhos da Inês que ela não acreditava.
As semanas passaram e a casa ficou mais fria. O Miguel voltou ao trabalho na Câmara Municipal, mas chegava sempre tarde. Eu fiquei em casa com a Inês, mas não conseguia fazer nada — nem cozinhar, nem limpar, nem brincar com ela. Só chorava. A Inês começou a fazer birras, a pedir pelo irmão. Uma noite, ouvi-a sussurrar para o boneco preferido do Tomás: “Volta para casa…”
Uma tarde, depois de mais uma discussão com o Miguel — ele queria que eu fosse ao psicólogo, eu dizia que não precisava — a minha mãe sentou-se comigo na varanda.
— Ana, filha… Tu tens de te perdoar também. Não foi culpa tua.
— Mas foi culpa minha! Eu devia ter estado em casa! Devia ter visto que ele estava pior! — gritei-lhe.
Ela abraçou-me com força. Senti-me outra vez criança, perdida no colo da mãe.
O tempo foi passando e as pessoas começaram a afastar-se. Os amigos deixaram de ligar. No supermercado, as vizinhas desviavam o olhar. Só a Inês me obrigava a sair da cama todos os dias.
Um dia, encontrei uma carta do Miguel na gaveta da mesa-de-cabeceira:
“Ana,
Sei que nunca me vais perdoar. Eu também não me perdoo. Mas precisamos um do outro para sobreviver. A Inês precisa de nós. Não sei como continuar sem o Tomás, mas não quero perder-te também.
Amo-te,
Miguel”
Chorei durante horas com aquela carta nas mãos. Pela primeira vez em meses, abracei o Miguel quando ele chegou a casa. Chorámos juntos no corredor escuro.
Começámos a ir juntos às consultas de psicologia no centro de saúde. Falámos sobre o Tomás — sobre as memórias boas e más. Falámos sobre a culpa e sobre o medo de perdermos também a Inês.
A relação com os meus pais melhorou devagarinho. A minha mãe começou a trazer bolos para o lanche; o meu pai levava a Inês ao parque para eu poder descansar um pouco.
Mas nem tudo era fácil. O Miguel teve uma crise de ansiedade no aniversário do Tomás; eu desatei aos gritos com ele porque ele se esqueceu de comprar flores para o cemitério. A Inês começou a ter pesadelos e acordava a chorar pelo irmão.
Numa dessas noites, sentei-me na cama dela e ela perguntou:
— Mamã, achas que o mano tem frio lá nas estrelas?
Senti um nó na garganta.
— Não sei, filha… Mas acho que ele sente o nosso amor todos os dias.
Ela abraçou-me com força e adormeceu encostada ao meu peito.
Hoje passaram dois anos desde aquela noite. Ainda dói todos os dias. Ainda acordo à espera de ouvir o riso do Tomás pela casa. Mas aprendi que a dor nunca desaparece — só muda de forma.
O Miguel e eu estamos juntos — mais frágeis, mas também mais próximos. A Inês cresceu e fala do irmão como se ele fosse um anjo da guarda.
Às vezes pergunto-me: será possível voltar a ser feliz depois de perder um filho? Ou aprendemos apenas a viver com um vazio no peito? E vocês? Como lidariam com uma perda assim?